[ …] Creio na Comunhão dos Santos…

[ …] Creio na Comunhão dos Santos…

A santidade que celebramos nos santos é, ao mesmo tempo, memória da Graça que já floresceu, sinal da comunhão que nos sustenta e promessa da plenitude para a qual todos somos chamados.

Frei Pedro Lucas Martins Ferro, OFM

A Solenidade de Todos os Santos, celebrada em 1º de novembro ou no domingo mais próximo, constitui uma das expressões mais profundas da fé cristã na vocação universal à santidade e na esperança da vida eterna. Mais do que recordar os santos oficialmente canonizados pela Igreja, essa celebração contempla a multidão daqueles que, tendo vivido na fidelidade a Deus, participam plenamente da vida divina. Ao mesmo tempo, convida-nos a reconhecer que a santidade não é um privilégio reservado a poucas pessoas extraordinárias, mas um chamado dirigido a todo o povo de Deus.

Essa compreensão está intimamente relacionada à profissão de fé: “Creio na comunhão dos santos”. Essa afirmação do Credo, adicionada por volta do Séc. V, expressa a convicção de que a Igreja não se limita à comunidade visível dos cristãos que peregrinam na história, mas compreende todos aqueles que pertencem a Cristo. Existe, portanto, uma comunhão que une os fiéis que ainda caminham neste mundo àqueles que já participam da glória celeste. Essa comunhão tem seu fundamento em Jesus Cristo, cuja morte e ressurreição reconciliaram a humanidade com o Pai e estabeleceram uma nova relação entre Deus e seu povo.

Para compreender o sentido teológico dessa solenidade, é necessário recuperar o significado bíblico da palavra santo. No Antigo Testamento, o termo hebraico קָדוֹשׁ pertence ao campo semântico daquilo que é separado, consagrado ou reservado para Deus. Sua significação, porém, não deve ser reduzida à ideia de afastamento do mundo ou de superioridade moral. A santidade indica, antes de tudo, a pertença a Deus, cuja presença transforma a existência daqueles que ele chama. Em Levítico 19,2, encontramos a seguinte afirmação: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. Nesse contexto, a santidade de Israel está relacionada à aliança com Deus e se manifesta concretamente nas relações humanas, na justiça, no cuidado com os vulneráveis e no amor ao próximo. A santidade, portanto, não se restringe ao culto, mas envolve toda a vida concreta.

No Novo Testamento, essa compreensão é aprofundada a partir da pessoa e da obra de Jesus Cristo. O termo grego ἅγιος, traduzido por “santo”, conserva a ideia de consagração a Deus, mas recebe uma expressão particular na comunidade reunida em torno de Cristo Ressuscitado. Nas cartas de São Paulo, os cristãos são frequentemente chamados de “santos”, como acontece em 1Coríntios 1,2, quando o apóstolo se dirige à Igreja de Deus em Corinto, aos “santificados em Cristo Jesus, chamados a ser santos”. Essa designação é teologicamente significativa: os membros da comunidade são chamados santos não porque já tenham alcançado a perfeição moral, mas porque foram consagrados a Deus em Cristo e receberam a vocação de viver de acordo com essa nova condição.

Sendo assim podemos perceber uma distinção fundamental: a santidade é, simultaneamente, dom e tarefa. É dom porque nasce da iniciativa gratuita de Deus, que chama, santifica e reúne seu povo; é tarefa porque exige uma resposta concreta, manifestada na conversão, na caridade e na fidelidade ao Evangelho. Ser santo significa deixar que a vida de Cristo transforme nossas escolhas, nossos relacionamentos e nossa maneira de estar no mundo. Por isso, a santidade cristã não pode ser confundida com uma existência sem conflitos ou limitações, mas deve ser compreendida como um caminho contínuo de configuração a Jesus.

Essa perspectiva aparece de maneira especial nas Bem-aventuranças, proclamadas no Evangelho de Mateus 5,1-12, texto associado à essa Solenidade. Jesus declara felizes os pobres em espírito, os mansos, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz e os perseguidos por causa da justiça. A santidade, nesse horizonte, não se mede pelo prestígio social, pelo poder ou pelo reconhecimento público, mas pela participação na lógica do Reino de Deus. Os santos são aqueles que, de diferentes maneiras e em contextos históricos distintos, permitiram que essa lógica orientasse sua existência.

A visão apresentada em Apocalipse 7,9-14 amplia ainda mais essa compreensão. O autor sagrado da teologia joanina, contempla uma multidão imensa, de todas as nações, tribos, povos e línguas, diante do trono de Deus e do Cordeiro. A imagem possui uma dimensão universal: a salvação não está limitada a um único povo, cultura ou condição social. A multidão vestida de branco representa aqueles que atravessaram a tribulação e encontram sua esperança na ação salvadora de Deus. A santidade aparece, assim, como destino de uma humanidade reconciliada, reunida na presença divina. A Igreja celebra, portanto, não somente exemplos individuais de fidelidade, mas a realização da promessa de Deus de reunir seus filhos na plenitude da vida.É nesse horizonte que se compreende a expressão “comunhão dos santos”. 

Essa comunhão ultrapassa os limites da morte. A fé cristã professa que a morte não rompe o vínculo daqueles que pertencem a Cristo. Em Romanos 8,38-39, Paulo afirma que nem a morte nem a vida, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. A Igreja compreende essa afirmação como fundamento de sua esperança na comunhão entre os fiéis vivos e aqueles que já morreram em Cristo. Por isso, os santos não são considerados figuras distantes, mas irmãos e irmãs que participam da vida de Deus e cuja memória testemunha a fidelidade da Graça Divina.

A veneração dos santos, nesse sentido, não substitui a adoração devida exclusivamente a Deus. Os santos não ocupam o lugar de Cristo, único mediador da salvação; antes, sua vida manifesta a eficácia da graça de Cristo e aponta para ele. Francisco de Assis, Antônio de Pádua, Gonçalo do Amarante, por exemplo, a Igreja os reconhece como testemunhas do Evangelho e compreende que a comunhão dos santos inclui a possibilidade de intercessão. Celebrar os santos, portanto, não significa simplesmente admirar personagens do passado, mas reconhecer que a graça de Deus continua produzindo frutos na história e que a vida cristã é vivida em uma relação de comunhão, e não de isolamento.

A Solenidade de Todos os Santos possui, ainda, uma importante dimensão eclesiológica. Ela revela a identidade da Igreja como povo convocado por Deus e unido em Cristo, que reúne pessoas de diferentes épocas, culturas e condições. A santidade não elimina a diversidade, mas permite que ela seja integrada em uma comunhão mais profunda. Cada santo testemunha, de maneira singular, uma possibilidade concreta de viver o Evangelho. A multiplicidade das experiências de santidade manifesta a riqueza da ação do Espírito Santo, que suscita diferentes dons e carismas para a edificação do único corpo de Cristo. (Conf. 1Cor 12, 12-27)

Por fim, a celebração apresenta uma dimensão escatológica, isto é, orientada para a plenitude futura da salvação. Os santos recordam à Igreja que a história humana não está destinada ao vazio ou à destruição, mas à comunhão definitiva com Deus. Sua existência testemunha que o Reino anunciado por Jesus já produz frutos no hoje, embora ainda aguarde sua realização plena. A esperança cristã, portanto, fortalece o compromisso com a transformação da realidade, com a defesa da dignidade humana, com a justiça, com a reconciliação e com o cuidado dos mais vulneráveis.

Assim, professar “Creio na comunhão dos santos” a cada domingo, festa ou solenidade, significa reconhecer que pertencemos a uma comunidade que atravessa gerações e ultrapassa as fronteiras da morte; significa acreditar que a santidade é um chamado dirigido a todos e que ninguém caminha sozinho na fé. A Solenidade de Todos os Santos convida-nos a olhar para aqueles que já alcançaram a plenitude da vida em Deus, mas também a examinar a maneira como vivemos nossa própria vocação em nosso dia-a-dia, como ao “pé da porta.” (GE, 4) A pergunta fundamental é se, com isso, permitiremos que o Evangelho transforme nossa vida cotidiana.

Afinal, crer na comunhão dos santos é acreditar que a santidade não é apenas uma realidade a ser contemplada no céu, mas uma vocação que precisa ser assumida na terra. É reconhecer que, em Cristo, somos chamados a formar um só povo, a sustentar uns aos outros no caminho da fé e a testemunhar, por meio de nossas escolhas concretas, a esperança de uma humanidade reconciliada com Deus. A santidade que celebramos nos santos é, ao mesmo tempo, memória da Graça que já floresceu, sinal da comunhão que nos sustenta e promessa da plenitude para a qual todos somos chamados.

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