7 de abril: Dia Mundial da Saúde. “Corpos sarados em tempos adoecidos”

7 de abril: Dia Mundial da Saúde. “Corpos sarados em tempos adoecidos”

Refletir sobre a saúde nos faz pensar em todo o contexto social em que vivemos. Vista de forma integral, a saúde nos diz de nosso bem-estar físico, mental, social e espiritual.

Frei Oton Júnior, ofm

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1946, definiu saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas como a ausência de doença ou enfermidade. Essa ideia se alinha às Escrituras judaico-cristãs, que também compreendem a saúde não apenas como uma dimensão biológica, mas como algo que abrange a pessoa como um todo, inclusive em sua relação com Deus. Biblicamente, todo esse bem-estar, completude e plenitude de vida estão sintetizados na ideia do Shalom. Para nossos pais e mães na fé, uma vida de proximidade com o Senhor Deus equivale a uma existência biologicamente saudável, economicamente equilibrada e em harmonia com tudo ao redor.

Voltemos à definição da OMS. Pense em sua vida cotidiana e reflita se você está em um “completo bem-estar físico, mental e social”. Em 1978, Walter Franco parecia resumir a mesma ideia ao cantar: “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”.

Não se espante, no entanto, se perceber que você não está nesse patamar. A definição é mesmo utópica. Afinal, nas vicissitudes da vida, raras vezes conseguimos integrar as dimensões física, mental, social e — podemos acrescentar — espiritual.

Nosso tempo elegeu a saúde como um dos bens mais importantes da vida. Nossos corpos devem seguir critérios não apenas bioquímicos, mas também estéticos (talvez os mais valorizados!). Tudo isso ocorre dentro de uma economia de mercado, na qual tudo se torna mercadoria — e a saúde não poderia deixar de ser entendida como uma oportunidade de negócio. Os planos de saúde praticam preços inalcançáveis, as cirurgias estéticas estão em alta, e a indústria farmacêutica sempre apresenta novidades, prometendo soluções mágicas (“seus problemas acabaram”). As farmácias já não parecem mais farmácias, mas locais agradáveis de compra e consumo. (Afinal, quantas farmácias há perto da sua casa?).

Em nossos tempos, o holofote não se volta apenas para os níveis físicos, mas também psíquicos. Até recentemente, dizer que um incômodo era “psicológico” equivalia a minimizar sua gravidade, como se fosse uma invenção passageira. Hoje, cada vez mais, nos conscientizamos da importância da saúde mental. E, convenhamos, o estilo de vida moderno nos adoece a cada dia: a pressa, a pressão por metas, as longas distâncias, o fast food, as relações abusivas e tantos outros fatores nos fazem questionar o tal “completo bem-estar físico, mental e social”. Temos corpos sarados, musculosos, siliconados, com harmonização facial, em uma sociedade adoecida, sem qualidade de vida e sem tempo para nada: para comer, dormir, se encontrar, se divertir e se dedicar a hábitos saudáveis.

Antes de pensar em um corpo adoecido, deve-se investir na prevenção — e a receita todos conhecemos: alimentação balanceada, exercício físico e bons hábitos cotidianos. Como diz a música mineira: “a lição sabemos de cor, só nos resta aprender” (Beto Guedes).

Se devemos competir o tempo todo, se a colaboração diminui a cada dia e se o bem-estar individual se torna o grande fiel da balança, o próprio sentido da vida é posto em xeque — ou em cheque, considerando as motivações econômicas.

Durante a pandemia de Covid-19, o Papa Francisco ressaltou que “considerar a saúde nas suas múltiplas dimensões e a nível global ajuda a compreender e a assumir responsavelmente a interconectividade dos fenômenos. E assim podemos observar melhor como as condições de vida, que são o resultado de escolhas políticas, sociais e ambientais, têm também um impacto na saúde dos seres humanos. […] Afirmamos que a vida e a saúde são valores igualmente fundamentais para todos, baseados na dignidade inalienável da pessoa humana. Mas, se esta afirmação não for seguida de um compromisso adequado para superar as desigualdades, estamos, de fato, aceitando a dolorosa realidade de que nem todas as vidas são iguais e a saúde não é protegida para todos do mesmo modo. […] E este é um grande desafio. Isto ajuda a superar as desigualdades” (27.09.2021).

Por ocasião da Jornada Mundial dos Enfermos de 2025, mais uma vez, o Papa nos convidou à reflexão: “Quantas vezes se aprende a esperar à cabeceira de um doente! Quantas vezes se aprende a crer ao lado de quem sofre! Quantas vezes descobrimos o amor inclinando-nos sobre quem tem necessidades! Ou seja, apercebemo-nos de que todos juntos somos ‘anjos’ de esperança, mensageiros de Deus, uns para os outros: doentes, médicos, enfermeiros, familiares, amigos, sacerdotes, religiosos e religiosas. E isto, onde quer que estejamos: nas famílias, nos ambulatórios, nas unidades de cuidados, nos hospitais e nas clínicas” (11.02.2025).

Dessa forma, vale uma palavra de agradecimento aos profissionais de saúde, sobretudo àqueles que permanecem ao pé da cama dos enfermos, atentos a cada necessidade do paciente. Quando um paciente recebe alta hospitalar, muitas vezes os agradecimentos vão para os médicos — e tal gratidão é justa —, porém, nunca devemos nos esquecer dos técnicos de enfermagem, maqueiros e agentes de saúde que visitam as casas.

Refletir sobre a saúde é refletir sobre toda a nossa vida, não apenas em níveis biológicos, mas também mentais, sociais e espirituais. Temos um longo caminho a percorrer e, se nossa qualidade de vida hoje é melhor do que no tempo de nossos avós, devemos investir em um estilo de vida menos adoecedor, menos individualista, menos competitivo e, é claro, implementar políticas públicas capazes de cuidar não apenas de corpos doentes, mas também de investir na prevenção.

Enquanto escrevíamos, veio a notícia de que o Papa Francisco deixara o hospital, após longa internação. Somos frágeis e necessitamos de cuidados. Uma espiritualidade que entenda o estar com Deus como ausência de sofrimento facilmente será frustrada. Deus, o Senhor da vida, está ao lado do sofredor, dando-lhe forças para seguir a jornada e convidando cada um de nós para uma relação de amor.

Estamos celebrando a Quaresma e, junto a ela, a Campanha da Fraternidade. Assim como devemos considerar uma ecologia integral, também devemos entender a saúde de forma integral: integrando as diversas dimensões da pessoa para, finalmente, podermos dizer que estamos em um completo bem-estar físico, mental, social e espiritual.

Oração pelos Profissionais de Saúde

Senhor, fonte de vida e amor, dirigimos a Ti nossas preces por todos os profissionais de saúde. Abençoa suas mãos, para que sejam instrumentos de cura e de cuidado. Ilumina suas mentes, para que tomem decisões sábias e justas. Fortalece seus corações, para que exerçam sua missão com amor e compaixão. Concede-lhes paciência nos momentos difíceis, coragem para enfrentar os desafios e descanso para que possam renovar suas forças. Protege-os de todo mal, dando-lhes saúde e paz, e que, em cada gesto de cuidado, sintam a Tua presença.

Referências

FRANCISCO, Discurso à Assembleia Plenária da Pontifícia Academia para a Vida (27.09.2021).

FRANCISCO, Mensagem para o XXXIII Dia Mundial do Doente (11.02.2025).

Foto: https://pt.vecteezy.com/fotos-gratis/dia-mundial-da-saude

Frei Oton
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