“Vem, bom e fiel servo!”.
Frei Laércio Jorge, OFM
Nesta manhã de sexta-feira, 29 de agosto de 2025, o sino do convento em Wijchen/Alverna badalou de forma diferente. Seu som já não convocava para a oração das horas, mas ecoava solene, anunciando a partida de nosso irmão, Frei Eduardo Metz, aos 85 anos. Após um período de enfermidade, que ele viveu com a mesma paciência e serenidade que sempre o caracterizaram, ele finalmente respondeu ao chamado do Pai.
Oh zente! Sabemos da nossa finitude, mas a verdade é que nunca estamos verdadeiramente preparados para a despedida. A dor da perda é real, mas mais forte ainda é a gratidão que transborda do coração pela oportunidade de ter convivido com um homem tão singular.
Queremos aqui recordar algumas das experiências que marcaram nossa caminhada ao seu lado. Quem não se lembra de sua maneira peculiar de interpretar o Jornal Nacional? Ele ia além das notícias, com uma preocupação genuína de nos fazer entender o mundo por trás dos fatos, sempre conectando tudo com a realidade concreta da comunidade.
Sua inquietação profética ficou marcada em nossa memória. Recordamos quando, no Postulantado em São João del Rei, questionou os jovens: “Se o MST entrar aqui agora, o faríamos, zente?! Daríamos comida, ou chamaríamos a polícia?”. Uma pergunta simples que revelava um coração voltado sempre para o mais pobre, desafiando-nos a sair de nossa zona de conforto.
Sua vida foi um evangelho vivo, escrito nos gestos simples do cotidiano. Em Minas Gerais, foi presença marcante e fundamental na Casa Boaventura, no nascimento da Educafro Minas e da Pastoral do Menor na Vila São José, onde o anúncio do Reino ganhou vida, na vida das crianças e jovens. Seu cuidado fraterno, por vezes desajeitado mas sempre sincero, também se mostrava nos momentos mais simples. Como na vez em que, em Alcobaça, levou um confrade para degustar camarão, ah! zente! não podia faltar a cervejinha!, e, ao vê-lo passar mal, entrou em desespero com o garçom, todo apavorado, buscando socorro: “Mas zente! Que tá acontecendo?”
E como esquecer sua defesa ferrenha da dignidade da mulher? “Freira também é zente!” Era sua frase corriqueira, um grito que defendia a feminilidade para além de qualquer aspecto puramente institucional, enxergando nela uma potencialidade transformadora ilimitada.
Oh zente! Diante de sua partida, nosso coração é um misto de saudade e profunda ação de graças. Rendemos louvores a Deus, não pelo adeus, mas pelo magnífico “sim” que Frei Eduardo pronunciou todos os dias de sua longa vida. Um sim que se desdobrou no dom total de sua missão, um dom especialmente dirigido à Província Santa Cruz, mas cujos frutos de amor se espalharam por estas Minas Gerais, pelo sul da Bahia e muito além de qualquer fronteira.
Oh zente! Que nossa gratidão possa, de alguma forma, alcançá-lo agora na paz e na luz perene de seu Criador, onde certamente ouve, com um sorriso, a voz do Senhor: “Vem, bom e fiel servo!”.
Oh zente, que missão bem cumprida!
Descanse em paz, Frei Eduardo.



