26 anos plantando Sementes de Emancipação
REDE EDUCAFRO MINAS
“Quando compartilhamos o saber, o saber só cresce.
É como as águas que confluenciam.
Quando o rio encontra o outro rio,
ele não deixa de ser rio.
Ele passa a ser um rio maior.”
Antônio Bispo dos Santos
Elaisa de Souza – Coordenação do Núcleo Sede Rede EDUCAFRO MINAS.
Nos dias 01, 02 e 03 de maio de 2026, na escola Lar de Antônio Tereza em Belo Horizonte, estado de Minas Gerais, vivenciamos o Encontro de Núcleos da Rede Educafro Minas. Revivemos a necessidade de estar juntos. Relembramos a potência que é quando fortalecemos nossa rede. Não é sobre um evento qualquer, é sobre reencontro com o objetivo de mergulhar em nossas raízes. Com a flecha da intencionalidade afiada no vindouro propósito: olhar para frente espelhando nas experiências do passado, que nos ajudará a recriar caminhos por estradas já trilhadas em conexão com nossa origem, como a autora filósofa Katiúscia Ribeiro (2019) menciona.
Nosso reencontro inicia com o cine cultural “Trajetórias” que é um documentário de Antônio Bispo dos Santos (1959 – 2023), popularmente conhecido como Nego Bispo – filósofo, escritor, poeta, lavrador e líder quilombola.
Foi um reencontro para discutir sobre educação popular na prática. Quais desafios enfrentamos atualmente? Quais são as práticas pedagógicas autoritárias que enrijecem o ensino popular? Como podemos potencializar nossa rede e promover a participação dos alunos? Quais significados estão emaranhados quando afirmamos que nosso cursinho pré-vestibular comunitário impulsiona a “educação popular?” Quando retornamos à nossa base, quais são os direitos inegociáveis da Rede Educafro Minas? Como podemos nutrir a participação ativa dos alunos no cursinho e o mais importante: como podemos “garantir” a permanência desses alunos?
Quando refletimos sobre o que é educação popular na prática, bebemos das palavras de Nego Bispo. Essas que nutre nosso espírito, assim como as águas da chuva que nutre um solo, que durante muito tempo, estava seco, árido, infecundo e após o nutrir, o revitaliza. Ele menciona que “aprender mesmo a gente aprende quando o saber não é mercadoria. Às vezes eu quero aprender, mas não tenho como pagar. Quando é com as mestras e os mestres populares, eles(as) não cobram. Eles(as) ensinam para manter o conhecimento vivo”.
Plantamos nossos passos com a terra, não sobre ela. A REDE EDUCAFRO MINAS, neste ano de 2026, integra 26 anos de resistência. Reafirma um território simbólico, político e afetivo, onde o tempo é nosso precioso mestre(a), sendo (re)construída por muitas mãos em diálogo com as coletividades e diversidades.
Realizamos rodas de conversa como “Sementes de Emancipação: como a educação popular atravessa nas minhas práticas pedagógicas e quais são os desafios que vivencio” com as intelectuais: Mariana Miranda, Joane Victória Viana Bastos, Mari Posa, Marli Aparecida e Reny Batista. Percebemos o quão nutritivo é convidar mulheres negras que, desde a muito tempo debruçaram e todavia debruçam seus conhecimentos, construindo práticas pedagógicas que sustentam e validam a necessidade de uma educação emancipatória. Por essa razão, destaco aqui duas intelectuais, matrigestoras e professoras, que estiveram presentes desde o princípio, quando tudo era “só mato”, onde a Rede Educafro Minas estava dando seus primeiros passos: Marli Aparecida Ferreira Soares – coordenadora do Núcleo Dércio Andrade localizado na cidade de Passos – e Reny Aparecida Batista – coordenadora do Núcleo Atitude na cidade de Ipatinga.
Reconhecer as presenças dessas matrigestoras ao longo de 26 anos de rede é reconhecer trajetórias que estiveram resistindo desde o princípio. É perceber que, apesar dos desafios e dificuldades, elas são como Baobás. Que na mitologia iorubá, Baobá significa “a árvore da vida”, capaz de sobreviver em climas secos. Baobá representa a força, sendo vital para o fornecimento de alimentos (frutos) e abrigo. Dessa forma, para os povos africanos, esta árvore representa resistência, sabedoria e ancestralidade. Assim como diz Jurema Werneck (1961) – ativista, médica e feminista negra – “Nossos passos vêm de longe”, dessa maneira, a roda alimentada pela presença das matriarcas foi um momento de valorizar suas trajetórias, sabedorias, lutas e inovações, destacando que luta atual é advinda de um legado coletivo, iniciado por muitas mãos e mentes pensantes de muitos anos atrás.
Vivenciamos momentos bastante inspiradores visitando alguns dos territórios de resistência em Justinópolis como: Centro Cultural DiQuebrada e o Quilombo Irmandade Nossa Senhora do Rosário. Mariana Rodrigues, gestora e produtora cultural do espaço, foi quem nos recebeu de portas abertas trazendo toda contextualização da criação da casa. Surge da necessidade de jovens artistas e militantes da região de Ribeirão das Neves organizarem iniciativas culturais e sociais para a comunidade. O lugar funciona como um polo de arte, educação e festa, oferecendo oficinas socioculturais, biblioteca comunitária e eventos. Também é conhecido por abrigar expressões culturais da periferia, como Saraus de Poesia, Rap e Hip-Hop.
Em seguida, fomos visitar o Quilombo Irmandade Nossa Senhora do Rosário, que resiste ao colonialismo há mais de 130 anos. É importante dizer que, este quilombo nasceu onde inclusive não existia a cidade de Ribeirão das Neves. O município foi fundado em 12 de dezembro de 1953. O Quilombo foi sendo construído com o início das reuniões para o Candombe em 1889. Ou seja, o quilombo resistente à mais de 100 anos! A cidade foi sendo povoada ao redor do quilombo, e ao longo do tempo, o território tornou-se um quilombo urbano centenário. Nego Bispo (1959 – 2023) afirma em seu livro “a terra dá, a terra quer” que as cidades estão nos quilombos. Assim como Ribeirão das Neves é que está no Quilombo Irmandade Nossa Senhora do Rosário, Belo Horizonte é que está no Quilombo Sousa, no Quilombo Manzo ou no Quilombo de Luízes, por exemplo. Ele afirma que nos quilombos onde está Minas Gerais estão as mais importantes expressões contracolonialistas compostas por nosso povo afroconfluente. Diz que, ali muito se preservou dos modos quilombolas e seus saberes orgânicos, sendo os modos de ver, de fazer, de sentir e viver.
Quem nos recebeu de corações abertos foram Mestre Dirceu, nascido e criado no quilombo, Vidah Cigarra e demais lideranças do território. Escutar sobre a história da comunidade é algo muito inspirador, pois percebe-se o quanto ao longo desses mais de cem anos de existência, a tradição se mantém viva! Desde do Candombe e do Congado, celebram Nossa Senhora do Rosário, São Sebastião e São Benedito com forte devoção religiosa. Durante a visita, conhecemos um pouco da história do território, escutamos as chamadas toadas que ressoam no toque dos tambores. Escutamos sobre a história do boi sagrado, do padroeiro da casa que é São Benedito – entidade preto velho – cultuado na comunidade durante 100 anos, nas festas no mês de maio e finalizamos com um delicioso café da tarde feito pelas quitandeiras do quilombo.
Em nossa noite cultural, tivemos a presença do boi da manta encantado trazido pelo mestre de capoeira Gercino Alves Batista, popularmente conhecido como Mestre Gê de Lagoa Santa. Fundador do grupo de Capoeira Angola Treme Terra e fundador da Irmandade dos Atores da Pândega. É dançante na Guarda de Moçambique de Nossa Senhora do Rosário do reinado 13 de Maio há 25 anos. Foi uma noite bem animada e extrovertida! Tivemos roda de capoeira com o mestre, as crianças e companheiras (o) do grupo. Em seguida, tivemos apresentações de escolas de samba, recitações de poemas, músicas e Teatro. Os núcleos que apresentaram foram: Foco no Futuro de Betim, Dércio Andrade de Passos, Celeste Estrela de Carangola, Atitude de Ipatinga e da licencianda em Teatro Nega Jorge, residente da Vila Frei Mariano.
Além disso, tivemos momentos de palestras com Lucas Veríssimo – comunicador, palestrante e mestre sem cerimônia – e Bruno Egonu – educador popular, ativista negro e pesquisador/mestre em educação e docência – que discutiram sobre comunicação e lideranças, geopolítica e afins.
Este reencontro foi corpo-território, chão de memórias e cultura viva! Como nos ensina a ancestralidade: nada termina, tudo se transforma. Como Nego Bispo fala: “somos da circularidade: começo, meio e começo. As nossas vidas não têm fim. A geração avó é o começo, a geração mãe é o meio e a geração neta é o começo de novo” (Bispo dos Santos, Antônio, 2023, pág. 102).
Seguimos, com o peito cheio e os pés firmes. Com amor, sabedoria e rebeldia ancestral.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BISPOS DOS SANTOS, Antônio. A terra dá, a terra quer. Imagens de Santídio Pereira; texto de orelha de Malcom Ferdinand. São Paulo: Ubu Editora/ PISEAGRAMA, 2023. 112 pp.
BISPOS DOS SANTOS, Antônio. Nego Bispo Trajetórias. Youtube: 20 de fevereiro de 2024. Disponível em: Nego Bispo – Trajetórias – YouTube. Acesso em: 14 de maio de 2026.
RIBEIRO, Katiúscia. Mulher Preta: Mulherismo Afrikana e outras perspectivas de diálogos. Alma Preta, 24 de janeiro de 2019. Disponível em: http://www.curriculosemfronteiras.org/vol19iss2articles/njeri-ribeiro.pdf Acesso em: 13 de maio de 2026.
SENNA, Janaína (org.). Nossos passos vêm de longe e outras histórias ancestrais. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2025. 96 p.
Autoras: Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Cidinha da Silva, Ana Paula Lisboa e Luciana Nabuco.












