São Bernardino faleceu em 20 de maio de 1444, em L’Aquila, e foi canonizado apenas seis anos depois, em 1450.
Frei Oton Júnior, ofm
Em 8 de setembro de 1380, em Massa Marittima, na Toscana, nascia Bernardino degli Albizeschi. No mesmo ano em que falecia sua conterrânea Catarina de Sena, surgia aquele que se tornaria uma das vozes mais influentes da espiritualidade e da reflexão social do século XV.
De linhagem nobre, Bernardino conheceu muito cedo a experiência da perda: ficou órfão de mãe aos três anos e de pai aos sete. Enviado a Sena, foi educado pelas tias, que lhe proporcionaram uma sólida formação humanística e jurídica na universidade local, ao mesmo tempo em que cultivavam nele uma profunda sensibilidade cristã diante do sofrimento humano.
Em 1400, a peste assolou Sena. Com apenas 20 anos, Bernardino reuniu um grupo de jovens e assumiu a administração do Hospital de Santa Maria della Scala. Durante quatro meses, conduziu a instituição com notável capacidade organizacional e caridade heroica. Ele contraiu a doença e, após uma longa convalescença, sobreviveu. Essa experiência foi decisiva: ali se uniram a dor humana, o exercício da liderança e a intuição de uma entrega total a Deus e aos irmãos.
Com uma herança assegurada e uma promissora carreira no direito à sua frente, Bernardino fez uma escolha radical. Em 1402, distribuiu seus bens aos pobres e ingressou na Ordem dos Frades Menores, no convento de San Francesco, em Sena. Buscando maior fidelidade à Regra de São Francisco de Assis, transferiu-se depois para o eremitério de Colombaio, vinculando-se à Observância Franciscana.
Ordenado presbítero em 1404, passou mais de uma década em recolhimento, dedicando-se ao estudo das Sagradas Escrituras, dos Padres da Igreja e da teologia franciscana medieval, especialmente de autores como Pedro de João Olivi e Duns Scotus. Essa formação sólida deu densidade teológica à sua futura pregação.
A partir de 1417, sua vida tomou um novo rumo. Bernardino deixou o isolamento e percorreu a pé cidades da Itália central e setentrional. As igrejas tornaram-se pequenas para acolher as multidões; suas pregações passaram a acontecer nas praças, o coração político e econômico das cidades-estado. Com uma linguagem viva, direta e repleta de imagens do cotidiano, ele aliava humor e psicologia prática ao rigor doutrinário.
Tornou-se célebre pela difusão do monograma IHS (“Jesus Salvador dos Homens”) inscrito em um disco solar. Ao final dos sermões, erguia o símbolo para convidar à reconciliação entre facções rivais, como guelfos e gibelinos, e recolocar Cristo no centro da vida social. Perante os homens apostadores, o monograma IHS era apresentado como uma “carta de baralho” na qual se podia apostar os grandes valores da vida.
Por causa disso, Bernardino foi acusado de heresia por supostamente estar “adorando” o monograma. No entanto, ao ser levado perante o Papa, o santo o convenceu de sua real intenção, e o Pontífice o fez pregar por vários dias. Tempos depois, o Papa quis fazê-lo bispo por três vezes, convites que Bernardino sempre recusou.
Bernardino não foi apenas um reformador espiritual; foi também um atento observador da realidade econômica de seu tempo. Em contraste com posições medievais que desconfiavam de toda atividade mercantil, Bernardino distinguiu claramente o pecado da ganância da legitimidade do comércio. Para ele, o comerciante exercia uma função social necessária ao bem comum, desde que atuasse com honestidade.
Ele enumerava quatro virtudes essenciais ao bom comerciante: Prudência na avaliação de riscos; Diligência no trabalho; Solicitude nos detalhes; Coragem para assumir o periculum (o risco inerente à atividade econômica).
Sua reflexão sobre o “justo preço” foi particularmente inovadora. O valor de um bem, afirmava, não depende apenas do custo de produção, mas também de sua utilidade, de sua raridade e da conveniência que oferece ao comprador. O preço justo deveria nascer da estimativa comum de um mercado livre de fraudes e monopólios.
Se por um lado legitimava o lucro decorrente do trabalho e do risco, por outro combatia com vigor a usura, o empréstimo a juros abusivos. Para ele, o usurário paralisava a circulação do dinheiro e mercantilizava o tempo, que pertence a Deus. O capital, segundo sua visão franciscana, deve circular para gerar vida e bem-estar; retê-lo de forma egoísta fere o tecido social. Essas ideias abriram caminho para a criação, nas décadas seguintes, dos Montes de Piedade: instituições de crédito ético promovidas pelos franciscanos da Observância, destinadas a proteger os mais pobres e os pequenos artesãos da exploração.
Mais tarde, Bernardino de Sena foi eleito Vigário Geral da Ordem Franciscana, num período de intenso conflito entre os frades da chamada Observância e os da ala Conventual. Sob sua liderança, a Observância aumentou expressivamente o número de frades e conventos.
São Bernardino faleceu em 20 de maio de 1444, em L’Aquila, e foi canonizado apenas seis anos depois, em 1450.
O testemunho de São Bernardino de Sena revela que a tradição franciscana sempre soube unir espiritualidade e responsabilidade social. Sua defesa do justo preço, da função social da riqueza e de uma economia orientada pelo bem comum encontra hoje uma expressão concreta na proposta da Economia de Francisco, convocada pelo Papa Francisco.
Inspirada em São Francisco de Assis e Santa Clara de Assis, essa iniciativa propõe uma economia mais justa, inclusiva e sustentável, capaz de colocar os pobres no centro e não nas margens do sistema. Assim como Bernardino enfrentou as distorções econômicas de seu tempo, especialmente a usura e a concentração improdutiva da riqueza, a Economia de Francisco e Clara convida jovens economistas, empresários e pesquisadores a repensarem as estruturas financeiras e produtivas à luz da fraternidade. Trata-se do mesmo apelo evangélico, fazer da economia um instrumento de comunhão, dignidade e paz.






