Ministro Geral preside na Igreja São Francisco das Chagas, em Belo Horizonte, e convida a Província Santa Cruz a recomeçar sempre: “Quando perdoamos de verdade, ali acontece a Páscoa”
Frei Laércio Jorge, OFM[1]
Belo Horizonte (MG) – A Igreja São Francisco das Chagas, em Belo Horizonte, respirou Páscoa na manhã deste dia 7 de abril. Ali, reunidos os frades de toda a Província Santa Cruz – vindos das fraternidades espalhadas por Minas Gerais, jovens e idosos – celebrou-se a missa de encerramento da visita fraterna do Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, Frei Massimo Fusarelli, e do Definidor Geral para a América Latina, Frei César Külkamp. Foi um momento de ação de graças, mas também de envio. A liturgia inspirada no evangelho de São João 20,11-18, relata o encontro de Maria Madalena com o Ressuscitado no jardim do sepulcro.
Os frades, ainda aquecidos pela emoção das visitas dos dias anteriores, adentraram ao espaço celebrativo com cantos de júbilo. O Círio Pascal, aceso na Vigília, brilhava junto à mesa da palavra. Frei Massimo, emocionado, iniciou a homilia com uma confissão: “Esses dias foram para mim um verdadeiro presente.”
A primeira palavra do Ministro Geral foi uma exclamação que ecoou pelos vitrais: “Hoje celebramos a maior alegria de nossa missão: CRISTO ressuscitado! Ele está no meio de nós.” E, sem rodeios, mergulhou no evangelho de João.
Frei Massimo lembrou que Maria Madalena ainda não entendia o mistério. Os discípulos também não compreendiam. Conheciam Jesus, mas não o reconheciam. Até que algo aconteceu: “Jesus se achega de modo sensível e chama pelo nome. E naquele instante, tudo muda.”
Foi então que o Ministro Geral fez uma pausa e, olhando para a assembleia, chamou cada um pelo nome – não todos, mas alguns, como se estivesse reconstituindo o gesto do Mestre: “Não é Maria que encontra Jesus, é Jesus que a chama pelo nome. Maria… Massimo… José… Vicente… Isael… Karolayne…” Os frades acompanhavam em silencio orante. Cada frade, cada irmã presente, cada leigo sentiu-se interpelado. O Ressuscitado, ali, naquela manhã, chamava cada um pelo nome.
Frei Massimo recordou Francisco de Assis:
“Francisco ouviu esse chamado e mudou a sua vida. E permaneceu atento a esse chamado em toda a sua vida. O Ressuscitado continua a nos chamar a si – assim como somos. Verdadeiramente, assim como somos. O Senhor nos chama sempre. Dentro de situações bem concretas.”
Mas, advertiu, há momentos em que experimentamos o silêncio de Deus. “Queremos que tudo seja como desejamos, e Ele se cala, faz silêncio. Não podemos justificar o que precisa de conversão.” O pedido do Ministro Geral foi direto: “Que o Senhor nos abra os olhos e o coração para sabermos de que conversão precisamos. Para renovar o seu amor por nós mesmos e pelo próximo. Conversão, recomeçar, confiar.”
A homilia ganhou então um tom prático, pastoral. Frei Massimo exortou os frades a seguir o exemplo de Maria Madalena: “Sermos fiéis no caminho, na proposta do evangelho de ir aos irmãos. Assim como Maria no evangelho: ir aos meus irmãos para formar fraternidade e viver o perdão.”
Ele recordou que Jesus, depois da ressurreição, chamou a si os irmãos que estavam perdidos diante dos acontecimentos. “Não os chamou para culpá-los, mas para formar fraternidade e experimentar o perdão.” E então fez perguntas que caíram como um desafio no coração de cada frade:
“Que fraternidade somos? Quando um frade retorna depois de uma crise, como nos comportamos? Como nos preparamos para recomeçar a fraternidade com ele?”
A resposta, segundo o Ministro Geral, está no perdão verdadeiro: “Quando perdoamos de verdade, ali acontece a Páscoa verdadeiramente.” E lembrou que a vida de Francisco foi uma vida contínua em fraternidade e no perdão.
Como que fazendo uma síntese, Frei Massimo olhou mais uma vez para a assembleia – para aqueles frades que carregam décadas de hábito, para os jovens que mal começaram, para os que vieram de longe. E disse, com a convicção de quem anuncia uma boa-nova:
“O Cristo ressuscitado está presente aqui na Província Santa Cruz através do vosso testemunho. Que nesta eucaristia tenhamos a certeza de que não estamos sós. O Cristo nos chama pelo nome a si, nos perdoa e nos acompanha pelo caminho. Sigamos, não estamos sós.”
A missa prosseguiu, e no final, Frei Massimo entregou a cada frade um Tau e a Bênção de São Francisco (recordando o bilhete a Frei Leão[2]). Muitos frades se abraçaram. Era a Páscoa que se tornava visível naquela fraternidade concreta, feita de rostos, de nomes chamados um a um.
Ao despedir-se, o Ministro Geral agradeceu mais uma vez: “Esses dias foram para mim um verdadeiro presente.” Mas os frades da Província Santa Cruz entenderam que o presente, na verdade, eram eles – chamados pelo nome, perdoados, enviados. E, como Maria Madalena, saíram da igreja correndo, não mais para um túmulo vazio, mas para anunciar aos irmãos: “Eu vi o Senhor!”
Para pensar:
1 – Frei Massimo perguntou: “Quando um frade retorna depois de uma crise, como nos comportamos? Como nos preparamos para recomeçar a fraternidade com ele?”
O que significa, na prática, “recomeçar” com um irmão sem fingir que nada aconteceu, mas também sem alimentar ressentimentos?
Como a fraternidade pode ser um lugar onde o perdão não é apenas uma palavra, mas um caminho concreto de reintegração?
2 – O Ministro Geral afirmou que “às vezes experimentamos o silêncio de Deus porque queremos que tudo seja como desejamos, e Ele se cala”.
Ser franciscano é estar em contínua conversão – mas como discernir o que precisa ser mudado quando Deus parece não falar?
A espiritualidade franciscana, com sua ênfase na minoridade e na escuta, pode ajudar a reconhecer que o silêncio de Deus não é ausência, mas um convite a abandonar nossas pretensões de controle?
O que significa “acolher o silêncio” como parte do caminho vocacional?
3 – Jesus chama Maria pelo nome – e Frei Massimo fez o mesmo com cada frade presente. Acolher o outro significa reconhecer sua singularidade, sua história, seu nome. Mas acolher a si mesmo significa também reconhecer a própria vocação como um chamado único e irrepetível, que não se compara com a do irmão.
Como as fraternidades podem cultivar um ambiente onde cada frade se sinta chamado pelo nome – valorizado em sua individualidade – sem cair no individualismo que o Ministro Geral tanto combateu durante a visita?
Como equilibrar o “eu” chamado e o “nós” da fraternidade?
[1] Frei Laércio Jorge, OFM. Graduado em Filosofia e Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Mestre em Ciências Sociais pela PUC-MG.
[2] O pequeno pergaminho de 14 x 10 cm, dado por Francisco a Frei Leão, contém dois textos: de um lado a oração Louvores de Deus e do outro a Bênção a Frei Leão, seu fiel companheiro:
“O Senhor te abençoe e te guarde,
Mostre a ti o seu rosto e tenha misericórdia de ti.
Volte para ti o seu olhar
e te dê a paz.” https://franciscanos.org.br/carisma/simbolos/a-bencao-de-sao-francisco#gsc.tab=0 – acesso em 07.04.26 às 14h57



























