Para refletirmos sobre a morte, o texto bíblico de Mt 5,1-12 sobre as bem-aventuranças nos faz pensar sobre da morte na marcha de uma vida bem-aventurada.
Frei Jacir de Freitas Faria [1]
Ao celebrarmos o Dia de Finados, daqueles que encerram o seu ciclo de vida no nosso meio, bate uma saudade imensa de um tempo que não volta mais. Cada ser humano experimenta de forma diferenciada a dor da morte. Perder o pai não é o mesmo que perder a mãe, um filho, uma filha ou um amigo. Tudo depende de como nos relacionamos com eles em vida. Em tempos recentes de pandemia, milhões acrescentaram à morte a dor o não poder dar adeus aos seus parentes e amigos. E como isso foi doído para muitos de nós!
Para refletirmos sobre a morte, o texto bíblico de Mt 5,1-12 sobre as bem-aventuranças nos faz pensar sobre da morte na marcha de uma vida bem-aventurada. Ser um bem-aventurado é um estar a caminho, um em marcha. O termo Ascherê em hebraico, makairo em grego, traduzido para o português bem-aventurado significa estar em marcha, a caminho, em movimento. Não estar parado como um santo no altar. Substitua bem-aventurado na tradução para “em marcha” e você vera como muda a compreensão. Viver é a arte de bem-morrer! [2]
Por isso, podemos afirmar que amor e morte são palavras sinônimas! Com o tempo, a dor se transforma em saudade eterna. Só o luto é que não pode ser eterno. A roda vida deve continuar até o seu destino reservado a todos os mortais. Quem para no luto morre também. Torna-se um morto vivo! A marcha do luto tem que seguir em frente. O enlutado precisa deixar o falecido partir para junto de Deus. “Tive que partir” expressou muito bem o cantor poeta Rick, morto recentemente em acidente aéreo.
A mãe será sempre o cordão umbilical que se rompe com a morte. Rompido, chega o vazio da orfandade. Já a morte de um filho é o mesmo que devolver para Deus o dom recebido, gerado no mesmo Amor que nos ajuda a vencer os sofrimentos da vida.
Guardo comigo a certeza de que um dia verei a Deus, quando então poderei contemplá-Lo face a face numa felicidade eterna. A esperança apocalíptica se realizará: “Deus enxugará toda lágrima dos nossos olhos, pois a morte já não mais matará. Nada mais existirá, nem luto, nem choro, nem dor (Ap 21,4). “Bem-aventurados entre os mortos o que adormeceu no Senhor. Repousar de suas fadigas vai, quem por Deus viveu no labor” (Ap 14,13).
Nessa perspectiva da bem-aventurança apocalíptica, o evangelho de Mt 5,1-12 nos apresenta nove caminhos de marcha bem-aventurada. Jesus ensinou que é preciso viver em paz, a ser um bem-aventurado, a estar em marcha pela paz. “Em marcha os que têm sede e fome de justiça, porque serão saciados. Em marcha os que lutam pela paz!” Continuem lutando, mas sem a arma que mata, sem a guerra. Cada bem-aventurança é uma proposta de marcha. Quem está em marcha é um bem-aventurado, pois está no e a caminho. O caminho é sempre uma marcha que não para nunca. O caminho se faz caminhando, dizem os poetas. A vida é sempre uma marcha. Ai de nós se não soubermos caminhar para o Bem. Ai daqueles que perdem o bonde da história. Tudo passa rápido. O que é hoje, amanhã não será! O grande desafio da vida é traçar laços de eternidade na finitude da vida terrena para encontrar a imortalidade da vida Eterna em Deus. Essa é a nossa fé! Esse é o sentido da vida e da morte!
Quem tem consciência da morte, não deixa para amanhã aquilo que se pode fazer hoje, celebra a vida com intensidade. Quando chega a dor, a doença não há o que festejar. Aí também é necessário viver com intensidade a dor. Embora, a nossa tendência natural é negar esta cruel realidade.
No dia do aniversário de alguém é costume entre nós desejar muitos anos de vida. Estas palavras expressam o desejo de vida em abundância, como se a morte não existisse. Com isso falseamos a realidade. A vida tem um fim. Melhor seria desejar muita vida nos anos de vida que ainda restam para aquela pessoa. Assim estaríamos desejando intensidade nos gestos e ações da vida desta pessoa e não vida sem vida.
E na vida, muitas vezes, vivemos fugazmente. Pena que quando a morte se aproximar, ou idade avançada sinalizar que a morte está chegando, não haverá mais o que fazer. Encanta-me a poesia Instantes, de Jorge Luis Borges, quando diz: “Se eu pudesse viver novamente a minha vida, trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, seria mais relaxado. Seria mais bobo do que fui” Borges continua poeticamente afirmando que passou a vida inteira encarando tudo com seriedade, sendo metódico, comendo verduras para não engordar… Ele afirma: “Eu fui dessas pessoas que viveu sensata e corretamente cada minuto de sua vida. Mas se eu pudesse voltar atrás” – exclama. “Procuraria ter bons momentos. Se não sabem, disso é que é feita a vida. Somente de momentos. Não percam o agora”, responde. “Se pudesse voltar a viver?” é a pergunta que ele deixa no ar. Se tivesse outra vida pela frente, faria tudo diferente, mas, termina o poema: “Tenho 85 anos e estou morrendo.”
Não há muito que dizer diante desta maravilha poética. Vida não vivida com intensidade gera uma frustração em nós, quando a morte se aproxima. A vida parece que ficou inacabada. É o que quis dizer o poeta. Uma marcha não concluída com sabedoria!
A vida é uma arte, um eterno rodízio do nascer e morrer. Uns vão e outros vêm. E a vida continua o seu curso. Na vida, há um tempo para tudo, plantar, arrancar a planta; matar e curar; destruir e construir; chorar e rir; atirar pedras e recolher pedras; guerrear e fazer paz, abraçar e separar. Há um momento para cada coisa. Há de tudo na vida. Quem compreende este mistério vive a vida com intensidade. Viver é a arte de viver intensamente no amor! Morrer é arte, desde que se tenha vivido com intensidade. Viver e morrer se entrelaçam numa única marcha. A morte, no entanto, é o princípio de sabedoria para quem entendeu o seu sentido. São Francisco de Assis entendeu isso, quando chamou a morte de “Irmã morte’! Dê sentido à sua vida enquanto é tempo, pois a morte é certeira. Todos morreremos! Que a morte seja a sua irmã na roda da vida! Que os nossos falecidos intercedam a Deus por nós!
[1]Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de treze livros e coautor de dezessete. Publicou recentemente Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento. Canal no Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ No Instagram e Tiktok @freijacir
[2]Para a temática da morte e sua relação com os apócrifos marianos assuncionitas, a idade Média e sua releitura no Brasil Colônia na irmandade de mulheres negras de Cachoeiro (BA) veja o nosso livro: O medo do inferno e arte de bem morrer (Petrópolis, Vozes).





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