Fraternidade Rivotorto inicia missão na Paróquia Sagrada Família, em Areias

Fraternidade Rivotorto inicia missão na Paróquia Sagrada Família, em Areias

Em solenidade do II Domingo da Páscoa, comunidade acolheu Frei Jaime Ribeiro como referência pastoral para administração da paróquia

Frei Laércio Jorge, OFM[1]

Ribeirão das Neves – MG – Em um ambiente marcado pela alegria e pela esperança, a Paróquia Sagrada Família, localizada no bairro de Areias, em Ribeirão das Neves, viveu um momento histórico no último domingo, 11 de abril. Durante a liturgia do II Domingo da Páscoa, conhecido como Domingo da Divina Misericórdia, foi oficialmente iniciado o trabalho pastoral da Fraternidade Rivotorto naquela comunidade, com a apresentação de Frei Jaime Ribeiro como o frade de referência para conduzir os destinos da paróquia.

A celebração contou com a presença maciça das diversas comunidades que compõem a paróquia, além de amigos e benfeitores vindos de Torneiros, Tavares e Pará de Minas. Tudo estava preparado: a organização refletia no coração acolhedor dos fiéis, nos olhares atentos e no canto que elevava a assembleia em uníssono.

Frei Jaime foi apresentado àquela porção do povo de Deus pelo Vigário Episcopal da região Nossa Senhora da Conceição, Padre Antônio Moacir, que destacou a missão da Fraternidade Rivotorto e a confiança depositada no novo administrador pastoral. A fraternidade chega para assumir os trabalhos junto à comunidade, dando continuidade à caminhada de fé e compromisso social que marca a paróquia.

Em sua homilia, o Vigário Episcopal, Padre Antônio Moacir, proferiu uma exortação que atravessou os corações dos presentes, partindo do conjunto teológico formado pelas leituras do domingo. “Os textos formam um conjunto teológico extraordinário para pensarmos a vida das comunidades cristãs no Brasil”, afirmou.

“Cada um, a seu modo, revela dimensões essenciais da experiência pascal: a comunhão de bens como expressão do amor concreto, a fé que vence o mundo como fruto do nascimento de Deus, e o encontro com o Ressuscitado que carrega as chagas da paixão.”

Fez questão de estabelecer uma distinção fundamental: “Não se trata de amor filantrópico, que dá um pedacinho para cá e um pedacinho para lá, mas do amor fraterno, que é comunhão de vida”. A distinção, segundo ele, é crucial para superar “um cristianismo reduzido a ações assistencialistas descomprometidas com a transformação estrutural”.

Comentando a primeira leitura, o Vigário Episcopal, Padre Antônio Moacir, descreveu a comunidade dos bens partilhados como “profecia social”. Citando o texto bíblico – “A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente sua as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum” (At 4,32) –, ele afirmou que se trata de “um programa de vida que desafia diretamente a lógica neoliberal vigente no Brasil”.

“A comunhão fraterna na comunidade de fé é a revelação do amor de Deus para o mundo”, disse. “Em Atos, esta comunhão se torna tão concreta que ‘não havia necessitado algum entre eles’ (At 4,34). Trata-se da abolição da pobreza no interior da comunidade — um escândalo para o sistema que naturaliza a miséria.”

“A comunidade cristã que leva a sério Atos 4 não pode se contentar com ‘campanhas do agasalho’ ou ‘sopões comunitários’ esporádicos. Trata-se de construir economias solidárias que contrariem a lógica do capital.”

Por fim, o Evangelho de João 20 trouxe a imagem do Cristo que se apresenta aos discípulos com as chagas da paixão. “O Ressuscitado não é um ser celestial desencarnado, mas aquele cuja identidade foi forjada no amor até o fim“, afirmou.

“Qual é a nossa marca de cristãos?”, questionou.

“Não pode ser uma identidade abstrata, desencarnada. Nossa identidade são as chagas que tocamos e pelas quais somos tocados: a fome de 33 milhões de pessoas, o desemprego e a precarização do trabalho, o genocídio da juventude negra periférica, o assassinato de lideranças indígenas e quilombolas, a violência contra crianças, mulheres e idosos, a chaga da solidão.”

Ao final de sua exortação, o Vigário Episcopal, Padre Antônio Moacir, propôs três conversões para as comunidades cristãs:

Primeira: da filantropia à comunhão de vida.
Segunda: do espiritualismo desencarnado à fé que vence o mundo.
Terceira: do medo à missão que toca as chagas.

Com a palavra final, Frei Jaime Ribeiro agradeceu o acolhimento e reafirmou seu compromisso com a caminhada pastoral na Paróquia Sagrada Família. A comunidade, visivelmente emocionada, respondeu com aplausos e cânticos que ecoaram pela igreja.

“Que o Senhor nos dê a sua paz — a paz do Crucificado-Ressuscitado que nos envia em missão”, concluiu o Vigário Episcopal, Padre Antônio Moacir.

“E que nossas comunidades sejam autênticas testemunhas da Páscoa: um só coração, uma só alma, tocando as chagas do povo e anunciando que a morte não tem a última palavra.”

Assim teve início, sob o signo da misericórdia, a missão da Fraternidade Rivotorto em Areias, levando consigo a esperança de uma Igreja mais encarnada, fraterna e profética.


[1] Frei Laércio Jorge, OFM. Graduado em Filosofia e Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Mestre em Ciências Sociais pela PUC-MG.

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