O texto analisa a Carta de São Francisco a Santo Antônio e propõe uma pedagogia em que o saber não gera vaidade, mas se transforma em fraternidade, serviço e cuidado com o mundo.
Arlaton Luiz Soares de Oliveira1
A educação na tradição franciscana é compreendida não apenas como transmissão de conhecimentos, mas como relação e restituição: um modo de fazer com que o saber construído se transforme em vida compartilhada.
Ensinar é uma arte de tecer relações. Nelas, o saber é colocado em circulação: é apresentado, interrogado, situado a novos contextos e pessoas, sempre num encontro no qual professor e estudante, a partir de lugares distintos, permanecem abertos à transformação. Na perspectiva fransciscana, essa forma de educar, também revela uma das facetas do testemunho evangélico, em fraternidade e minoridade.
Há mais de oitocentos anos, o Poverello de Assis escreveu um pequeno bilhete. Poucas palavras foram usadas, quase nada se comparado à extensão dos textos compilados nas fontes franciscanas que atravessaram os séculos. O destinatário era Santo Antônio, a quem Francisco, de maneira afetuosa, chamou, nesse opúsculo, de “meu bispo”. O texto, após a saudação prossegue: “Agrada-me que ensines a sagrada teologia aos frades, contanto que, nesse estudo, não extingas o espírito de oração e devoção, como está contido na Regra”. (Carta a Frei Antônio, 2).
Na versão latina, São Francisco começa com uma expressão significativa: “placet mihi” (agrada-me, é do meu agrado). Com essa expressão Francisco revela seu contentamento, sua alegria com a possibilidade de Antônio ensinar aos irmãos. O ensino lhe parece um bem. Há apenas uma condição: que, no desejo e no exercício do estudo, não se extinga o espírito de oração e devoção.
Pode, porventura estar sintetizada nessas poucas linhas uma das intuições mais belas da tradição educacional franciscana? Parece que sim. A passagem ganha importância quando colocada ao lado de outra afirmação de Francisco que, lida isoladamente, poderia sugerir certa desconfiança em relação ao estudo: “os que não sabem as letras não as aprendam” (RB 10,7). O contexto do capítulo décimo na Regra, porém, é uma advertência contra a soberba e a vanglória. A Carta a Antônio ajuda a perceber que Francisco não opõe o estudo à vida evangélica nem a inteligência à espiritualidade. O problema não está nos estudos, mas naquele que, ao estudar, se torna; em quem nos tornamos ao estudar. O saber pode abrir horizontes e, também, erguer muros, pode ampliar nossa capacidade de compreender o mundo e as pessoas e igualmente, alimentar a vaidade, a soberba, o desejo de reconhecimento, a sensação de superioridade. Para que se evite o encastelamento do saber ele precisa estar em relação, conservar aberturas: a verdade não é propriedade daquele que a busca.
Essa advertência reaparece na “Sétima Admoestação”. Francisco a inicia com as palavras de Paulo aos Coríntios: “A letra mata, mas o espírito vivifica” (2Cor 3,6). Francisco prossegue interpretando a oposição letra e espírito a partir da relação que estabelecemos com o saber. “São mortos pela letra…” (Admoestação 7,2), escreve ele, aqueles que desejam conhecer as palavras para serem considerados mais sábios que os outros e para adquirir riquezas. Também são mortos pela letra aqueles que desejam conhecer e interpretar, mas não querem seguir o espírito daquilo que conhecem.
O problema, para Francisco, não é saber nem ensinar aquilo que se sabe. Afinal, ele próprio se alegra com a missão confiada a Antônio. A dificuldade começa quando o conhecimento deixa de abrir o ser humano para algo que o ultrapassa e passa a servir à construção de um ego que se fecha em si mesmo. Estuda-se para parecer sábio. É um “saber de performance”. Acumulam-se títulos, palavras e informações como se acumulam outros bens. Ensina-se para que os outros reconheçam a competência daquele que ensina. Nesse caso, a letra mata. Não porque o conhecimento seja perigoso, mas porque deixou de produzir vida em uma teia de relações fraternas.
A continuação da admoestação aponta para outro caminho. Francisco afirma que são vivificados pelo espírito aqueles que não atribuem a si mesmos aquilo que sabem, mas, “pela palavra e pelo exemplo”, o restituem a Deus, “de quem é todo bem”.
Restituir, devolver são palavras importantes para a vida franciscana. Elas estão intimamente ligadas à fraternidade e à minoridade. O bem recebido não deve terminar naquele que o recebe. Ele pede para circular. Torna-se palavra, exemplo, serviço, relação. Talvez possamos dizer, então, que ensinar é uma forma privilegiada de restituição.
Todo professor, professora vivenciou em sua trajetória a díade receber e oferecer. Recebeu e ofereceu de seus mestre e alunos, dos livros que leu e das intuições e conversas que tiveram, das tradições que os formaram, das perguntas que encontraram pelo caminho… No caso da relação receber e oferecer, restituir aquilo que se recebeu não significa simplesmente transferi-lo a outro, como se o conhecimento pudesse passar intacto de uma inteligência a outra.
Ensinar não é depositar um saber naquele que ainda não o possui. É colocá-lo em movimento, em relação. O professor, a professora, tem algo a ensinar e justamente por isso sua presença importa. Mas aquele que aprende não é um recipiente vazio. Traz consigo uma história, uma experiência do mundo, perguntas e possibilidades de compreensão. A restituição acontece nesse encontro: aquilo que recebemos torna-se fecundo quando deixa de ser propriedade de quem sabe e passa a constituir um mundo comum que professor e estudante podem, de lugares diferentes, compreender, questionar e ampliar.
É também nesse sentido que podemos falar de um “jeito franciscano de educar”. Francisco chamava de irmãos aqueles que caminhavam com ele. Reconheceu a fraternidade para além do círculo humano, no sol e na lua, na água e no fogo, na terra e em suas criaturas. Escolheu a minoridade em lugar de um poder que transforma a diferença em superioridade e fez da proximidade uma maneira de estar entre os outros. Por isso, uma educação que se pretenda franciscana não pode ser reconhecida apenas pelos conteúdos que transmite. Ela se revela também pelo modo como ensina a olhar, encontrar e habitar o mundo, nossa casa comum.
Essa experiência pode nos ajudar a pensar que conhecer não é apenas dominar intelectualmente um objeto. É também aprender a prestar atenção. A literatura, a filosofia, a história, a matemática, a química, as artes… ampliam nossa capacidade de perceber o real. Uma boa educação não oferece apenas respostas: ela torna o mundo mais visível, reconhecendo nele sua beleza diversa, convidando o que busca conhecer à uma forma de fraternidade: reconhecimento das relações que nos constituem e participação nesse grande cântico no qual todo bem é restituído à sua fonte.
Em um tempo no qual o trabalho docente convive com tantas exigências, transformações tecnológicas e desafios ao reconhecimento de seus direitos, talvez uma forma de ir na contramão seja justamente recordar a dignidade desse ofício e sua importância para a construção da fraternidade. Em todos os cantos, há homens e mulheres que dedicam seus dias a apresentar o mundo àqueles que chegam. Ensinam a ler uma frase, resolver uma equação, compreender um acontecimento histórico, observar uma célula, escutar uma música, formular uma pergunta. E, enquanto fazem tudo isso, ajudam outras pessoas a descobrir que o mundo pode ser conhecido, interrogado, cuidado e transformado.
Oito séculos depois, o pequeno bilhete de Francisco continua atual: ensinar, estudar e cultivar o saber com toda a seriedade que ele merece. Ao buscá-lo, porém, importa não guardá-lo como propriedade nem cultivá-lo como sinal de superioridade. Na educação, a fraterna restituição de todo bem pode transformar a letra em palavra e exemplo, preservando o espírito que vivifica quando o saber se torna relação
Referências
TEIXEIRA, Frei Celso Márcio. Fontes franciscanas e clarianas. Petrópolis: Vozes, 2000.






