A Independência do Brasil em questão  

A Independência do Brasil em questão  

Ao longo dos próximos dias, os professores mestrandos em Ciências Sociais, na PUC-Minas, Frei Laércio Jorge ofm e Miguel Vitor de Araujo Vieira, nos ajudarão a refletir sobre algumas situações atuais do Brasil e os possíveis desdobramentos que surgem a partir do tema da independência.

No dia 07 de setembro relembraremos a Independência do Brasil de Portugal, umas das datas mais conhecidas no calendário nacional. No arco de tempo até nossos dias, vale a pena nos deter sobre este tema, a fim de identificarmos os efeitos concretos do que significa ser um país independente. 

Ao longo dos próximos dias, os professores mestrandos em Ciências Sociais, na PUC-Minas, Frei Laércio Jorge ofm e Miguel Vitor de Araujo Vieira, nos ajudarão a refletir sobre algumas situações atuais do Brasil e os possíveis desdobramentos que surgem a partir do tema da independência.

I.N.D.E.P.E.N.D.Ê.N.C.I.A

Autores[1]:

Prof. Miguel Vitor de Araujo Vieira

Prof. Frei Laércio Jorge ofm

Pensar nesses duzentos anos de separação de Portugal, celebrados em setembro de 2022, nos coloca diretamente em choque com algumas questões. A começar, que a independência aparece em muitas obras desde o século XIX, o que não significa que a discussão já esteja desgastada. As representações acerca do tema, ao longo dos anos, desde 1822, se atualizam, ampliando ainda mais as possibilidades de reflexão sobre um processo central para se pensar o desenvolvimento de uma nacionalidade. A História não é estática e presa ao passado, é a “ciência do homem no tempo”, como já dizia o grande historiador Marc Bloch (2001). Por conseguinte, os novos elementos e perguntas que surgem no avançar do tempo, com destaque para a importância da discussão na política, levam a repensar as significações estabelecidas.

A partir das narrativas construídas até hoje, a independência ainda é percebida por muitos como um grande evento, com salvadores da pátria, quando o país, Brasil, se desassociou do colonizador, como aquele adolescente que busca sua liberdade. Apesar disso, alguns estudiosos se debruçaram sobre o tema sem a falsa promessa de colocar um ponto final nesta discussão. Procuram chamar atenção para os ângulos de observação, os múltiplos atores envolvidos e para a necessidade de se considerar o processo do qual a independência faz parte.

A ambiguidade do processo histórico da Independência e as contradições resultantes nas abordagens historiográficas, conferiram ao tema tal dubiedade ao ponto que o termo ‘Independência’ é usado frequentemente com bastante reserva […] aos estudiosos do tema compete a tarefa contínua de recuperar ângulos, aspectos, questões ainda não abordadas ou insatisfatoriamente analisadas, discutindo sobre a nova forma de pensar a história da Independência (LYRA, 1992, p.124).

O Processo de independência foi liderado por uma elite política e econômica, composto em sua maioria por grandes fazendeiros, comerciantes e ingleses beneficiários. Assim, salta aos olhos que foram os interesses deste setor que norteou os acontecimentos, deixando de lado as demandas dos diferentes grupos sociais, só para citar, os escravizados e indígenas. Isso não significa que os extratos desprestigiados da sociedade brasileira não se movimentaram, que sua resistência aos abusos da metrópole deva ser desconsiderada.

O endividamento após a independência é outro elemento a ser pensado, considerando o espaço internacional ocupado pelo Brasil atualmente. No dia 29 de agosto de 1825, o Tratado de Paz e Aliança finalmente oficializou o reconhecimento lusitano. Segundo esse acordo, o governo brasileiro deveria pagar uma indenização de dois milhões de libras esterlinas para que Portugal reconhecesse a separação. Acontece que não havia tesouro, o que levou a um empréstimo com os bancos da Inglaterra. Uma espécie de primeira dívida externa (FAUSTO, 2009).

Com essas ponderações é possível começar a refletir, criticamente, sobre a complexidade e algumas contradições que o processo de emancipação carrega. Um bom ponto de partida é assumir que os testemunhos, variados, que ganham força no mês de setembro, não são neutros. Em alguns casos, são elaborados de forma deliberada, com a finalidade de se projetar uma memória futura. Por isso, quando se observa documentos oficiais ou a história oficial é preciso levar em conta quem elaborou o documento, qual sua finalidade, quem ele atendia, entre outros aspectos. Febvre (1977) indica que se deve descontruir a compreensão que associa o que é oficial a dados objetivos, além disso, é preciso pensar no processo histórico de forma mais abrangente. A pintura de Pedro Américo, o quadro Independência ou Morte (1888), é um bom exemplo para o que se discute. Representa a história oficial, com um herói ao centro. É o esforço do Brasil de criar símbolos, logo, uma identidade nacional, no Segundo Reinado (1840-1889). Portanto, é necessário olhar para esse tipo de fonte, jamais renega-la, de forma crítica, analisando suas contradições e sabendo que ela não tem a capacidade de explicar uma história total.

REFERÊNCIAS

BLOCH, Marc. Apologia da história, ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo Caminho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: a elite política imperial. 13° ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.

COSTA,  Emília  Viotti  da.  Introdução  ao  estudo  da  emancipação  política.  In: MOTA,  C.  G.  Mota  (org.)  –  Brasil  em  perspectiva.  19ª.ed.  São  Paulo,Difel, 1990.

DANTAS, Mariana Albuquerque. Dimensões da participação política indígena: Estado nacional e revoltas em Pernambuco e Alagoas, 1817-1848. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2018.

DIAS, Maria Odila da Silva. A interiorização da metrópole (1808-1853).

DOLHNIKOFF, M. História do Brasil Império. São Paulo: Contexto, 2021. 176 p.

DORATIOTO, Francisco. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, 617 p.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2009.

FEBVRE, L. Combates pela História. 2.ed. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1977.

LOPES, D. B. O DIREITO DOS ÍNDIOS NO BRASIL: A TRAJETÓRIA DOS GRUPOS INDÍGENAS NAS CONSTITUIÇÕES DO PAÍS. Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 8, n. 1, p. 83, 2014. DOI: 10.22456/1982-6524.41524. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/EspacoAmerindio/article/view/41524. Acesso em: 28 ago. 2023.

LYRA, M. de L. V. História e historiografia: a Independência em questão. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, v.153, n.377, p.124-27, out./dez. 1992.

MALERBA, Jurandir. A corte no exílio: Civilização e poder no Brasil às vésperas da Independência (1808-1821), Cia das Letras, São Paulo, 2000.

MAZZEO, Antonio Carlos; PERICÁS, Luiz Bernardo. Independência do Brasil: a história que não terminou. Boitempo Editorial, 2022.

MOTA, Carlos Guilherme. 1822: dimensões. São Paulo: Perspectiva,  1972.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História Cultural. Autêntica, 2003.

PIMENTA, João Paulo. A independência do Brasil e a experiência hispano– americana (1808-1822). São Paulo: Hucitec/Fapesp, 2015. 

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: a história não contada. São Paulo: LeYa, 2020. 432 p.

SCHWARCZ, Lilia Moritz e STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 209.

SOUZA, Jessé de. “Duas coisas salvariam o Brasil: interpretação de texto e consciência de classe”. https://patrialatina.com.br/jesse-de-souza-duas-coisas-salvariam-o-brasil-interpretacao-de-texto-e-consciencia-de-classe/ – acesso em 02 de agosto de 2023.

Texto extraído do livro História em curso: o Brasil e suas relações com o mundo ocidental de Américo Freire, Marly Silva da Motta e Dora Rocha (São Paulo: Editora do Brasil; Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 2004 – Coleção Aprender). VIDIGAL, Carlos Eduardo et al. História das relações internacionais do Brasil. Saraiva Educação SA, 2017.


[1] Os autores são professores e atualmente Mestrandos em Ciências Sociais, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais [2022 – 2024]

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