A partir do texto bíblico, Frei Jacir reflete sobre a denúncia profética e a inabalável promessa divina que nos convida a transformar a realidade com razão e sentimento integrados.
Frei Jacir de Freitas Faria, OFM
O texto bíblico que fundamenta esta reflexão é Ezequiel 36,23-28, que traz a promessa divina central: “Eu vos darei um coração novo e porei um espírito novo dentro de vós”. Esta profecia é fruto da experiência de Ezequiel, um jovem de família sacerdotal que vivenciou a dor do cativeiro na Babilônia, região do atual Iraque, período que representou um dos momentos mais difíceis para o povo judeu. Chamado para atuar como profeta junto ao Rio Quebar, próximo à cidade de Nippur, por volta de 593 e 592 a.C., ele exerceu sua vocação até 572, quando foi assassinado.
A dinâmica de todo profeta bíblico, atento aos problemas de sua sociedade, baseia-se em apresentar três elementos: uma denúncia, uma solução e uma esperança. Como denúncia, Ezequiel criticou duramente os tribunais com juízes corruptos que promulgavam sentenças criminosas por suborno. Ele também denunciou a idolatria, o roubo, as riquezas como fruto da opressão e a ânsia desenfreada por enriquecimento das lideranças e sacerdotes. Como solução, o profeta propunha a purificação de seu povo, acreditando que a intervenção do Senhor concederia a cada ser humano um novo coração e colocaria Seu espírito no íntimo de cada um. Por fim, ao analisar a realidade e negar a estrutura injusta, o profeta, paradoxalmente, cria esperança. Ezequiel sonhava com uma nova aliança que permitiria o estabelecimento de novas relações.
Na Bíblia, a palavra “coração” é citada 5.853 vezes. Diferente da compreensão moderna, onde o coração está inteiramente ligado ao sentimento, no mundo bíblico ele é, primeiramente, a sede da razão. Portanto, receber um “coração novo” significa ter razão e sentimento integrados para compreender a vida.
Diante do cenário histórico e atual, levanta-se a questão: valeu a pena a profecia de Ezequiel, se tantas estruturas sociais continuam injustas?. A reflexão nos convida a entender que sim, pois a palavra profética deu frutos ao longo dos tempos e sua essência continuará sempre atual. A esperança é o combustível do ser humano, e a palavra profética, ao invés de entregar a casa pronta ou o pão mastigado, ensina a buscá-los, derrubando barreiras e alimentando a vida.
Como bem ensinou o eterno profeta de nossos tempos, o bispo Dom Hélder Câmara, morto em 1999: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, me chamam de comunista”. Seu exemplo e a mensagem de Ezequiel nos lembram que é preciso ser profeta sempre, mantendo viva a esperança na construção de um outro mundo possível, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis.
Fonte: Reflexão Bíblica, 20ª Quinta-feira do Tempo Comum. Material desenvolvido para o Grupo de Reflexão Bíblica São Jerônimo, uma iniciativa de professores de Bíblia cuja missão é proporcionar nutrimento bíblico-espiritual, conforto e esperança fundamentados no texto sagrado.





