Ministro Geral dos Frades Menores percorre o “coleginho” e o “colejão” em Belo Horizonte, ouve depoimentos de alunos e deixa uma mensagem: “Não estamos acabados, mas em desenvolvimento”
Frei Laércio Jorge, OFM [1]
Belo Horizonte (MG) – A manhã já ia adiantada quando Frei Massimo Fusarelli, Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, acompanhado do Definidor Geral para a América Latina, Frei César Külkamp, atravessou o portão do Colégio Santo Antônio. Vinham do Mosteiro Santa Clara, onde haviam celebrado a eucaristia e se encontrado com as Clarissas. Agora, o cenário era outro: vozes jovens, passos apressados, olhos curiosos. A fraternidade se encontrava com a escola.
O acolhimento foi afetuoso e vibrante. Um coral formado por alunos de diversas séries do ensino fundamental recebeu o Ministro Geral com cânticos que ecoaram pelo pátio. Frei Massimo, visivelmente emocionado, agradeceu com um sorriso de quem fora surpreendido. Em seguida, conheceu as dependências do “coleginho” – como carinhosamente chamam a unidade que abriga o ensino fundamental. Tudo era novo, tudo era descoberta.
Passando para o “colejão” – a unidade do ensino médio –, o cenário se transformou em galeria. Dois alunos foram escolhidos para acompanhar o Ministro Geral em um reconhecimento físico do espaço. Mas não apenas isso: outros dois o conduziram a uma exposição intitulada “São Francisco inspira”. Ali, releituras de obras de arte feitas pelos próprios alunos davam nova vida ao carisma do Poverello. Frei Massimo parou diante de duas obras em particular, cujos autores, com orgulho e timidez, explicaram o significado de suas criações. O Ministro Geral ouviu atentamente, como quem aprende mais do que ensina.
O próximo destino foi o auditório, onde Frei Vitor, representantes de cada turma e de cada corpo de colaboradores do CSA (Colégio Santo Antônio) o aguardavam. O programa incluiu um vídeo institucional que contava a história e os valores do Colégio. Depois, uma apresentação de dança folclórica – cores, movimento, alegria – arrancou aplausos. Mas o momento mais esperado foi quando jovens estudantes deram seus depoimentos sobre a relação com o colégio. Falaram de amizade, de descoberta, de pertencimento.
Então, Frei Massimo tomou a palavra e se dirigiu aos presentes. Começou com uma observação que não passou despercebida: “Escutei palavras boas sem críticas. Espero que o colégio cumpra também o espírito crítico.” Não era uma reprimenda, mas um convite à maturidade. “Espero que a visão franciscana esteja presente”, completou. E então desenhou o coração dessa visão:
“No centro da visão franciscana está a pessoa num círculo em relação: consigo, com os outros e com Deus. Mas não é um primeiro lugar do eu, egoísta, narcísico, mas do nós – ou seja, a pessoa em relação.”
Foi além: “O nosso pensar franciscano é um pensamento alternativo.” Num mundo que muitas vezes empurra os jovens para a competição, para o individualismo, para a pressa de vencer, Frei Massimo propôs outra lógica – a do cuidado, da escuta, da fraternidade.
O Ministro Geral dirigiu-se diretamente aos estudantes:
“Aqui, na escola, precisamos aprender uma experiência positiva: aprender coisas, ideias, aprender a ser na vida, pela vida. Não distanciar da atitude de aprender. Não estamos acabados, mas em desenvolvimento, diante de várias culturas, para um crescimento integral.”
A mensagem era clara: a formação não termina nunca. Nem na escola, nem na vida religiosa, nem em lugar algum.
“Desejo a todos que aqui representam e aos demais que se fazem representar por vocês, um crescimento integral com esperança pelo futuro. Felicidades e parabéns por esse conhecimento integral para a vida toda.”
Ao final, os alunos presentearam o Ministro Geral com algumas lembranças – pequenos gestos que carregavam o afeto de toda a comunidade escolar. Frei Massimo, por sua vez, deixou com a Direção uma medalha, símbolo da bênção e de sua visita. Era um sinal concreto de que aquele encontro não seria esquecido.
Antes de partir, proferiu a bênção de São Francisco sobre todos os presentes – alunos, professores, funcionários. O mesmo Francisco que, há oito séculos, ensinou que a verdadeira sabedoria está em se fazer irmão de todos. O mesmo Francisco que inspira o Colégio Santo Antônio a formar não apenas profissionais, mas pessoas inteiras – capazes de pensar alternativamente, de criticar com amor, de crescer com esperança.
A visita terminou, mas a semente ficou. E, como disse o Ministro Geral, “não estamos acabados” – há sempre um amanhã para recomeçar.
1 – Frei Massimo observou que ouviu “palavras boas sem críticas” e expressou o desejo de que o colégio cumpra também o “espírito crítico”. Como a vivência da fraternidade franciscana pode se articular com o exercício da crítica – inclusive à própria instituição, à Igreja e à sociedade?
O que significa “curvar-se diante do outro” quando esse outro tem uma opinião divergente ou aponta problemas que precisam ser enfrentados?
2 – O Ministro Geral afirmou que “o nosso pensar franciscano é um pensamento alternativo”. Em um contexto educacional marcado por pressões por resultados, rankings e meritocracia, o que significa, na prática, formar jovens com um pensamento alternativo centrado na “pessoa em relação” (consigo, com os outros, com Deus) e não no “eu egoísta e narcísico”?
Como essa visão pode dialogar com as disciplinas tradicionais e com a preparação para o mercado de trabalho?
3 – Frei Massimo disse que “não estamos acabados, mas em desenvolvimento” e que é preciso “aprender a ser na vida, pela vida”. Acolher o outro na escola significa reconhecer que cada aluno (e cada educador) está em processo, com fragilidades e potencialidades. Mas acolher-se também exige que a comunidade educativa reconheça seus próprios limites e não se deixe paralisar pela ansiedade de perfeição.
Como criar um ambiente escolar onde o “acolhei” (aos estudantes com suas dificuldades) e o “acolhei-vos” (aos educadores que também precisam de formação contínua) se deem mutuamente, cultivando a esperança sem cair na ingenuidade?
[1] Frei Laércio Laércio Jorge, OFM. Graduado em Filosofia e Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Mestre em Ciências Sociais pela PUC-MG.














