XX Anos de Ordenação de Frei Gilberto – Itatiaiuçu/MG

XX Anos de Ordenação de Frei Gilberto – Itatiaiuçu/MG

Frei Gilberto Custódio celebra em Itatiaiuçu os 20 anos de ordenação presbiteral em festa de fé e emoção.

A cidade de Itatiaiuçu vestiu-se de alegria para celebrar os 20 anos de ordenação presbiteral de Frei Gilberto Custódio, filho dileto da cidade, da Ordem Franciscana e pastor de almas que construiu, ao longo dessas duas décadas, uma história de entrega e devoção.

Familiares, amigos, presbíteros e irmãos da fraternidade franciscana apertaram-se nos bancos da igreja. Todos queriam estar perto, todos queriam testemunhar. E quem presidiu a eucaristia foi o próprio homenageado, tendo ao altar a presença fraterna do Ministro Provincial Frei Vicente Paulo do Nascimento, que trouxe em sua homilia palavras capazes de tocar o mais profundo do coração.

“O tijolo não escolhe onde quer ficar”, provocou Frei Vicente, arrancando olhares atentos dos fiéis. “Na sala, na cozinha ou no banheiro. Ele não tem opção de escolha. Muitas vezes uns ficam embaixo, na base, para sustentar as colunas. E Deus às vezes te coloca embaixo e você não entende que é para sustentar muita gente que está em cima.”

A metáfora simples, mas poderosa, ecoou pela nave da igreja como um convite à humildade e à confiança.

“Deus nos coloca onde Ele quer. E pode ter certeza: onde quer que estejamos, Ele vai nos usar. Somos todos tijolos na obra do nosso Deus. Se estamos em cima, no meio ou embaixo não importa. O que importa é que estamos na obra. E tijolo é tudo igual!”

A partir do Evangelho de Marcos (4,1-11), Frei Vicente conduziu a assembleia por uma reflexão sobre as tentações de Jesus — aquelas mesmas que nos assombram ainda hoje:

a autossatisfação das necessidades imediatas, a busca pelo prestígio que coloca Deus a nosso serviço, e a ambição desmedida que confunde poder com divindade.

“Todas as tentações nos colocam em primeiro lugar. Levam-nos a olhar o mundo a partir do nosso próprio umbigo, a enxergar apenas aquilo que nosso nariz pode tocar”, alertou.

Mas se há tentação, há também caminho de volta. Jesus oferece antídotos:

transformar as estruturas segundo a vontade de Deus; lembrar que Deus não está a nosso serviço exclusivo; recusar absolutizar a opressão — adorar somente a Deus.

Numa interpretação original e provocadora, Frei Vicente convidou os presentes a repensarem o próprio sentido da palavra “tentação”. “Somos testados continuamente — no vestibular, nas entrevistas, nos exames, no modo de falar. Tentação é condição humana. Não precisa de ‘capetinhas’ para tentar. Somos testados para mostrar o melhor de nós. É o Espírito Santo que nos testa e nos prova na nossa verdade.”

E alertou contra a tentação mais perigosa: a de falsear a própria verdade. “Quando mentimos para os outros? Quando vestimos o nosso ser com aquilo que não é dele. As coisas não são o nosso ser. Quando não tenho coragem de mostrar quem sou, preciso das coisas. Mas eu não sou isso. Sou o cotidiano, o dia a dia. Sou esse serviço mínimo, este servo inútil, nos diz São Francisco.”

O Ministro Provincial denunciou ainda a tentação contemporânea de querer um Jesus “mago”, “vaidoso”, “dominador”. “Quanta falsidade, quanta mentira! E Jesus nos diz: ‘Não! A única coisa que eu quero são as pessoas. Nem a liberdade delas eu vou tirar. Este sou eu’.”

Num voo que costurou Gênesis e Evangelho, Frei Vicente lembrou que o “pecado original” — a autossuficiência, a recusa em reconhecer Deus como última palavra sobre a vida — foi vencido pela obediência de Jesus, que se uniu à vontade do Pai até morrer por amor.

“Se, solidários com Adão, todos pecam e morrem, muito mais encontramos a justiça e a amizade com Deus em Cristo”, resumiu.

O Ministro Provincial Frei Vicente Paulo do Nascimento trouxe à memória um convite que ecoa em toda a Igreja do Brasil neste tempo quaresmal: a Campanha da Fraternidade de 2026, que nos interpela com o tema “Fraternidade e Moradia” e o luminoso lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).

A Campanha da Fraternidade 2026 nos recorda que a moradia digna não é privilégio, mas direito fundamental — porta de entrada para todos os demais direitos, como saúde, educação, segurança e trabalho. Diante dessa realidade, a Igreja nos convoca à conversão pessoal, comunitária e social. Ela se apresenta como símbolo de uma fé que está a serviço — assim como o presbítero é chamado a servir o povo de Deus. “A missão do cristão”, afirmou, “é estar atento aos direitos fundamentais que garantem a vida”. E neste ano de 2026, a atenção se volta especialmente para a moradia, que traz consigo a tríade indissociável: terra, teto e trabalho.

A escolha do tema não poderia ser mais significativa. Trinta e três anos após a Campanha da Fraternidade de 1993, que já denunciava a desigualdade urbana e o contraste entre a “cidade legal” e a “cidade irregular”, a Igreja retoma o desafio histórico da habitação popular. Mas o faz com um olhar renovado, inspirado no mistério da Encarnação:

Deus não permaneceu distante, mas escolheu habitar a realidade humana, armando sua tenda no meio de nós.

Frei Vicente, ecoando esse ensinamento, sublinhou que a missão do cristão — e de modo especial a do presbítero — além de presidir a oração da comunidade e administrar os sacramentos, é estar junto aos mais pobres e necessitados garantindo que cada família possa experimentar o aconchego de um lar, o sentir-se em casa, o pertencer a uma comunidade. Onde está o Cristo hoje? Está nas ruas, nas ocupações, nas periferias, nos lares marcados pela precariedade. E é ali que somos chamados a encontrá-lo.

Ao celebrarmos os 20 anos de ministério de Frei Gilberto, sua trajetória de serviço ao povo de Deus se entrelaça com o apelo profético da Campanha da Fraternidade. Que sua caminhada inspire em todos nós um renovado ardor missionário, para que, como “tijolos na obra de Deus”, possamos contribuir para a construção de uma sociedade onde cada pessoa tenha um lugar digno para chamar de lar.

Porque, no fim, a fé que não se faz serviço, que não se inquieta com o irmão sem teto, que não luta por terra, trabalho e moradia, é fé pela metade. E a Quaresma nos convida à fé integral — aquela que, como Cristo, escolhe morar entre nós, especialmente entre os mais pequenos.

A celebração terminou como começou: em festa. A comunidade local preparou um almoço afetuoso, servido no Ginásio, onde os abraços se multiplicaram e as memórias seguiram sendo partilhadas entre uma garfada e outra.

Paz e Bem!

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