São Judas Tadeu recebeu o título de santo das causas impossíveis, perdidas, desesperadas e difíceis de resolver, por influência de Santa Brígida da Suécia.
Inspiração de Lc 6,12-19 e Ef 2,19-22
Frei Jacir de Freitas Faria [1]
Na celebração da festa de São Judas Tadeu e São Simão, a nossa reflexão tem como referência dois textos bíblicos que se complementam: Lc 6,12-19 e Ef 2,19-22. A comunidade de Lucas deixou registrado o chamado dos doze apóstolos, dentre eles, Simão e Judas Tadeu. Judas é um nome comum entre os judeus. Tadeu significa “o corajoso”. Simeão é o diminutivo Samuel e significa “Deus ouviu”. Simão era chamado também de Cananeu ou o Zelota. Tadeu e Simão eram irmãos (Lc 6,16), primos de Jesus e sobrinhos de São José.
A carta de Paulo aos Efésios que, com muita probabilidade, não é dele, mas de um discípulo seu da segunda e terceira gerações. Ele resolveu escrever essa homília para os cristãos da Ásia Menor com o objetivo de explicar-lhes a necessidade de união.
Para o autor, Deus é Pai e Criador de todas as coisas. Seu plano foi revelado por Deus a Jesus. Cristo ressuscitado tem autoridade sobre todo o universo. A Igreja é universal, única, corpo de Cristo, morada de Deus em construção num corpo, templo de Deus (2,20-22), tendo como fundamento os apóstolos e a pedra principal, Jesus Cristo. O cristão é chamado a ser morada de Deus pelo Espírito. A bondade, o amor, a misericórdia de Deus e a centralidade de Cristo na nossa vida fortalece a cidadania de todos/as, sem exceção, como Povo de Deus: “Vocês, portanto, já não são estrangeiros nem hóspedes, mas concidadãos do povo de Deus e membros da família de Deus” (Ef 2,19). Povo de Deus não está restrito à linhagem cultural judaica, mas abarca todos os povos, sem exceção, irmanando todos como família de Deus. Eis a perspectiva universalista apregoada pelo autor da Carta aos Efésios afirmando para nós que a inculturação em todas as culturas é o caminho santificador.
Foi nessa perspectiva de levar o evangelho a todos os povos que os apóstolos Simão e São Judas Tadeu partiram em missão. Judas Tadeu evangelizou a Mesopotâmia, a Síria, a Arménia e a Pérsia, atual Irã, onde se teria encontrado com Simão, que, antes, estava pregando no Egito. Juntos expulsaram demônios, curaram doentes, fundaram comunidades, consagraram Abdias como bispo, dentre tantas outras atividades missionárias.
Na Bíblia Apócrifa – Segundo Testamento, publicada por nós, em Atos apócrifos de Simão e Judeus encontramos narrativas como:[2] “Enquanto com os apóstolos realizavam essas coisas na Babilônia, aconteceu que dois ferocíssimos tigres que estavam presos em uma gruta por um estranho acaso foram libertados e fugiram devorando tudo o que encontravam pelo caminho. Consternado por esse fato, todo o povo recorreu aos apóstolos de Deus. Estes invocaram o nome do Senhor nosso Jesus Cristo e mandaram-lhes que os seguissem até a casa onde moravam. E ali ficaram três dias.” Os tigres ficaram mansos e não atacavam mais as pessoas. O povo chorava e pedia que eles não fossem embora. A esse pedido os bem-aventurados Simão e Judas prolongaram ainda um ano e três meses a permanência na Pérsia. Nesse espaço de tempo foram batizados mais de sessenta mil homens, sem contar as crianças e as mulheres. Em primeiro lugar foram batizados o rei e todos os seus dignitários. “Na cidade da Babilônia os apóstolos consagraram um bispo chamado Abdias, que fora com eles da Judeia, um que também tinha visto o Senhor com os próprios olhos. E a cidade ficou repleta de igrejas. Tendo convenientemente arranjado todas as coisas, os apóstolos saíram da Pérsia. Seguiam-nos multidões de discípulos: mais de duzentos homens. Percorreram as doze províncias da Pérsia e suas cidades.” Atos apócrifos de Simão e Judas Tadeu continua contando que o fizeram e o que sofreram Simão e Tadeu durante treze anos foi escrito em uma longa narração por Cratão, discípulo dos mesmos apóstolos, compreendendo tudo em uma obra de dez livros, que o historiógrafo Africano traduziu em língua latina, na qual é dito que os magos Zaroém e Arfaxat realizavam muitas impiedades nas cidades da Pérsia e diziam que eram de estirpe divina; fugiam sempre na frente dos apóstolos; permaneciam em uma cidade até saberem que estavam para chegar os apóstolos. Simão e Judas Tadeu onde entravam desmascaravam as suas impiedades e demonstravam que a doutrina deles era sugerida pelo inimigo do gênero humano.
O fim da vida desses dois apóstolos foi marcado pela insistência de um rei que exigia deles a adoração de ídolos. Diante da resistência, professando a fé em Jesus, Simão e Judas Tadeu foram martirizados no dia primeiro de julho do ano 70 E.C. Outra tradição diz que eles foram martirizados a golpes de bastões, machados e lanças a mando de sacerdotes da religião persa, no dia 28 de outubro, também do ano 70, por isso, São Judas tem um machado nas mãos.
Com os apóstolos também sofreu o martírio Seném, seu hospedeiro, pois ele tinha considerado coisa abominável sacrificar aos ídolos. Na hora martírio havia no céu uma enorme serenidade, e, no entanto, apareceram de repente relâmpagos tais que o próprio Templo foi partido em três partes, da parte mais alta do teto até as extremas profundidades dos alicerces; ao mesmo tempo também os dois magos, Zaroém e Arfaxat, foram fulminados por um raio e carbonizados.
Padroeiro da Armênia, o primeiro país que reconheceu o cristianismo como religião do estado, em 301 E.C., São Judas Tadeu tem o título de santo das causas impossíveis causas perdidas, desesperadas e difíceis de serem resolvidas por causa de Santa Brígida da Suécia (1303-1373). Jesus lhe teria aparecido e aconselhado a invocar São Judas Tadeu para resolver os seus problemas. São Judas Tadeu é também considerado padroeiro dos hospitais. Por isso, diante de doenças incuráveis, recorre-se a São Judas Tadeu. Em 1950, o Flamengo estava há décadas sem título. Por causa da intercessão de São Judas Tadeu, a pedido de um padre, o Flamengo sagrou-se tricampeão. A intercessão continua valendo, pois o Flamengo há décadas continua colecionando títulos e mais títulos, ou seria por causa das bets? Valei-nos São Judas Tadeu!
[1]Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de treze livros e coautor de dezessete. Publicou recentemente Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento. Canal no Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ No Instagram e Tiktok @freijacir
[2]FARIA, Jacir de Freitas, Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento, Petrópolis: Vozes, 5ª reimpressão, 2025, p. 672.






