A jovem nobre que recusou o luxo para fundar a Ordem das Clarissas e transformar a Igreja. Conheça a história de coragem de Santa Clara de Assis.
Irmã Raiany Lopes Pereira, CFS (Congregação Franciscana do Senhor)
No século XIII, entre 1193 e 1194, nasce em Assis, Clara di Favarone. Pertencente à nobreza local, cresceu cercada de privilégios materiais, num castelo que simbolizava poder e segurança. Mas o contexto social e religioso de seu tempo, marcado por cruzadas, doenças e um clero por vezes distante do povo, despertava nela perguntas que o ouro não respondia.
Desde muito jovem, Clara demonstrava profunda piedade e compaixão pelos pobres. Sua mãe, Ortolana, era uma mulher devota que influenciou sua fé e ensinou valores importantes para a vida. Prometida em casamento pelo seu pai, questionava-se se era isso que desejava, pois almejava algo diferente que tocava fortemente seu coração.
Clara escuta Francisco pregar na Catedral de Assis. Ele denunciava o luxo e propunha seguir a Cristo na pobreza radical com a vivência do Evangelho. Vivendo pobre entre os pobres, ele fez com que seu coração fosse profundamente tocado. Aos 18 anos, passa a se encontrar com Francisco, que a orientou no caminho da pobreza e do Evangelho. Sua alma ansiava pela vida de total entrega a Cristo, renunciando às riquezas, ao casamento e ao conforto de sua família nobre.
Na noite de Domingo de Ramos de 1212, Clara foge da sua casa para viver na pobreza. Segue para a igrejinha da Porciúncula, onde corta os cabelos e troca as vestes nobres por um hábito simples. Como forma de proteger-se de seu tio, Clara se recolhe em um mosteiro das beneditinas, para depois ir ao Convento de São Damião. Ali começaria uma revolução silenciosa.
Em 1212, Clara inicia a Ordem das Damas Pobres, conhecida como Clarissas, em um mosteiro ligado à Igreja de São Damião, em Assis. Durante muito tempo, Clara lutou para conseguir o Privilégio da Pobreza, por meio do qual escolheu viver sem nenhuma posse, sustentando-se pelo trabalho manual e pela caridade, diferentemente dos mosteiros existentes em Assis, que tinham uma hierarquia já estabelecida.
Clara de Assis abraça a Pobreza como um programa de vida. A paixão pelo Cristo Pobre está centrada no movimento do Deus Altíssimo, que se faz pobre e pequeno no presépio e na entrega da cruz. Viver a pobreza é viver na dinâmica da gratuidade de Deus. A Pobreza clariana é vida concreta, não somente pobreza em espírito.
Clara desafiou a realidade do seu tempo, escolheu um caminho: viver o Evangelho sem concessões, com autonomia. Sua espiritualidade não é fuga do mundo, mas transfiguração da matéria. A pobreza evangélica é a espinha dorsal na forma clariana de seguimento a Jesus Cristo. Clara não separa o seguimento de Cristo da vida de pobreza. Por isso, a não apropriação faz de Clara e suas irmãs pessoas livres.
Assim, vemos Clara tão convicta de sua opção que escreve a sua própria Regra ou Forma de Vida, e nela não abre mão do Privilégio da Pobreza. Conseguir esse privilégio era a garantia de não possuir nada, não ter posses, não ter bens. Viver na gratuidade e da providência de Deus. Dois dias antes da sua morte, Clara consegue a aprovação da sua Regra pelo Papa Inocêncio IV, marcando um momento único na história da Igreja.
O Mosteiro de São Damião tornou-se o berço dessa nova forma de vida religiosa feminina, onde Clara viveu por mais de 40 anos, guiando suas irmãs com sabedoria e amor evangélico. Sua vida não era poesia medieval, mas profecia encarnada. Uma jovem que trocou o castelo pela clausura não por rejeição ao mundo, mas por amor a ele, transformando-o por meio da misericórdia.
Clara morreu no dia 11 de agosto de 1253, uma mulher que viveu a sua vocação com profundidade, vigor e humildade. Ela nos ensina que a santidade se faz no cotidiano, com as mãos no trabalho e o coração no absoluto. Ainda hoje, Clara mostra que a pobreza evangélica não empobrece: liberta.
Fonte: Boletim Informativo “Amigos de São Francisco”. Serviço de Animação Vocacional Franciscano. JULHO/AGOSTO – Nº 165- 2026






