Vivemos em um tempo onde as divisões, a exclusão social e a falta de cuidado com a nossa casa comum muitas vezes nos paralisam.
Frei Igor de Sousa[1]
Vivemos em um tempo onde as divisões, a exclusão social e a falta de cuidado com a nossa casa comum muitas vezes nos paralisam. Se olharmos para o mundo ao nosso redor, é fácil nos sentirmos como a humanidade em Babel: pessoas que falam, mas não se entendem, dispersas e dominadas pela confusão. Foi exatamente em um cenário de incertezas e portas trancadas que os primeiros discípulos se encontravam antes do dia de Pentecostes. O contexto clama, ontem e hoje, por uma intervenção que traga vida aos nossos “ossos ressequidos” (Ez 37, 1-14), renovando nossa esperança.
É no meio dessa fragilidade que somos surpreendidos pela experiência transformadora do Espírito de Deus. De repente, o som de uma forte ventania e as línguas de fogo irrompem. No entanto, na nossa vivência, percebemos que o Espírito Santo não age apenas por meio de sinais de impactante visibilidade, mas atua, sobretudo, interiormente, de dentro para fora e de baixo para cima. Ele penetra as fibras mais íntimas da nossa natureza e vem habitar no profundo de cada ser humano. É uma vivência mística profunda que afasta o medo e transforma pessoas simples, como os pescadores da Galileia e os cristãos de hoje em anunciadores cheios de sabedoria e alegria.
Ao aprofundarmos essa experiência em nossos corações, compreendemos o que ela significa para a nossa vocação plural. O Espírito age lentamente para nos modelar e nos assemelhar cada vez mais a Jesus Cristo. Para nós, que partilhamos do carisma franciscano, como frades nos conventos ou leigos e leigas em nossas famílias, profissões e paróquias, essa conformação abraça toda a obra de Deus. O Espírito atua misteriosamente no âmago de tudo o que existe, operando a reconciliação de toda a criação com o seu Criador. Desse modo, contemplando o Cristo, podemos nos reconhecer irmãos e irmãs de toda criatura. É fascinante perceber que, numa família tão diversa quanto a nossa, o Espírito valoriza a singularidade de cada um e distribui diferentes dons e ministérios para formarmos um único corpo, unidos na mesma comunhão.
Essa iluminação interior exige de nós uma resposta no mundo, um compromisso concreto. O Pentecostes impulsiona todos os cristãos, sem exceção, a serem discípulos-missionários. A força do Espírito nos chama à ação profética no nosso dia a dia e à atenção especial aos que sofrem, aos rejeitados e aos pequenos deste mundo. Somos convidados a sair de nossos isolamentos para promover uma fraternidade autêntica nos ambientes em que vivemos e trabalhamos, onde o perdão, a não-violência, o diálogo e o cuidado com a vida sejam a nova regra. Ele nos fortalece para vencer os obstáculos e sermos sal da terra e luz do mundo em nossas boas obras.
Por fim, ao celebrarmos a solenidade de Pentecostes, olhemos para a caminhada de nossa Província e de nossas comunidades locais, e nos perguntemos como estamos correspondendo a esse dom. Que esta celebração reavive em nós o desejo sincero de nos deixarmos conduzir pelo Espírito, que nos conhece intimamente. Avaliando os nossos passos à luz do Evangelho e da espiritualidade de São Francisco, que possamos seguir fielmente as pegadas de Jesus. Peçamos juntos: Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai (Sl 103, 30).
Que o Senhor nos dê a paz!
[1] Frade menor franciscano. Da Província Santa Cruz. Graduado em Filosofia e estudante do Curso de Graduação de Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia






