“A semente de Francisco continua a crescer”.

“A semente de Francisco continua a crescer”.

Emocionado, Ministro Geral celebra o encerramento de sua visita fraterna, no Salão Paroquial da Igreja São Francisco das Chagas, em Belo Horizonte, e entrega a cada fraternidade uma vela acesa: “A vida de vocês importa – não pelo que produzem, mas pelo que são”.

Frei Laércio Jorge, OFM[1]

Belo Horizonte (MG) – A manhã do dia 7 de abril de 2026 ficará gravada na memória da Província Santa Cruz. No salão paroquial da Igreja São Francisco das Chagas, em Belo Horizonte, reunidos os frades vindos de todas as fraternidades mineiras, realizou o encontro de encerramento da visita fraterna do Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, Frei Massimo Fusarelli, e do Definidor Geral para a América Latina, Frei César Külkamp. Com o espírito dos 800 anos do Trânsito de São Francisco – o coração da mensagem do Ministro Geral foi precisamente este: a semente do Poverello continua viva, e cada frade, onde quer que esteja, é parte dessa fecundidade.

O encontro começou iluminado pela luz suave da manhã. Os frades – muitos deles com décadas de hábito franciscano, rostos marcados pelo tempo e pela missão – achegavam. Uma assembleia que era, ela mesma, um sinal daquilo que Frei Massimo viria a chamar de “mosaico da diversidade”.

Na mensagem final – que se estendeu em uma intervenção profunda, quase uma carta aberta à Província – o Ministro Geral começou com palavras que tocaram fundo: 

“Caros irmãos, o Senhor lhes dê a paz! Estou muito feliz de estar aqui com vocês hoje. E quero começar dizendo algo que acredito com todo o meu coração: a vida de vocês importa. A vocação de vocês importa. Não pelo que ainda podem fazer ou produzir, mas pelo que são e pelo que carregam dentro de si.”

Foi um reconhecimento explícito aos frades mais velhos, aqueles que “percorreram estradas, celebraram a Eucaristia em lugares grandiosos e humildes, suportaram o peso da vida comunitária – às vezes com alegria, às vezes a um grande custo pessoal”. Frei Massimo os chamou de “semente viva do Evangelho em ação”.

Inspirado na carta dos Ministros Gerais de toda a Família Franciscana para o centenário 1226–2026, Frei Massimo apresentou três dons que Francisco plantou no mundo.

Primeiro: a misericórdia. Francisco não mudou porque escolheu a pobreza, mas porque mostrou misericórdia aos leprosos. E ali descobriu o rosto de Cristo. 

“A misericórdia não exige força física. Não exige ser jovem. A misericórdia é questão do coração. Uma palavra amiga, uma oração, um sorriso que diz ‘eu vejo você’ – esta é a misericórdia de Francisco, viva e ativa, aqui e agora, em cada um de vocês.” 

E citou as obras sociais da Província: a Associação Irmão Sol, o Centro Franciscano de Defesa de Direitos, o CESFRAN, o CESCLAR, o Colégio Santo Antônio. “Estas obras são a misericórdia de Francisco feita carne no coração de Minas Gerais.”

Segundo: a fé na Igreja. Francisco plantou sua semente numa Igreja pobre, frágil, ferida – mas a amou como Mãe. 

A Igreja, com todos os seus espinhos, continua sendo o campo onde o Semeador nunca para de lançar a sua semente. Vocês são a prova viva disso.”

Terceiro: fraternidade e paz. Francisco não queria uma pirâmide, mas um círculo. “Uma fraternidade sem poder, onde todos lavam os pés uns dos outros.” E lembrou que Jesus enviou os discípulos “dois a dois”. 

“Não somos enviados como profetas solitários, mas como fraternidade. A fraternidade não é apenas o contexto da nossa vida, mas é ela mesma anúncio evangélico num mundo marcado pelo individualismo.”

Com a mesma ternura, mas também com a franqueza de quem ama, Frei Massimo expressou sua gratidão pela Província: pela seriedade da oração, pela simplicidade de vida, pela solidez administrativa. E fez um gesto de reconhecimento que deixou a fraternidade emocionada: 

“Desejo expressar a minha alegria pela eleição de Frei Vicente Paulo do Nascimento, irmão leigo, como Ministro Provincial. Esta escolha testemunha a maturidade da vossa Província em reconhecer os dons de cada irmão, para além da condição clerical ou laical. É um sinal belo e profético de fraternidade autêntica.”

Mas o Ministro Geral não escondeu os desafios apontados no relatório do visitador: tensões nas relações fraternas, conflitos de autoridade, o choque entre gerações, o risco de estagnação e comodismo diante da estabilidade econômica, e exortou:

“Não podemos esperar tudo da Província, mas caminhar rumo à autossustentabilidade das fraternidades e à corresponsabilidade. Não precisamos estar em todos os lugares. É melhor ter menos presenças, mas mais significativas, onde o testemunho da vida fraterna em minoridade seja verdadeiramente profético.”

Frei Massimo também abordou com delicadeza e firmeza temas sensíveis como: a fragilidade emocional de muitos jovens que chegam à formação; a necessidade de maturidade afetiva e sexual; o desafio da saúde mental. 

“Não podemos favorecer, nem mesmo com o silêncio, a ideia crescente de uma vida religiosa onde o indivíduo decide como viver os conselhos evangélicos em nome do bem-estar e da autorrealização individual.”

E lembrou que a melhor animação vocacional é a qualidade da vida fraterna. “Quando as nossas fraternidades são casas de oração, de comunhão fraterna e de serviço alegre aos pobres, elas naturalmente atraem vocações.”

O ponto alto da mensagem foi quando Frei Massimo se dirigiu diretamente aos frades idosos, àqueles que poderiam sentir que “os melhores anos ficaram para trás”. Ele recordou Francisco nu sobre a terra nua na Porciúncula: 

“Tinha dado tudo. E, no entanto, naquele exato momento, ele era mais fecundo do que nunca. Porque a semente faz o seu trabalho mais profundo quando cai na terra, quando está escondida. Este é o mistério da nossa vida, irmãos. A fecundidade da semente não depende da nossa força, mas do amor com que fomos semeados. E fomos semeados pela mão do próprio Deus.” E concluiu: “Qualquer que seja o estado em que nos encontremos. Com saúde ou com doença. Em plena atividade ou na quietude da aposentadoria. Exatamente onde você está, a semente de Francisco está viva em você e dando fruto.”

Ao final encontro, Frei Massimo tomou o Círio Pascal – a grande vela que representa o Cristo ressuscitado, aceso na Vigília – e, de sua chama, acendeu uma a vela para cada fraternidade presente. Foram velas especialmente preparadas por Frei Francisco Alexandre Viana, para a recordação desta visita fraterna e as comemorações dos 800 anos do Trânsito de São Francisco. “Que o espírito do Ressuscitado, que viveu em Francisco, continue a nos guiar em nossa missão de testemunhar o Evangelho.”– foi a prece do Ministro Geral.

Uma a uma, as velas foram entregues aos guardiães das fraternidades. A luz se espalhou pelo salão, refletindo nos rostos cansados, mas radiantes, dos frades mais velhos e no olhar dos mais jovens. Era a Páscoa que se prolongava – e a semente de Francisco que, 800 anos depois, ainda germinava em terras mineiras.

Antes da oração final, Frei Massimo anunciou que a Ordem acaba de publicar a Ratio Evangelizationis, intitulada Ite in Mundum – “Ide pelo mundo”. Um convite a redescobrir a missão não como algo que se faz depois, mas como a própria razão de existir. “Mesmo na condição de vida em que se encontram, vocês são parte desta missão. A oração de vocês a sustenta. O testemunho de vocês a inspira.”

E, como Francisco teria desejado, concluiu com a bênção: 

O Senhor vos abençoe e vos guarde. Mostre a vocês a Sua face e tenha misericórdia de vocês. Volte para vocês o Seu olhar e lhes dê a paz.”

O encontro entre o Ministro Geral e os frades terminou. Mas as velas acesas, levadas para cada fraternidade continuarão a nos lembrar: a semente de Francisco continua a crescer. Cabe a todos, jovens e idosos, doentes e sãos, ativos e aposentados, fazê-la dar fruto.

Para Pensar:

1 – Frei Massimo afirmou que “a vida de vocês importa” aos frades idosos, que muitas vezes se sentem “inúteis”. Como as fraternidades podem resgatar a sabedoria dos frades mais experientes sem cair na tentação de tratá-los como “problemas a serem geridos” ou como “tesouros a serem apenas preservados”?
O que significa, na prática, curvar-se diante do irmão que já não pode “produzir” mas continua sendo semente viva?

2 – O Ministro Geral alertou contra o comodismo e a estagnação, propondo uma redução de presenças para que o testemunho franciscano seja mais profético. Em uma Província que enfrenta diminuição vocacional e desafios econômicos, o que significa “ser franciscano” senão aceitar a minoridade também no número de obras e frades?
Como viver a pobreza e a confiança na Providência ao tomar decisões dolorosas de fechar fraternidades ou entregar paróquias, sem perder a alegria e a esperança?

3 – Frei Massimo reconheceu que muitos jovens chegam à formação com “feridas emocionais e situações de vulnerabilidade” e pediu que a saúde mental entre na agenda formativa. Acolher o outro significa acolher também suas sombras, seus traumas, suas dificuldades afetivas e sexuais. Mas acolher-se significa que a própria fraternidade e os formadores precisam reconhecer seus limites – não podem “salvar” ninguém, nem substituir a terapia ou a psiquiatria.
Como construir um ambiente formativo que seja ao mesmo tempo misericordioso e exigente, que não banalize o sofrimento nem o transforme em obstáculo intransponível para a vocação?


[1] Frei Laércio Jorge, OFM. Graduado em Filosofia e Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Mestre em Ciências Sociais pela PUC-MG.

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