Ministro Geral dos Frades Menores é acolhido ao som de cânticos franciscanos no Convento Santa Maria dos Anjos; em homilia emocionada, afirma que “a formação não é preparação para a missão, mas é a própria missão”
Frei Laércio Jorge, OFM[1]
Betim (MG) – O domingo da Ressurreição amanheceu com um sol tímido, mas forte, sobre o Convento Santa Maria dos Anjos. Nas escadarias de acesso à fraternidade, um coro de vozes esperava ansiosos. Não eram vozes ensaiadas para o perfeccionismo, mas vozes de irmãos que cantavam com o coração aberto: “Bem-vindo, bem-vindo, só estava faltando você aqui, seja bem-vindo!” E depois, uma invocação a Francisco: “Pai Francisco, vem ensinar teus filhos o Cristo imitar… Francisco, irmão da natureza, amigo do Senhor, grita aos homens surdos o respeito pela paz.”
O acolhido era Frei Massimo Fusarelli, Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, acompanhado do Definidor Geral para a América Latina, Frei César Külkamp. Chegavam para viver, na simplicidade do convento betinense, o coração da Páscoa franciscana.
A calorosa acolhida não se limitou às canções. Frei Massimo foi conduzido ao refeitório, onde a mesa já estava posta com delícias das Minas Gerais: queijo, pamonha, mingau de milho verde. Era o primeiro gesto de uma fraternidade que entende que a Páscoa se celebra também com o paladar – e com a partilha do que a terra dá.
Às 11h30, a fraternidade local e os convidados – entre eles, as Fraternidades da Ordem Franciscana Secular, São Luquésio e Buodona – reuniram-se para a celebração da Páscoa do Senhor. Frei Massimo presidiu a liturgia, rodeado pelos demais irmãos do presbitério. Sua primeira palavra foi uma afirmação que ecoou como um sino:
“Páscoa! Estamos vivos em teu espírito… Com teu espírito… No mesmo espírito.”
O evangelho do dia era João 20,1-9 – a corrida de Pedro e João ao sepulcro vazio. Frei Massimo iniciou sua exortação manifestando a alegria de celebrar a Páscoa “aqui com vocês em Santa Maria”. Agradeceu aos frades que deixaram seus lugares de missão, pela Semana Santa, para estarem ali:
“Não é simples, é a força da fraternidade, sobretudo neste dia.”
E então, como quem desenha um caminho, o Ministro Geral foi tecendo uma das mensagens mais fortes de toda a sua visita:
“A formação não é a preparação para a missão, mas é a própria missão. Antes, este era o pensamento: a missão depois. Agora, a formação. Hoje a vida de trabalho, de estudo, já é missão. Já é anúncio.”
Ele lembrou que Pedro, ao alcançar o mistério, não pôde ficar calado – a Páscoa fez dele testemunha. E Paulo exorta a buscar as coisas do alto.
“O fundamento real de nossa vida é deixar-se reafirmar profundamente pelo Ressuscitado, até que a nossa forma de vida se torne o próprio Cristo.”
A cena do sepulcro vazio, segundo Frei Massimo, nos coloca em movimento.
“Maria Madalena corre. Os discípulos correm. A Páscoa nos coloca em movimento. A princípio não se sabe o que acontece, mas vamos compreendendo.” E fez o elo com a vida fraterna: “Assim é a fraternidade: ninguém chega sozinho.”
Com a voz carregada de convicção, o Ministro Geral declarou:
“O mundo não precisa de palavras sobre a ressurreição. O mundo precisa de homens e mulheres que vivam como irmãos e irmãs porque foram transformados pela experiência da ressurreição.”
Recordou São Francisco, que viveu a sua própria Páscoa: “Viveu tudo de Deus e a Deus tudo restituiu.”
Foi então que Frei Massimo fez um alerta que soou como um grito de liberdade: “A grande tentação da vida religiosa é a vida segura, protegida, e a missão depois. NÃO!” Enfatizou com força. E continuou: “A esperança é a maior das virtudes, aquela que faz com que não sejamos enganados. Quem se doa não se perde! Não tenham medo de voar alto! A nossa vocação franciscana não é para a mediocridade.”
Ele lembrou que cada um traz histórias diferentes, é imperfeito, “mas toda a nossa vida é matéria de ressurreição. Deixe-se tocar, iluminar e transformar.” E um último ensinamento: “Cristo não aparece a discípulos isolados, mas em fraternidade. A nossa vocação é para a fraternidade.”
Concluiu convidando todos a sair da liturgia como Pedro e João: “correndo, mesmo sem ainda compreender, mas com a certeza de que deve ser anunciada a alegria do Ressuscitado – esta ninguém pode nos tirar.”
Após a liturgia, Frei Massimo resumiu o espírito do dia com uma expressão simples e profunda: “da missa para a mesa, e da mesa para o diálogo”. E assim foi. O almoço fraterno prolongou a comunhão.
À tarde, aconteceu o encontro reservado com o Coetus Formatorum (os formadores da Província) e, num segundo momento, com os frades do Tempo de Profissão Temporária I e II – aqueles que já deram um primeiro sim, mas ainda estão em caminho. O diálogo foi franco, profundo, sem medo das perguntas que doem. O encontro terminou com a sensação, entre os presentes, de que algo novo havia começado.
“A formação franciscana, para ser fiel ao carisma, não pode ignorar as feridas e os anseios do tempo presente. Deve mergulhar neles com a coragem de uma evangelização profunda – aquela que, como na Páscoa, passa pela morte para chegar à ressurreição.”
Um dos frades resumiu o sentimento de muitos:
“Não se trata de produzir frades. Trata-se de acompanhar pessoas que Deus está chamando. E isso é mistério. Não se controla. Acolhe-se.”
O dia encerrou com uma memória de um antigo desejo de São Francisco: nas grandes festas, como o Natal e a Páscoa, “até as paredes deveriam comer carne[2]” (2Celano, cap. 151). Uma metáfora sobre a abundância da alegria que deve transbordar e ser estendida a todos os cantos e pessoas, sem restrições. “Hoje é dia de passar carne na parede”, brincou, convidando todos a viver a Páscoa com a radicalidade da alegria franciscana.
E assim, entre cânticos, queijo mineiro, homilia que incendiava corações e o abraço dos formandos, o Ministro Geral partiu – deixando não apenas palavras, mas um chamado: voar alto, sem medo, porque a vida doada não se perde. Ela ressuscita.
Para pensar:
1 – Frei Massimo afirmou que “a Páscoa nos coloca em movimento” e que “ninguém chega sozinho”, mas em fraternidade. Considerando o contexto da formação inicial, como equilibrar o movimento pessoal de cada formando (sua história, seus passos, seu ritmo) com a exigência de caminhar juntos em fraternidade?
O que significa, na prática, “curvar-se diante do irmão” quando esse irmão corre em velocidade diferente – seja por entusiasmo, seja por dificuldades?
2 – O Ministro Geral alertou contra a grande tentação da vida religiosa: “a vida segura, protegida, e a missão depois”. Como essa advertência dialoga com a realidade dos formandos e dos frades jovens, que muitas vezes buscam na vida religiosa um porto seguro em meio a um mundo instável?
Que elementos da espiritualidade franciscana – pobreza, minoridade, itinerância – podem ajudar a desmontar essa tentação e formar frades que não tenham “medo de voar alto”?
3 – Frei Massimo disse que “a formação não é preparação para a missão, mas é a própria missão”. Isso implica que o formando já é, desde o início, um missionário – com todas as suas fragilidades e imperfeições. Como as fraternidades formadoras podem acolher (gesto de saída ao outro) as limitações e os “tempos de não compreensão” dos formandos, ao mesmo tempo que ajudam os próprios formadores a acolher-se (acolher a si mesmos) diante da dificuldade de avaliar e acompanhar vocações que só Deus conhece em profundidade?
[1] Frei Laércio Jorge, OFM. Graduado em Filosofia e Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Mestre em Ciências Sociais pela PUC-MG.
[2] Tomás de Celano narra que, quando questionado se deveria comer carne no Natal, já que este caía em uma sexta-feira (dia de abstinência), Francisco respondeu: “Quero que nesse dia até as paredes comam carne. Se não podem, pelo menos sejam esfregadas com carne, pelo menos por fora!”.
Eis o texto:
1 Celebrava com incrível alegria, mais que todas as outras solenidades, o Natal do Menino Jesus, pois afirmava que era a festa das festas, em que Deus, feito um menino pobrezinho, dependeu de peitos humanos.
2 Lambia como um esfomeado as imagens desses membros infantis, e a derretida compaixão que tinha no coração pelo Menino fazia até com que balbuciasse doces palavras como uma criancinha.
3 Para ele, esse nome era como um favo de mel (cfr. Pr 16,24) na boca.
4 Certa vez em que os frades discutiam se podiam comer carne porque era uma sexta-feira, disse a Frei Morico: “Irmão, cometes um pecado chamando de sexta-feira (dia de Vênus) o dia em que o Menino nasceu para nós.
5 Quero que nesse dia até as paredes comam carne. Se não podem, pelo menos sejam esfregadas com carne pelo menos por fora!” (2Celano, cap. 151)

























