O Encontro de Formação Permanente reflete sobre os desafios da vida religiosa consagrada na modernidade líquida. Com assessoria do Padre José Carlos Pereira, o evento debate o impacto da sociedade contemporânea no cotidiano e na convivência fraterna dos frades.
Frei Oton da Silva Araújo Júnior, OFM
O Encontro de Formação Permanente da Província Santa Cruz teve início na manhã do dia 26 de maio, no Seminário Seráfico Santo Antônio, em Santos Dumont (MG). Com o tema “Desafios da vida religiosa consagrada e sacerdotal: ser frade em um mundo líquido”, o evento conta com a assessoria do Padre José Carlos Pereira, religioso passionista, pós-doutorado em Antropologia Social, doutorado em Sociologia, e que nos últimos anos tem realizado estudos e assessorias a respeito do perfil do clero no Brasil.
Em sua intervenção, Padre José Carlos partiu de um diagnóstico geral sobre a Ordem dos Frades Menores no mundo. Em seguida, contextualizou a reflexão a partir da Província Santa Cruz, debruçando-se sobre o panorama provincial. O material foi preparado com cuidado e sensibilidade, trazendo apresentações fortemente voltadas ao universo provincial.
Utilizando as contribuições teóricas do sociólogo Zygmunt Bauman sobre a Modernidade Líquida, o assessor apresentou as principais características dessa liquidez na sociedade contemporânea e suas interferências no modo de pensar, de comportar-se e de vivenciar a vida religiosa e os contextos eclesiais.
Entre as características destacadas, foram elencadas:
O desmanche das estruturas: As grandes instituições sociais perderam sua forma sólida e o seu papel de âncora;
A aceleração do tempo: A fixação em um certo “presentismo”, pautado na velocidade do agora;
A inconstância: Cenário em que a mudança passa a ser a única coisa permanente;
O medo fluido: Um sentimento de insegurança difuso e difícil de ser nomeado;
A privatização da responsabilidade: Tendência em que o indivíduo passa a ser considerado o único culpado por seu sucesso ou pelo seu fracasso;
A mercantilização da fé: Processo que resulta no enfraquecimento da comunidade, na transformação das funções pastorais em serviços pagos e, muitas vezes, na conversão da própria Igreja em uma lógica empresarial.
Todos esses fatores (a fluidez, o individualismo, o consumismo, a aceleração temporal, o fim das estruturas e a consolidação de uma sociedade de consumidores) exercem interferência direta no cotidiano da vida religiosa consagrada.
Com base em uma pesquisa realizada no cenário eclesial brasileiro, Padre José Carlos propôs reflexões sobre a Vida Religiosa a partir da ótica do cuidado e do controle. Para ilustrar essa dinâmica, utilizou as analogias do Big Brother e do conceito de Panóptico, de Jeremy Bentham.
O assessor também analisou o impacto da dinâmica familiar tradicional nesse ambiente. Como a Vida Religiosa se propõe a ser, essencialmente, uma família, esse espelhamento acaba moldando a forma como os membros compreendem tanto os seus vínculos internos quanto as suas próprias relações de consanguinidade.
Além disso, foram apontadas situações desafiadoras para a convivência comunitária, como o diálogo, nem sempre simples, entre o indivíduo e a instituição. Segundo o assessor, o carisma deve ser o grande definidor das relações sociais dentro das instituições religiosas, fazendo com que o sujeito busque adequar-se a um ideário comum.
Por fim, Padre José Carlos enfatizou a relevância da convivência fraterna no interior das congregações, ressaltando que o cuidado mútuo, a atenção e o diálogo são fundamentais tanto para a promoção de uma vida comunitária saudável quanto para a eficácia do próprio testemunho evangélico.
O primeiro dia do encontro contou com intensa interação por parte dos frades participantes, que debateram ativamente com o assessor, demonstrando a relevância e a atualidade do tema para o contexto e o futuro da Província Santa Cruz.












