“Iluminai as trevas do meu coração”: Ministro Geral dos Frades Menores reza com São Francisco e vive a Sexta-Feira Santa junto aos são-joanenses.

“Iluminai as trevas do meu coração”: Ministro Geral dos Frades Menores reza com São Francisco e vive a Sexta-Feira Santa junto aos são-joanenses.

Frei Massimo Fusarelli visita fazenda do Postulantado, encanta-se com a mineiridade e preside Adoração da Cruz no Senhor Bonfim; bispo Dom Edmar denuncia crise habitacional no sermão do descendimento

Frei Laércio Jorge ofm[1]

Tiradentes e São João del-Rei (MG) – A Sexta-Feira Santa na Província Santa Cruz começou com uma intenção que atravessa oceanos. Antes mesmo do sol aquecer as históricas ladeiras de Tiradentes, Frei Massimo Fusarelli, Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, reuniu os irmãos em oração. A invocação ecoou forte: “O Cristo, o Filho de Deus, com seu sangue nos remiu. Vinde todos, adoremos!” A prece, oferecida especialmente pelas guerras no mundo – com o coração voltado para a Terra Santa –, deu o tom de um dia inteiro marcado pela contemplação do Crucificado e pelo encontro com as chagas do mundo contemporâneo.

Rezado o Ofício e partilhado o café da manhã, Frei Massimo seguiu para um lugar onde a simplicidade franciscana se encontra com a lida do campo: a fazenda anexa ao Postulantado. Ali, conheceu todo o processo de criação de gado por confinamento. Sem pressa, observou, perguntou, aprendeu. Foi um momento de reconhecer, na terra e nos animais, a presença do mesmo Deus que Francisco via no Irmão Sol e na Irmã Lua.

Em seguida, o Ministro Geral deslocou-se para a cidade de Tiradentes – joia do barroco mineiro. Mais do que um passeio turístico, foi uma imersão na alma das Minas Gerais. Frei Massimo teve a oportunidade de conhecer um pouco da história da região, do sotaque eleito o mais charmoso do Brasil[2] (grifo nosso) que embala as conversas, dos dialetos que ganham vida em expressões como “uai”, “trem”, “coisa”, “mininu”. Encantou-se com o artesanato local e, sobretudo, com a proximidade com a natureza que envolve a cidade entre montes. Quem acompanhou o percurso conta que o Ministro Geral

caminhava com olhar de quem não tem pressa, como um peregrino que descobre, a cada esquina, uma nova razão para bendizer.

A mineiridade, com sua acolhida generosa, encontrou naquele frade italiano um discípulo de Francisco aberto a se deixar tocar pelas culturas e pelos jeitos de ser do povo brasileiro.

Já na Fraternidade Nossa Senhora de Lourdes, em São João del-Rei, a tônica do momento de convivência e do almoço fraternos foi descrita por uma só palavra: reencontro. Frei Massimo não chegou como autoridade distante, mas como “um irmão mais velho que há muito não se encontravam”. À mesa, partilhou-se pão, afeto e histórias. A ternura que já havia marcado sua acolhida no dia anterior voltou a brilhar, agora regada pelo tempero mineiro e pela alegria simples de quem se sabe amado.

Às 15h, a comunidade do Senhor Bonfim, em Tiradentes, abriu suas portas para o rito litúrgico mais solene da Sexta-Feira Santa. Frei Massimo Fusarelli presidiu a Adoração da Cruz. Diante do madeiro que para o mundo é escândalo e loucura, o Ministro Geral exortou os fiéis com palavras que soaram como um eco do próprio Calvário:

“Na cruz, Cristo se revela e Pedro se esconde. A cruz, mais que expressar o poder de Deus, quer demonstrar o poder de seu amor. Cristo na cruz pede que nós, seus discípulos, também nos revelemos – não pela força do ato violento da cruz, mas pela disposição de testemunhar o seu amor, mesmo que isso nos leve a enfrentar a provocação violenta de outros.”

Frei Massimo recordou então a lição do Poverello de Assis:

“De São Francisco aprendemos a nos colocar diante do crucificado e nos deixar incomodar por esse amor que nos desinstala.”

E citou a prece humilde que Francisco rezava diante do Cristo sofredor – uma oração que ganhou contornos de súplica urgente para os dias de hoje:

“Altíssimo, glorioso Deus, iluminai as trevas do meu coração. Dai-me fé reta, esperança certa, caridade perfeita, sabedoria e inteligência, Senhor. Dá-me tudo isso, para que eu cumpra vosso santo e verdadeiro mandamento. Amém.”

O Ministro Geral explicou que essa prece de São Francisco é um pedido de luz interior, com fé, esperança e caridade, para cumprir a vontade de Deus.

“É uma prece de humildade que busca discernimento e transformação interior diante de Cristo – para enfrentar as guerras internas e sociopolíticas que enfrentamos, em especial na Terra Santa e em todos os outros países.”

Após a celebração, a fraternidade Nossa Senhora de Lourdes acolheu novamente Frei Massimo para uma agenda interna. A noite, porém, reservava mais um momento de profunda contemplação. Às 19h, o Ministro Geral juntou-se à porção dos fiéis que se aglomeravam para acompanhar o sermão do descendimento da cruz – tradicional pregação das sete palavras de Cristo.

A condução ficou a cargo de Dom Edmar José da Silva, bispo auxiliar de Belo Horizonte. E sua voz não se limitou ao drama do Calvário. Dom Edmar trouxe a cruz para as ruas, para as periferias, para as filas dos que não têm onde morar:

“Que ao fazermos memória deste dia santo, não esqueçamos que o Brasil enfrenta uma grave crise habitacional, com cerca de 5,97 a 6,2 milhões de domicílios compondo o déficit habitacional – o que representa famílias sem moradia adequada. Além disso, mais de 328 mil a 365 mil pessoas vivem em situação de rua, um número que tem crescido significativamente nos últimos anos, concentrando-se principalmente no Sudeste.”

O bispo fez então um elo direto entre o Cristo crucificado e os crucificados de hoje:

“Este mesmo Cristo que contemplamos pode ser contemplado no rosto sofrido destes nossos irmãos e irmãs – e muitos outros que sofrem por várias outras situações precárias, por que não dizer, crimes, como trabalho escravo, descaso com a saúde, violência doméstica, pedofilia, corrupção e outros.”

E, com a força de quem interpela consciências, lançou três perguntas que ficaram pairando sob o olhar da cruz:

“Quem serão as Verônicas a enxugar-lhes o rosto?

Quem serão os que estarão de pé ao lado destes que sofrem?

Quem os receberão nos braços para dar-lhes alento e manifestar sua compaixão?

Quem os amará?”

Assim, entre irmãos e irmãs reunidos pela e na fé, encerrou-se mais um dia da visita de Frei Massimo Fusarelli à Província Santa Cruz. O Ministro Geral partiu da comunidade do Senhor Bonfim com a alma marcada pela cruz – não a cruz de madeira polida, mas a cruz de carne e osso que sangra nas guerras, nas ruas, nos lares desfeitos, nos corações que perderam a esperança. Mas também partiu com a certeza que São Francisco já havia descoberto: é diante do Crucificado que se aprende a amar. E é curvando-se diante do irmão que se faz presente o Reino.

Para pensar:

1 – Frei Massimo afirma que “Cristo na cruz pede que nós, seus discípulos, também nos revelemos – não pela força do ato violento da cruz, mas pela disposição de testemunhar o seu amor, mesmo que isso nos leve a enfrentar a provocação violenta de outros”. Como essa disposição de testemunhar o amor, sem violência, pode ser vivida no cotidiano das fraternidades franciscanas e nas comunidades cristãs, especialmente diante de situações de conflito, agressão ou injustiça social?

2 – O Ministro Geral convidou a rezar a prece de São Francisco que pede “luz interior” para enfrentar “as guerras internas e sociopolíticas que enfrentamos, em especial na Terra Santa e em todos os outros países”. Considerando que a guerra começa muitas vezes no coração humano antes de explodir nas nações, que práticas de discernimento e transformação interior a espiritualidade franciscana pode oferecer para curar as “trevas do coração” e, assim, contribuir para a paz no mundo?

3 – Dom Edmar denunciou que milhões de famílias no Brasil vivem sem moradia adequada e centenas de milhares de pessoas estão em situação de rua, perguntando: “Quem serão as Verônicas a enxugar-lhes o rosto?”. Acolher o crucificado de hoje exige não apenas boa vontade, mas também conversão estrutural e pessoal. Como as fraternidades e as comunidades podem, ao mesmo tempo, acolher os que sofrem (gesto de saída ao outro) e acolher a própria fragilidade e limitação diante de problemas tão imensos (acolher-se), sem cair no desânimo ou na omissão?


[1] Frei Laercio Jorge, OFM. Graduado em Filosofia e Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Mestre em Ciências Sociais pela PUC-MG.

[2] Sotaque mineiro é eleito o mais charmoso do Brasil; veja ranking completo.

https://travel.com.br/novidades/sotaque-mineiro-mais-charmoso-brasil/ – acesso em 03.03.26 às 23h15.

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