Deus quis que o seu Verbo assumisse a nossa natureza no seio da Virgem Maria, para que, reconhecendo Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, possamos participar de sua vida divina.
Frei Josimar da Cunha, OFM
Ao entrar no mundo, Cristo afirma: Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade. (cf. Hb 10,5-7).
A liturgia da solenidade da Anunciação do Senhor nos introduz neste mistério que atravessa séculos de espera e se cumpre no silêncio de Nazaré. Aquilo que foi prometido ao povo de Israel torna-se realidade quando o anjo anuncia a Maria que ela será a Mãe do Salvador (Lc 1,26-38). Ao mesmo tempo, a Carta aos Hebreus nos revela o sentido profundo desse acontecimento: “Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10,5-7). Não se trata apenas de um anúncio, mas do início da realização do plano de Deus na história humana.
A oração da coleta nos faz contemplar esse mistério com profundidade: Deus quis que o seu Verbo assumisse a nossa natureza no seio da Virgem Maria, para que, reconhecendo Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, possamos participar de sua vida divina. Aqui está o centro da fé cristã: Deus não permanece distante, mas entra na história, assume a nossa condição e eleva a humanidade. O que se inicia na Anunciação é o movimento da salvação, onde o divino e o humano se encontram de forma definitiva.
Esse encontro, porém, não acontece sem a resposta humana. O Evangelho nos mostra que o “fiat” de Maria é decisivo. Deus, em sua liberdade, quis depender da liberdade de uma jovem. O seu “sim” torna possível a encarnação, inaugurando um novo começo para toda a humanidade. É nesse momento que se realiza aquilo que a Igreja reconhece também na oração sobre as oferendas: a própria origem da Igreja está na encarnação do Filho de Deus. Tudo nasce desse mistério: a fé, a comunidade, a esperança, porque Deus escolheu habitar entre nós.
O prefácio desta solenidade aprofunda ainda mais essa contemplação ao recordar que Maria acolheu com fé o anúncio do anjo e, pela ação do Espírito Santo, concebeu aquele que veio salvar a humanidade. Nele se cumprem as promessas feitas a Israel e se realiza a esperança das nações. Por isso, a liturgia nos conduz à ação de graças: “é nosso dever e nossa salvação dar-vos graças”. A Anunciação não é apenas memória, mas louvor, reconhecimento de que Deus permanece fiel e continua agindo na história.
Essa presença se torna ainda mais concreta na comunhão, quando recordamos: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho; ele será chamado Emanuel” (cf. Is 7,14). O Deus que Maria acolheu em seu ventre é o mesmo que se oferece a nós. E, na oração após a comunhão, pedimos que esses mistérios se confirmem em nossos corações, para que, proclamando Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, possamos alcançar a alegria eterna. A liturgia, assim, não apenas narra um acontecimento, mas nos envolve nele, fazendo-nos participantes desse mistério de salvação.
Diante disso, a Anunciação ilumina profundamente o nosso tempo. Em meio às guerras que continuam a ferir a humanidade e às dores concretas de tantos irmãos e irmãs, como as famílias atingidas pelas enchentes na Zona da Mata, somos convidados a redescobrir o sentido desse “sim”. Maria, mulher simples e disponível, torna-se sinal de esperança porque acreditou que Deus podia agir mesmo no impossível. Hoje, esse mesmo convite ressoa: quando alguém se dispõe a ajudar, a consolar, a reconstruir, a promover a vida, o “sim” de Maria continua vivo. Deus ainda pede passagem. E, sempre que encontra um coração aberto, a esperança volta a nascer no meio de nós.






