Do chamado ao testemunho: a missão de São Mateus e a fidelidade de Santa Efigênia

Do chamado ao testemunho: a missão de São Mateus e a fidelidade de Santa Efigênia

Celebrados no dia 21 de setembro, o apóstolo evangelizador e a princesa etíope têm suas trajetórias unidas pela Providência Divina em um testemunho de conversão, fé e fidelidade a Cristo.

Frei Sidinei Braz, OFM1 

No dia 21 de setembro, a Igreja celebra dois grandes nomes fundamentais para a propagação do Evangelho de Jesus Cristo e para a conversão: Mateus e Efigênia, dois personagens cujas histórias se entrelaçam graças à Divina Providência. Embora na liturgia a festa de São Mateus tenha precedência, no Brasil a devoção popular gira em torno da figura de Santa Efigênia; portanto, abordaremos um pouco da trajetória de ambos neste artigo. 

Somos convidados a voltar o olhar para a nossa própria vida e consciência a partir do processo de conversão de Mateus. O Evangelho nos traz um belo relato do encontro entre Jesus e aquele que, segundo os escritos que carregam seu nome, foi visto por Jesus ‘sentado na coletoria de impostos’, que lhe disse: ‘Segue-me’ (Mt 9,9). Em seguida, Mateus o acolheu em sua casa. Em um trecho da homilia de São Beda, o Venerável, no Ofício das Leituras, lemos: ‘É que o Senhor chamava exteriormente com a sua palavra, mas iluminava-o de um modo interior e invisível para que O seguisse, infundindo na sua mente a luz da graça espiritual, para que pudesse compreender que Aquele que na terra o afastava dos negócios temporais, lhe podia dar no Céu tesouros incorruptíveis’. 

Como vemos nas páginas dos Evangelhos, diante de um gesto de misericórdia de Jesus, costuma haver um gesto de incompreensão por parte dos fariseus. Jesus logo intervém, retomando a teologia do profeta Oseias, na qual se ressalta a necessidade da vivência da misericórdia acima do sacrifício (cf. Os 6,6). ‘A compaixão para com os cobradores de impostos e os pecadores corresponde exatamente ao que o Pai espera dele. Os fariseus, com sua religião legalista, jamais o desviarão do seu caminho’ (Vitório, 2019, p. 111). A experiência da compaixão vivida por Mateus tornou-se semente e caminho para todos os outros pecadores que estavam reunidos à mesa com ele e Jesus. É o que podemos ver em mais um trecho da homilia de São Beda: ‘Foi, na verdade, um belo e feliz precedente: aquele que havia de ser apóstolo e doutor das gentes, atraiu consigo ao caminho da salvação, logo no primeiro momento da sua conversão, um numeroso grupo de pecadores’. 

Na mesma data, celebramos também a memória de Santa Efigênia (ou Ifigênia, a depender do local de culto). A Tradição une intimamente esses dois grandes personagens da nossa história. Segundo a tradição, a princesa Efigênia nasceu na Núbia (região da atual Etiópia), uma terra rica e fértil de fé politeísta. Foi evangelizada pelo próprio Mateus oito anos após a Ascensão do Senhor, quando os discípulos se espalharam pelo mundo. Segundo o Pe. José Carlos dos Santos, após a morte do pai de Efigênia, seu tio Hirtaco assumiu o trono e decidiu casar-se com ela, atraído por sua beleza e motivado pela busca do poder. Diante disso, Mateus interveio na situação, respondendo ao rei: ‘Todos vocês sabem que, se um escravo ousasse raptar a esposa do rei, mereceria a morte pelo ultraje. A mesma coisa te aconteceria, ó Rei. Sabes que Ifigênia se tornou a esposa do Rei Eterno. Como podes pretender tomar a esposa daquele que é muito mais poderoso que tu e casar-se com ela?’. O relato prossegue narrando que o rei, descontente com a resposta de Mateus, mandou matá-lo e, em seguida, ateou fogo à casa onde residiam Efigênia e as demais consagradas. Contudo, o fogo milagrosamente se apagou, e Efigênia e as demais religiosas saíram ilesas. 

Enfim, ao olharmos para essas duas histórias que se entrelaçam, somos cada vez mais impelidos a buscar um encontro pessoal e verdadeiro com o Senhor, que continua ainda hoje chamando os Mateus e as Efigênias espalhados pelo mundo. Que as sementes do Evangelho possam germinar, crescer e frutificar em nossos corações.

São Mateus e Santa Efigênia, rogai por nós!

Referências:  

IGREJA CATÓLICA. Lecionário III: santoral: para as missas dos santos, dos comuns, para as diversas necessidades e votivas. Tradução oficial da CNBB. São Paulo: Paulus/Edições Loyola, 1997. Festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista (21 de setembro). Evangelho (Mt 9, 9-13). 

IGREJA CATÓLICA. Liturgia das Horas. Tradução oficial da CNBB. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas/Paulus/Ave-Maria, 1995. v. 4: Tempo Comum, Semanas 18-34. Ofício de Leituras de 21 de setembro (Festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista). Segunda Leitura: Das Homilias de São Beda Venerável, presbítero (Hom. 21: CCL 122, 149-151) 

SANTOS, José Carlos dos. Quem foi Santa Efigênia? Disponível em: https://padrejosecarlos.com.br/noticia/quem-foi-santa-efigenia/. Acesso em: 07 set. 2026. 

VITÓRIO, Jaldemir. Lendo o Evangelho Segundo Mateus: o caminho do discipulado do Reino. São Paulo: Paulus, 2019. 

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