800 Anos da Páscoa do Seráfico Pai, São Francisco

800 Anos da Páscoa do Seráfico Pai, São Francisco

Celebrar os 800 anos da Páscoa de São Francisco é reconhecer a força de uma vida entregue ao Evangelho

Frei Oton Júnior, ofm

“Agora, Senhor, podes deixar partir em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque os meus olhos viram a tua salvação” (Lc 2,29-30).

Neste ciclo dos Centenários Franciscanos, fomos convidados a revisitar os últimos anos de Francisco de Assis como partes de um evento único. Seus momentos derradeiros coroam uma vida de buscas e incertezas, mas, acima de tudo, de um amor apaixonado pelo Deus revelado em Jesus Cristo: humilde, pobre e crucificado.

A celebração começou com a contemplação do mistério do Deus encarnado entre nós, remetendo-nos à vila de Greccio (1Cel 84-87) ao contemplar o Menino de Belém: a divindade assumida na fragilidade humana, gerada no útero da Virgem Maria (2Fi 4). Homem do concreto e dos sentidos, Francisco desejava ver, tocar e vivenciar na pele a chegada do Filho de Deus à gruta, visitado pelos pastores (1Cel 85).

Na sequência, celebramos os 800 anos da Regra Franciscana, convite a seguir mais de perto as pegadas de Nosso Senhor (RB I,1). O Menino de Belém passava a indicar um modo concreto de vida pautado no Evangelho.

Esse itinerário conduz ao momento supremo da vida de Jesus: a crucifixão. Em setembro de 1224, no Monte Alverne (1Cel 94-95; LM XIII,3), contemplamos Francisco sendo acolhido pelo Senhor por meio de suas chagas. Com a saúde debilitada, o Poverello passa a conviver com os estigmas, conformando-se a Cristo Crucificado como sinal do abraço definitivo de Deus a selar sua caminhada de conversão.

Essas marcas são a coroação de uma entrega espiritual iniciada no rompimento com a família (1Cel 14-15) e aprofundada no encontro com o Crucificado na igrejinha de São Damião (2Cel 10; LTC 13). Naquela ocasião, o jovem de Assis rezava: “Altíssimo, glorioso Deus, iluminai as trevas do meu coração, dai-me uma fé reta, uma esperança certa e caridade perfeita, sensibilidade e conhecimento, ó Senhor, a fim de que eu cumpra o vosso santo e veraz mandamento” (Fontes Franciscanas, p. 157).

Essa vivência mística desdobra-se em uma fraternidade aberta (RnB VII,14-15), que não se fecha em uma relação isolada entre “ele e Deus”. Francisco compreende seu lugar no mundo como parte de uma grande família que acolhe todas as criaturas (Cant 1-9). Nela convivem os elementos do cosmos, os seres da Terra, a quem chamava de “mãe e irmã” (Cant 9), e o próprio ser humano (Cant 10-11).

Como recorda o Papa Francisco na encíclica Laudato si’, no início da criação reinava uma profunda harmonia entre a humanidade, o Criador e a Terra; contudo, “estas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o pecado” (LS 66). No Cântico das Criaturas, o Poverello aponta para a reconciliação com a criação, antecipando o que hoje chamamos de ecologia integral.

Após o agravamento de sua saúde em Siena (1Cel 105; TestS), Francisco tomou consciência do fim iminente. Passando por Cortona, foi conduzido de volta a Assis, onde permaneceu junto à igrejinha da Porciúncula (1Cel 108; LM XIV,3), berço da Ordem Franciscana.

Francisco morreu como viveu, vivenciando ritualmente cada detalhe de sua passagem, o seu Transitus. Sua morte corporal celebra a união íntima com Cristo e sua integração à Mãe Terra ao pedir para ser colocado nu sobre a terra nua (1Cel 105; LM XIV,3). Cercado por seus companheiros e por amigos como Dona Jacoba de Settesoli, que lhe trouxera seus biscoitos prediletos, pede a leitura do Evangelho de São João da Última Ceia (1Cel 110; LM XIV,6). Em seus últimos momentos, entre a oração dos salmos e o Cântico das Criaturas, entrega-se inteiramente ao Senhor.

A imagem de Simeão ajuda a compreender essa partida vivida não como perda, mas como cumprimento da missão. No Evangelho de Lucas, ao contemplar o Menino Jesus no templo, Simeão exclamou: “Agora, Senhor, podes deixar partir em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque os meus olhos viram a tua salvação” (Lc 2,29-30). Nas Fontes Franciscanas, no limiar da morte, Francisco adverte: “Eu fiz a minha parte; que Cristo vos ensine a fazer a vossa!” (2Cel 214,9; LM XIV,3).

Décadas antes, aquele jovem sonhava em ser cavaleiro, aclamado em um mundo de oposições e litígios. Agora, de corpo e alma reconciliados, no lugar onde tudo começara, contempla sua jornada com olhos agradecidos. Toda a sua busca, sofrimento e empenho tinham valido a pena.

Oito séculos depois, sobressai a atualidade de sua mensagem: “Francisco era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenho na sociedade e a paz interior” (Laudato si’, n. 10).

Celebrar os 800 anos da Páscoa de São Francisco vai além de recordar seu fim. É reconhecer a força de uma vida entregue ao Evangelho, convocando-nos a fazer uma verdadeira passagem: da autorreferencialidade à fraternidade, da posse à gratuidade, da violência à paz e de qualquer ruptura à comunhão universal.

A Páscoa de Francisco abre um caminho e nos deixa a responsabilidade de continuar a jornada, renovando a coragem de recomeçar. Diante de uma entrega tão plena, ecoam, quase em seus lábios, os versos de Gonzaguinha (1976):

“Começaria tudo outra vez
Se preciso fosse, meu amor.
A chama em meu peito ainda queima.
Saiba, nada foi em vão.
[…]
Ao som desse bolero
Vida vamos nós e não estamos sós
Veja, meu bem, a orquestra nos espera
Por favor, mais uma vez, recomeçar”.

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