Ministro Geral dos Frades Menores, acompanhado do Definidor Geral para a América Latina, Frei César Külkamp, visita Fraternidade Santo Antônio, agradece aos frades holandeses e preside a liturgia que anuncia: “Cristo ressuscitou – minha alegria”
Frei Laércio Jorge ofm[1]
Divinópolis (MG) – O Sábado Santo amanheceu em silêncio. Na Província Santa Cruz, os trabalhos do dia começaram com a antífona que ecoa como um sussurro de esperança: “Cristo por nós padeceu, morreu e foi sepultado: vinde todos, adoremos!” Era o encerramento da visita fraterna do Ministério Geral às fraternidades do Postulantado e Nossa Senhora de Lourdes, em São João del-Rei. Mas a missão não terminava ali. Havia um encontro marcado com a sabedoria dos anos e com a noite mais santa do ano.
Antes de partir, a fraternidade se alimentou de uma leitura ancestral – uma antiga homilia[2] do grande Sábado Santo (século IV) que descreve o que acontece enquanto o Rei dorme:
“Um grande silêncio e uma grande solidão reinam sobre a terra. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa; o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos.”
A homilia narra o descenso[3] de Cristo ao encontro de Adão, a ovelha perdida, levando em suas mãos a cruz vitoriosa. E a voz do Senhor que chama: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos… Eu sou a vida. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança.” A palavra final é um convite que atravessou os séculos e chegou até Divinópolis: “VEM!”
Após o café da manhã, a comitiva seguiu para a “Cidade do Divino” – Divinópolis. O destino: a Fraternidade do Convento Santo Antônio e a Paróquia de mesmo padroeiro. Ali, Frei Massimo Fusarelli, Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, acompanhado do Definidor Geral para a América Latina, Frei César Külkamp, seria acolhido por uma fraternidade que carrega décadas de história. O encontro com os frades idosos – aqueles “mais experientes” – foi descrito pelo Ministro Geral como tão importante quanto o encontro com os jovens postulantes. E ele fez questão de expressar sua gratidão, em primeiro lugar, aos frades holandeses:
“Pela grande missão assumida no mundo, em especial na vida franciscana, pela fundação de tantas presenças pelo mundo”, disse Frei Massimo.
Segundo ele, em suas andanças sempre sentiu proximidade com o testemunho dos frades holandeses.
“Impressionante como conseguiram se expandir com tanta força, coragem, determinação. Hoje, em vários países, se colhem os frutos destas vidas doadas na vivência do evangelho.”
Foi um momento de ternura e memória. Rostos marcados pelo tempo, mãos que já não têm a mesma força, mas olhos que ainda brilham ao lembrar das missões. Frei Massimo recordou que a Páscoa de Francisco deve continuar a inspirar o testemunho incansável pela paz, sobretudo na Terra Santa.
“Neste tempo, há muita dificuldade em se manter a fraternidade na Terra Santa em meio à guerra. Mas a opção da fraternidade de permanecer alimenta nosso ardor missionário, como quis Francisco, como instrumento da paz.”
E então, um gesto que comoveu a todos. Frei Massimo invocou uma bênção especial e ofertou um “tal” que fora abençoado, dias antes de sua vinda para o Brasil, na igrejinha da Porciúncula, a célula-mãe da Ordem dos Frades Menores. Aquele sinal, vindo do lugar onde Francisco compreendeu sua vocação, foi entregue como confirmação de uma vida doada como semente que hoje dá seus frutos na Província Santa Cruz. Os frades idosos, alguns deles vindos da Holanda há décadas, receberam o gesto com emoção, traduzido no abraço fraterno.
Às 19h, o Santuário Santo Antônio de Divinópolis se encheu de fiéis. A luz do círio pascal ainda não havia rompido as trevas, mas a expectativa já iluminava os rostos. Frei Massimo Fusarelli presidiu a Vigília Pascal, concelebrada pelo Definidor Geral para a América Latina, Frei César Külkamp, e pelos demais confrades sacerdotes da Fraternidade Santo Antônio. O evangelho proposto foi Mateus 28,1-10 – as mulheres que vão ao sepulcro e encontram o anjo, e depois o próprio Jesus. Frei Massimo iniciou sua homilia manifestando a grande alegria de estar celebrando a noite santa naquele Santuário, que, segundo ele,
“é a presença visível do Deus invisível, onde somos capazes de sentir sua presença por meio do amor que aqui é doado e compartilhado.”
Com a sensibilidade que o marcou durante toda a visita, o Ministro Geral refletiu sobre a noite:
“A noite pode esconder, mas também revela coisas que durante o dia não vemos. Quando a luz se apaga, a procuramos instintivamente. Em nossas noites escuras, precisamos dela, da luz, ou de alguém.”
Ele lembrou as três grandes noites da fé: a Noite do Natal, a Noite da Última Ceia, a Noite da Ressurreição. Em todas elas, a experiência das trevas e da luz nos traz a presença de um Deus que conforta e ampara.
“A vida não terminou na escuridão do sepulcro. O sentido é que esta é uma noite feliz, pois anuncia o amanhecer de um dia santo, onde todas as coisas são renovadas.”
Frei Massimo então fez ecoar a voz que desperta: “Não tenha medo.” E explicou que dessa experiência brota a paz da ressurreição – “um facho de luz que nos aquece e nos guia”.
Mas advertiu: “Esta paz de Cristo não é uma paz vazia. É uma paz que tem sentido e destinatários. Esta paz é para nós, para que ressuscite o que está morto dentro de nós.” E concluiu: “Cada gesto de misericórdia, cada mão estendida, quando nos fazemos próximos humildemente uns dos outros, renovamos a experiência da ressurreição.” Então, com o coração aquecido, o Ministro Geral entoou três vezes o refrão que a assembleia repetiu em uma só voz: “Minha alegria: Cristo ressuscitou!” Era a mesma alegria experimentada por Francisco de Assis – aquela alegria que, segundo Frei Massimo, “precisamos testemunhar, levar esta alegria traduzida em paz, como fruto de nossa fé e do nosso batismo”.
A liturgia prosseguiu na convivência fraterna. Os irmãos da fraternidade e os irmãos de fé se achegaram numa grande confraternização da ressurreição. Houve abraços, sorrisos, partilha. A noite que começara em silêncio terminou em canto. O Rei, que dormia no sepulcro, havia despertado. E com ele, todos os que esperavam.
Para pensar:
1 – Frei Massimo afirmou que “o encontro com os frades mais experientes é tão importante quanto o encontro com os frades mais novos”. Em uma cultura que frequentemente despreza o envelhecimento e silencia os mais velhos, como as fraternidades franciscanas podem cultivar uma espiritualidade que não apenas acolha os idosos, mas reconheça neles uma fonte viva de memória, profecia e transmissão do carisma?
O que significa, na prática, “curvar-se diante do irmão” quando esse irmão tem o rosto marcado pelo tempo e pela fragilidade?
2 – O Ministro Geral destacou a coragem dos frades que permanecem na Terra Santa em meio à guerra, alimentando o “ardor missionário como instrumento da paz”. Diante dos conflitos armados e das violências estruturais que também marcam o Brasil (como a crise habitacional mencionada no sermão de Sexta-Feira Santa, a violência contra vulneráveis, mulheres e crianças), o que significa ser franciscano hoje senão assumir o risco de permanecer onde a paz é ameaçada?
Como a espiritualidade do Sábado Santo – esse silêncio e espera diante do sepulcro – pode formar discípulos capazes de não fugir da dor do mundo, mas de nela plantar sementes de ressurreição?
3 – A antiga homilia do Sábado Santo convida: “Acorda, tu que dormes… Levanta-te, obra das minhas mãos”. Frei Massimo, por sua vez, afirmou que “em nossas noites escuras precisamos da luz ou de alguém”. Acolher o outro que vive sua noite escura – seja a noite do sofrimento, da dúvida, do desamparo – exige também que sejamos capazes de acolher as nossas próprias trevas interiores. Como as comunidades podem criar espaços onde o “acolhei” (dirigido ao outro) e o “acolhei-vos” (dirigido a si mesmo) se deem mutuamente, sem que um anule o outro, permitindo que a paz da ressurreição brote exatamente onde parecia haver apenas morte?
[1] Frei Laercio Jorge, OFM. Graduado em Filosofia e Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Mestre em Ciências Sociais pela PUC-MG.
[2] Descensohttps://carmelitas.org.br/de-uma-antiga-homilia-no-grande-sabado-santo-sec-iv/ – acesso em 04.04.26 às 21h40.
[3] Descenso é o ato ou efeito de descer, representando queda, diminuição ou rebaixamento em diversos contextos. Sinônimos incluem descida, declínio, baixa, decréscimo e rebaixamento. É usado para quedas físicas, reduções econômicas/térmicas, ou queda de equipes esportivas.






























