Frei Massimo Fusarelli iniciou sua visita às fraternidades da PSC, ouve postulantes e celebra o amor que se curva diante do outro.
São João del-Rei (MG) – A noite do dia 1º de abril marcou o início de uma visita que prometia tocar corações. Às 19h45, na fraternidade São Francisco das Chagas, a chama do Lucernário iluminou o primeiro encontro entre o Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, Frei Massimo Fusarelli, e os frades da Província Santa Cruz. O que se seguiu foi um momento de convivência fraterna, daqueles que aquecem a alma e antecipam o que viria nos dias seguintes.
Mas foi no dia 2 de abril que a visita ganhou contornos de profunda emoção. Pela manhã, o Ministro Geral foi acolhido ao som de vozes vibrantes, entoando o antigo desejo franciscano: “Seja bendito quem chega, trazendo a paz do Senhor”. A recepção aconteceu na fraternidade do Postulantado da Cruz de São Damião, em São João del-Rei, em conjunto com a Fraternidade Nossa Senhora de Lourdes. O encontro teve ainda a presença ilustre do Ordinário Local, Dom José Eudes Campos do Nascimento, cuja convivência com Frei Massimo foi descrita como “alegre e carregada de ternura”.
Em um momento reservado, Frei Massimo reuniu-se com os postulantes – jovens que deram os primeiros passos no caminho de seguir a São Francisco. O objetivo, simples e profundo: ouvir a partilha da vida e da caminhada, e levar uma exortação que entusiasmasse na continuidade da vocação franciscana.
O encontro começou com a apresentação de cada um dos postulantes, suas origens e seus anseios. E então, o Ministro Geral fez a primeira pergunta, aparentemente simples, mas carregada de sentido: “O que é o postulantado?” As respostas, colhidas em síntese, apontaram para uma definição comum: trata-se de um período de amadurecimento e discernimento do chamado de Jesus, a partir da identificação com o carisma franciscano.
Mas Frei Massimo não parou por aí. Com a sensibilidade de quem conhece as dores e as delícias da vida religiosa, ele aprofundou: “Para você, o que é ser franciscano?” Foi então que as reflexões ganharam corpo e alma. Os postulantes destacaram o ponto central da vida de Francisco: viver o Evangelho. Desse núcleo irradiam-se os desdobramentos – o espírito de oração e devoção, a simplicidade de uma vida centrada, o testemunho de Jesus entre os pobres, a percepção do outro como irmão. E, como exigências de uma vida doada, a obediência, a pobreza e a castidade, vividas na alegria e na consciência da presença constante de Cristo. Por fim, a centralidade da missão da Igreja, que em sua natureza é essencialmente missionária.
“A visita do Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores ao nosso Postulantado foi um momento de profunda unidade e fraternidade. Recebê-lo não foi apenas um ato protocolar, mas um verdadeiro encontro carismático que trouxe o coração da Ordem para mais perto da nossa realidade formativa. Portanto, A presença do sucessor de São Francisco entre nós atuou como um forte lembrete da nossa identidade. Sua fala, pautada na simplicidade e na alegria evangélica, contribuiu diretamente para vigorar a nossa vocação através de suas palavras de encorajamento, fomos instigados a renovar o nosso “sim” cotidiano, compreendendo que a vocação é um dom dinâmico que exige fidelidade e escuta atenta aos sinais dos tempos. Com isso, saímos deste encontro com o espírito renovado, prontos para continuar seguindo o processo formativo no Postulantado da Cruz de São Damião, com mais entusiasmo e uma disposição ainda maior para sermos, verdadeiramente, irmãos menores a serviço de todos.” (Isaías Silva & Pedro Assis – Postulantes)
Ainda no dia 2 de abril, a Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, em São João del-Rei, foi palco de um dos momentos mais solenes e comoventes da visita. Frei Massimo Fusarelli presidiu a cerimônia do Lava-Pés, na comunidade que está sob o cuidado pastoral da fraternidade. Diante dos fiéis, o Ministro Geral não apenas repetiu o gesto de Jesus – ele o explicou com palavras que ficarão ecoando na memória e no coração daqueles presentes.
“Um gesto estranho”, começou ele. “Curvar-se diante do outro. Pedro estranhou o gesto.” E foi desfiando o significado daquela ação que tantos séculos depois ainda nos desconcerta: “Acolher e acolher-se, através do mesmo amor que levou Jesus a lavar os pés, mesmo que esse amor nos leve à cruz. Anunciar a morte do Senhor é anunciar este mesmo amor deste Jesus que se tornou o Cristo.”
Frei Massimo lembrou que, há 800 anos, na noite da morte de São Francisco, o Poverello quis ouvir exatamente este evangelho, pois reconhecia naquele gesto tudo o que havia vivido em Assis. E então, dirigindo-se especialmente aos postulantes presentes, fez uma exortação que soou como um testamento espiritual:
“Deixai-vos lavar os pés. Curvai-vos também diante do irmão. Em uma palavra: acolhei, acolhei-vos.”
E concluiu, com a doçura de quem sabe que o amor divino não exige perfeição:
“Jesus não pede que sejamos dignos. Ele nos ama em nossa indignidade. Tudo depende em confiar nesse amor. Diante da liturgia de hoje, abramos o coração para recebê-lo, pois Ele se curva diante de cada um de nós.”
A visita de Frei Massimo Fusarelli à Província Santa Cruz continua, mas o eco de suas palavras – e do gesto de Jesus que ele veio recordar – permanecerá vivo na memória dos frades, dos postulantes e de todos os que tiveram a graça de testemunhar esse encontro de graça e ternura.
Para pensar:
- No Lava-Pés, Frei Massimo afirma que o amor que levou Jesus a lavar os pés é o mesmo que o levou à cruz. Como a experiência de se curvar diante do irmão – um gesto que até Pedro “estranhou” – pode transformar as relações cotidianas dentro de uma fraternidade, rompendo lógicas de poder e hierarquia?
- Em um mundo marcado pelo individualismo e pela indiferença, o que significa, na prática, assumir a “centralidade da missão da Igreja” como essencialmente missionária, sem perder a ternura e a alegria apontadas pelos postulantes?
- A exortação final de Frei Massimo aos postulantes foi: “acolhei, acolhei-vos”. Considerando que ele também lembra que “Jesus nos ama em nossa indignidade”, como o movimento duplo de acolher o outro (com suas fragilidades) e acolher a si mesmo (com as próprias limitações) pode fortalecer o discernimento vocacional e a vivência da fraternidade franciscana?
























