“Somos chamados a viver como irmãos”: Fraternidade inicia Ano Pastoral com forte apelo à unidade
Na noite desta terça-feira, 17 de março de 2026, a Fraternidade Beato Duns Scotus realizou a cerimônia de Abertura do Ano Pastoral, marcando o início das atividades comunitárias com uma celebração eucarística na capela da fraternidade.
O evento reuniu lideranças das comunidades Santana e Nossa Senhora Aparecida, que pertencem a Paróquia Imaculada Conceição, além de contar com a presença dos padres Paulo, da paróquia Santa Terezinha, e Pedro, da paróquia São Pio X.
A missa foi presidida por Frei Carlos Alexandre, Guardião da fraternidade, que incentivou os fiéis a participarem ativamente da vida comunitária com espírito fraterno, zelo e alteridade. “Somos chamados a viver como irmãos, com coração aberto e disponível para o outro”, destacou.
Durante a reflexão da Palavra, Frei Ademilson Salvino, formador, trouxe uma mensagem de esperança e transformação. Ele ressaltou que “a vida que brota de Deus não é estática; ela se expande e alcança quem está à margem, transformando a morte em vida”.
Em sua fala, também enfatizou que a atuação pastoral não deve seguir a lógica da competição, mas sim promover a circulação da vida e servir como força propulsora para ajudar as pessoas a se reerguerem, especialmente em contextos de sofrimento.
Após a liturgia eucarística, a confraternização seguiu em torno de uma mesa partilhada, celebrando a unidade e o acolhimento. Como lembrou um dos momentos da celebração: “No caminho da vida sofrida, há irmãos sem abrigo, sem chão”. O encontro reforçou o compromisso da fraternidade com a inclusão e a solidariedade ao longo do ano que se inicia.
Homilia da Terça-feira da 4a Semana da Quaresma – Frei Ademilson Salvino dos Santos
Amados irmãos e irmãs, celebramos um tempo importante do tempo pascal, momento de no qual os evangelistas sempre nos convidam a ficarmos atentos para que não pratiquemos a vossa justiça na frente dos homens, para serdes vistos por eles. Porque assim vamos receber a recompensa dos homens e não a que Deus tem preparado para cada um de nós. Ainda nos convida aos exercícios quaresmais: a doarmos esmolas, sermos pessoas de oração e a praticar o jejum. Todas essas atitudes nos ajuda termos um coração purificados para alcançarmos mais plenamente a filiação divina.
Estamos na 4° semana do tempo quaresmal e a riqueza da liturgia de hoje nos impressionante e ao mesmo tempo interpela, sobretudo quando colocados em diálogo. Eles não falam apenas de água ou de cura, mas de vida que brota de Deus e se espalha até alcançar quem está à margem.
Começando pela primeira leitura, do profeta Livro de Ezequiel (47,1-9.12), estamos diante de uma visão profundamente simbólica. O povo de Israel viveu a experiência traumática do exílio, da perda do Templo, da terra, da identidade. E, nesse contexto de morte, o profeta anuncia algo novo: do próprio Templo nasce uma água. Não é uma água qualquer, mas uma água que cresce progressivamente, dos tornozelos, aos joelhos, à cintura, até se tornar um rio impossível de atravessar.
Essa progressão não é apenas geográfica, mas teológica. Ela revela que a vida de Deus não é estática, ela se expande, ela transborda. E mais ainda: essa água vai em direção ao deserto, ao Mar Morto, lugar de esterilidade, e ali transforma a morte em vida. Onde antes não havia nada, agora há peixes, árvores, frutos, remédio. Trata-se de uma imagem clara de restauração: Deus não fica fechado no Templo, Ele faz a vida sair de si e alcançar tudo aquilo que está ferido.
Passando ao Evangelho de Evangelho de João (5,1-16), encontramos também água, mas agora em um cenário bem diferente: a piscina de Betesda. Ali estão reunidos os excluídos: cegos, coxos, paralíticos. Pessoas que vivem à espera de um milagre que depende de um movimento da água e de uma lógica de competição: quem entra primeiro é curado.
Aqui aparece o contraste com Ezequiel. Lá, a água vai ao encontro de todos e gera vida em abundância. Aqui, a água é limitada, gera disputa e deixa muitos de fora.
E é nesse contexto que Jesus entra. Ele não espera a água se mover. Ele não entra na lógica da competição. Ele vai diretamente ao homem que está há 38 anos doente, um número simbólico que lembra o tempo de caminhada no deserto, ou seja, uma vida inteira de espera e frustração.
A pergunta de Jesus é provocadora: “Queres ficar curado?” Parece óbvia, mas revela algo profundo: aquele homem já estava tão acostumado à sua condição que sua resposta não é um “sim”, mas uma justificativa, “não tenho ninguém”. É a solidão, o abandono, a falta de alguém que o leve.
E então Jesus realiza algo novo: Ele já havia se revelado como um rio de agua viva. A cura não vem mais de um mecanismo religioso, mas da sua Palavra pergormativa: “Levanta-te, pega a tua cama e anda”. É uma palavra que restitui dignidade, autonomia, vida.
Esses textos nos ajudam a compreender que Deus não está preso a estruturas, lugares ou sistemas religiosos. Ele é aquele que faz a vida circular, que rompe bloqueios, que atravessa desertos e chega onde ninguém chega.
O que vemos nos textos é exatamente isso: Deus que não permanece distante, mas que vem habitar no meio da realidade humana, sobretudo onde há sofrimento. Em Ezequiel, Ele faz brotar vida no deserto. No Evangelho, Ele se aproxima de um homem sem ninguém, um homem sem rede, sem apoio, sem “moradia relacional”.
Hoje, quando pensamos na realidade da moradia, percebemos que não se trata apenas de falta de casa, mas de algo mais profundo: falta de dignidade, de pertencimento, de cuidado. Há muitos “paralíticos de Betesda” espalhados pelas nossas cidades, pessoas à beira da vida, esperando uma oportunidade que nunca chega, muitas vezes porque o sistema favorece sempre os mesmos.
O hino da Campanha expressa isso com muita força: “No caminho da vida sofrida, há irmãos sem abrigo, sem chão…”. Essa imagem dialoga diretamente com o homem do Evangelho: alguém que está ali, mas não consegue entrar. Está perto da água, mas não tem acesso à vida. E então o hino nos oferece a chave cristológica: “O Verbo se fez moradia”. Isso muda tudo. Deus não apenas dá uma casa, Ele se faz casa. Ele se torna espaço de acolhida.
À luz da Campanha da Fraternidade, somos chamados a compreender que evangelizar é também ajudar a construir espaço de vida. Não apenas casas de tijolo, mas comunidades que sejam casa, onde cada pessoa encontre acolhida, escuta, respeito e dignidade.
Somos enviados a ser presença de Cristo, que se aproxima daquele que ninguém vê, que escuta aquele que não tem ninguém, e que diz com autoridade: “Levanta-te”. A missão é isso: ajudar pessoas a se levantarem, a recuperarem sua dignidade, sua fé, sua esperança.
A liturgia de hoje nos convida a deixar que a graça de Deus também nos alcance e nos coloque de pé, para que, renovados, nos tornemos instrumentos de vida na vida dos nossos irmãos e irmãs, especialmente dos que mais precisam.
















