Frei Adelmo Francisco, um frade entre o Monte e a Planície vivendo a Vocação de Ser Menor

Frei Adelmo Francisco, um frade entre o Monte e a Planície vivendo a Vocação de Ser Menor

A questão que Frei Adelmo nos coloca hoje é: como manter o coração em Deus quando estamos imersos no ruído das urgências pastorais e das demandas sociais? 

Frei Laércio Jorge, OFM[1]

A vocação missionária não é um caminho traçado por mapas, mas uma geografia do coração que se desdobra na escuta atenta da Voz que ecoa no silêncio e no grito das multidões.

Ao nos depararmos com a partida de Frei Adelmo Francisco para a Terra Santa, somos inevitavelmente remetidos ao dilema fundante de São Francisco, narrado na Legenda Maior 12,2. O confronto entre a oração contemplativa e a pregação itinerante não é uma crise teológica abstrata; é o pulso vivo da vocação franciscana, um fio de tensão que atravessa séculos e se atualiza com crueza nos dias de hoje.

A história de Frei Adelmo não começa no porto de embarque, mas naquela cela interior onde todo frade menor se pergunta, com o Poverello: “Senhor, o que Te agrada mais? Ficar aos Teus pés ou ir ao encontro dos Teus filhos?”. O texto da Legenda Maior nos mostra que Francisco não confiou na própria eloquência nem na sua inclinação natural pela reclusão. Pelo contrário, ele submeteu sua dúvida aos “sábios e aos simples”, a Frei Silvestre e Santa Clara, unindo as suas vozes em uma sinfonia de discernimento comunitário. A resposta foi unânime e avassaladora: o arauto de Cristo deve ir. E foi com a rapidez de quem recebe um fôlego novo que Francisco se pôs a caminho.

Hoje, Frei Adelmo Francisco parte para a Terra Santa não em busca de ruínas arqueológicas ou de um exotismo espiritual, mas para habitar um chão ensanguentado por conflitos milenares, um território onde o Verbo encarnou e onde, paradoxalmente, a Palavra parece tantas vezes sufocada pelo barulho das bombas e das muralhas. O desafio contemporâneo do frade em missão é imenso: ele é chamado a ser “menor” em um mundo que cultua o poder e o protagonismo; a viver a pobreza em meio ao consumismo voraz; a ser profeta de fraternidade onde o ódio religioso se tornou moeda corrente.

Para desvendar essa vocação tão contraintuitiva, que nos leva a abrir mão de nossas seguranças, confortos e protagonismo e nos leva a abraçar a poeira do caminho, proponho três questões que funcionam como chaves de leitura para a alma de Frei Adelmo – e para a nossa própria:

1. A oração e a ação são inimigas ou aliadas na missão?

O texto da Legenda Maior revela que Francisco temia que a pregação o afastasse da intimidade divina, cobrindo-lhe o espírito de “poeira”. No entanto, a decisão final não anula a oração; ela a transborda para o mundo. A questão que Frei Adelmo nos coloca hoje é: como manter o coração em Deus quando estamos imersos no ruído das urgências pastorais e das demandas sociais? A missão autêntica não é um abandono da vida contemplativa, mas a sua encarnação. Frei Adelmo descobre que a “Terra Santa” não é apenas o lugar geográfico onde Jesus andou, mas qualquer espaço humano onde ele é chamado a semear paz. O grande desafio é transformar a ação em oração contínua, fazendo das mãos que servem e da voz que anuncia extensões do coração que adora. Caso contrário, a missão se torna ativismo vazio.

2. Até onde vai a humildade de consultar os “inferiores” e os “simples”?

A cena em que Francisco, mesmo sendo o grande inspirador da futura Ordem e portador de revelações, consulta Frei Silvestre e Santa Clara, é um antídoto radical contra o isolamento do líder. Para Frei Adelmo, chegando em territórios estrangeiros e complexos, a pergunta crucial é: tenho a coragem de desaprender minhas certezas para aprender com a sabedoria dos pobres, das mulheres, das outras culturas e até daqueles que não compartilham da minha fé? A missão franciscana hoje não suporta o clericalismo ou o paternalismo. Ser “menor” implica reconhecer que Deus fala na periferia e que a evangelização é, antes de tudo, um aprender a escutar. A unanimidade entre Frei Silvestre e Santa Clara só foi possível porque Francisco anulou seu próprio ego. No mundo contemporâneo, marcado por polarizações, esta humildade dialógica é a condição sine qua non para que a missão não se torne imposição, mas testemunho.

3. Qual é o combustível que sustenta a urgência e a alegria da partida?

Ao receber a resposta, Francisco não hesita: “Imediatamente se levantou, cingiu as vestes e, sem se deter um momento, se pôs a caminho”. Ele corre com “novas energias”. A questão que ecoa para Frei Adelmo e para todo missionário é: o que me move? O medo, o dever, ou o assombro amoroso por um Deus que se esvaziou (kenosis) para nos salvar? Francisco aponta que o argumento decisivo é o exemplo de Cristo, que deixou o seio do Pai. A missão, portanto, não é um fardo pesado, mas uma participação na própria dinâmica trinitária de Amor que transborda. Nos dias atuais, quando o cansaço e o desânimo são ameaças constantes (burnout pastoral), Frei Adelmo redescobre que sua energia não vem de recursos humanos, mas da certeza de que, ao sair de si, ele encontra Aquele que sempre o espera no rosto do irmão. A Terra Santa é, afinal, o lugar da alteridade, onde o encontro com o outro é o encontro com Deus.

Ao atravessar o mar em direção à Terra Santa, Frei Adelmo Francisco carrega consigo não apenas o hábito e o breviário, mas a herança viva desta dúvida resolvida pela obediência e pelo amor. Ele nos ensina que a vocação franciscana não é uma fuga do mundo para um paraíso espiritual, nem uma imersão cega na mundanidade, mas um movimento perpétuo de ir e vir entre o Monte da Oração e a Planície da Pregação. Que ele, como Francisco, descubra que o maior milagre não é evitar a poeira do caminho, mas transformá-la em terra fértil onde a Palavra possa germinar. E que, ao final de sua jornada, possa dizer que, em cada passo, era Deus quem corria através dele.

LEGENDA MAIOR, 12,2ss.

Ao voltar da oração, ele a expôs aos irmãos mais achegados, rogando-lhes que o auxiliassem a encontrar a solução:

“Meus irmãos, que me aconselhais, qual a vossa opinião: devo dedicar-me à oração ou caminhar de cidade em cidade para pregar? Pois sou um pobre homenzinho simples, sem eloqüência, mais dotado para a oração do que para a pregação. Na oração obtemos e acumulamos graças, ao passo que a pregação é, por assim dizer, uma distribuição dos bens recebidos do céu. Na oração purificamos todos os impulsos da alma e os centramos com maior firmeza n’Aquele que é o único e soberano Bem, enquanto: na pregação nosso espírito se cobre de poeira, como os pés, as distrações nos assaltam de toda parte e a disciplina se relaxa. Na oração falamos com Deus e o ouvimos, levando assim uma vida que se aproxima da dos anjos, ao passo que a pregação nos força a nos colocar continuamente ao nível dos homens e a viver com eles, pensar, ver, falar e escutar com eles… Mas, contra todas essas vantagens da oração, existe um argumento que, se nos colocarmos do ponto de vista de Deus, parecerá decisivo: o Filho único de Deus, Sabedoria suprema, deixou o seio do Pai pela salvação das almas, a fim de se dar ao mundo como exemplo, dirigir aos homens a Palavra que salva, dar-lhes seu sangue como resgate e libertação, como banho de purificação e como bebida que fortifica; nada reteve para si, mas nos deu tudo a fim de nos salvar. E como devemos imitar suas ações, tal como Moisés que confeccionou o candelabro de ouro segundo o modelo que Deus lhe mostrara sobre o monte, parece-me que o que mais agrada a Deus é que eu abandone a tranquilidade de meu retiro para ir trabalhar e pregar”. Durante vários dias continuou ele com seus irmãos a discussão sem chegar a formar uma convicção certa sobre a escolha que seria a mais agradável a Cristo. Ele mesmo, que recebia revelações maravilhosas em virtude de seu espírito de profecia, não conseguia esclarecer-se e resolver a questão: Deus permitia isso para evidenciar por um milagre o mérito de seu servo no momento de partir para a pregação e salvaguardar sua humildade. 2. Não se envergonhava de pedir conselhos aos seus inferiores nas coisas pequenas, ele que se julgava o menor de todos, embora houvesse aprendido do Mestre supremo grandiosas revelações. Por isso costumava ter sumo cuidado em indagar de que modo e de que forma poderia servir mais perfeitamente ao Senhor segundo seu beneplácito. Foi esta sua filosofia particular, foi esse seu mais ardente desejo enquanto viveu: consultar os sábios e os simples, os perfeitos e os imperfeitos, os grandes e os pequenos, de que maneira poderia chegar mais facilmente ao cume: da perfeição. E então chamou dois de seus irmãos e os enviou ao irmão Silvestre, aquele mesmo que em outro tempo vira sair da boca de Francisco uma cruz esplêndida, e então se encontrava entregue aos fervores da oração em um monte próximo à cidade de Assis, encarregando-o de consultar a Deus a fim de resolver aquela dúvida e pedindo-lhe que lhe comunicasse qual: a resposta do Senhor. Também pediu a Clara, virgem santa, encarregando-a de conferenciar sobre o assunto com alguma das mais puras e simples virgens que com ela estavam e acrescentando suas próprias orações às demais, para que procurasse verificar qual a vontade do Senhor. no assunto objeto da consulta. Houve uma unanimidade extraordinária: o sacerdote e a virgem, sob a inspiração do Espírito Santo, assim interpretaram a vontade de Deus: o arauto de Cristo deve ir pregar pelo mundo. Voltaram os irmãos, indicando qual a vontade de Deus, conforme tinham podido saber.

Ele imediatamente se levantou, cingiu as vestes e, sem se deter um momento, se pôs a caminho. Ia com tanto fervor executar a vontade divina, corria tão velozmente, como se a mão do Senhor, descendo sobre ele, o houvesse cumulado de novas energias.

Fonte:

https://www.documentacatholicaomnia.eu/03d/1221-1274,_Bonaventura,_Legenda_Major_Sancti_Francisci,_PT.pdf


[1] Frei Laércio Jorge, OFM. Graduado em Filosofia e Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Mestre em Ciências Sociais pela PUC-MG.

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