A relação de São Francisco de Assis com a Eucaristia ocupa um lugar central em sua espiritualidade e em sua compreensão da presença de Deus no mundo.
Frei Oton da Silva Araújo Júnior, OFM
A relação de São Francisco de Assis com a Eucaristia ocupa um lugar central em sua espiritualidade e em sua compreensão da presença de Deus no mundo. Embora Francisco seja comumente associado ao amor pela pobreza e pela criação, seus escritos demonstram que o sacramento eucarístico constitui o núcleo de sua experiência espiritual. Para ele, a Eucaristia não é apenas um rito litúrgico, mas a atualização concreta do mistério da Encarnação e o lugar privilegiado da presença de Cristo na história. Nesse sentido, pode ser considerada “o sol que ilumina toda a jornada espiritual de Francisco”, pois dela brotam tanto sua mística quanto sua prática fraterna (Lehmann, 1997, p. 112).
Um dos fundamentos da teologia eucarística franciscana encontra-se na Admoestação I, na qual Francisco reflete sobre a forma correta de perceber o sacramento. Ele estabelece uma analogia entre a experiência dos apóstolos e a dos cristãos de seu tempo: assim como os discípulos viram Jesus em sua humanidade, mas precisaram contemplá-lo com “olhos espirituais” para reconhecer sua divindade, também os fiéis veem apenas pão e vinho com os olhos corporais, mas devem crer firmemente que ali está o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. Em uma expressão sintética de sua fé, Francisco acrescenta: “Eis que diariamente ele se humilha” (Admoestação I, 19). Assim, a Eucaristia torna-se, para o santo, a única forma de ver corporalmente o Senhor neste mundo (cf. Admoestação I, 16-22).
Outro aspecto da compreensão franciscana da Eucaristia é o tema da humildade divina. Em sua Carta a toda a Ordem, Francisco manifesta profunda admiração diante do mistério eucarístico ao exclamar: “Ó admirável altitude e estupenda condescendência! Ó humildade sublime! Ó sublimidade humilde!” (27). Para ele, a Eucaristia representa a continuação diária do mistério da Encarnação: assim como Cristo desceu do seio do Pai ao ventre da Virgem Maria, continua a descer todos os dias sobre o altar nas mãos do sacerdote (26-29). O Santo descreve esse mistério com palavras de intensa devoção: “Nada de vós retenhais para vós, para que totalmente vos receba aquele que totalmente se dá a vós” (29).
A mesma carta contém ainda uma forte advertência espiritual, também frequentemente citada: “Considerai, irmãos, a humildade de Deus” (28). Essa expressão resume a perspectiva teológica de Francisco, que contempla no sacramento a continuidade do abaixamento divino iniciado na Encarnação. Tal perspectiva revela aquilo que diversos estudiosos identificam como a “minoridade” de Deus, isto é, a escolha divina de manifestar-se através da humildade e da pequenez. Em uma época marcada pelo temor de um Deus distante e severo, Francisco apresenta um Deus próximo, que se deixa tocar e até comer. Para o historiador Jacques Le Goff, a insistência franciscana na presença real de Cristo na Eucaristia contribuiu para uma verdadeira “humanização do sagrado”, aproximando o divino da experiência cotidiana dos fiéis (Le Goff, 2010, p. 98).
A centralidade da Eucaristia também se manifesta no profundo respeito de Francisco pelos sacerdotes. Em seu Testamento, ele afirma que não deseja considerar os pecados dos ministros da Igreja, pois neles reconhece aquele que torna presente o próprio Cristo: “E faço isto porque neste mundo nada vejo corporalmente do próprio Filho de Deus senão o seu santíssimo corpo e sangue, que eles recebem e eles somente administram aos outros” (10). Essa atitude não se baseia na santidade pessoal do sacerdote, mas em sua função sacramental. Raoul Manselli observa que essa postura expressa um claro compromisso com a ortodoxia da Igreja medieval. Segundo o historiador, ao afirmar a dignidade do sacerdócio e a presença corporal de Cristo na Eucaristia, Francisco respondia indiretamente às correntes heréticas de seu tempo, especialmente ao catarismo, que negava o valor da matéria e dos sacramentos (Manselli, 2009, p. 324).
Essa defesa da presença real de Cristo no sacramento está profundamente ligada à valorização da matéria. Francisco manifesta grande preocupação com o cuidado dos objetos litúrgicos e dos sinais associados à Eucaristia. Em sua Carta a todos os Clérigos, ele adverte: “Consideremos todos nós, clérigos, o grande pecado e ignorância que alguns têm para com o santíssimo corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo” (1). Em seguida, acrescenta: “Todos aqueles que administram tão santíssimos mistérios devem considerar dentro de si mesmos quão preciosos são os vasos, corporais e ornamentos do altar” (3).
Na Carta aos Custódios, Francisco insiste para que o Santíssimo Sacramento seja guardado com dignidade e veneração (I, 2-4). Em outra passagem, ele recorda que o próprio Cristo “se oferece por nós em sacrifício sobre o altar” (I, 19). Podemos ver, assim, a “sacramentalidade do mundo”: se o pão e o vinho, frutos da terra e do trabalho humano, tornam-se o Corpo de Cristo, então toda a criação adquire uma dignidade especial como lugar de encontro com Deus (Boff, 1999, p. 154). Essa dimensão sacramental aparece também na Regra não Bulada, na qual Francisco recomenda que os frades demonstrem profunda reverência pelos mistérios sagrados e participem da vida litúrgica da Igreja com humildade e fé (22).
A Eucaristia possui, ainda, uma dimensão comunitária fundamental na espiritualidade franciscana, desempenhando um papel estruturante na vida da Ordem dos Frades Menores. A fraternidade não se fundamenta apenas em vínculos humanos ou sociais, mas encontra sua unidade na comunhão em torno da mesa do Senhor. A igualdade entre os frades e sua obediência à Igreja refletem a própria dinâmica do mistério eucarístico, no qual Cristo se entrega totalmente para reunir os fiéis em um único corpo.
Além disso, a devoção eucarística de Francisco não se limita ao espaço litúrgico, mas prolonga-se na vida concreta. A oração diante do altar conduzia-o a reconhecer Cristo também nos pobres e sofredores. O mesmo Senhor que se entrega no pão consagrado está presente na fragilidade humana daqueles que sofrem. Assim, a Eucaristia torna-se fonte de ação fraterna, serviço e caridade concreta (Lehmann, 1997, p. 112).
A espiritualidade de São Francisco de Assis revela-se como uma “mística da visibilidade” fundamentada no mistério eucarístico. O que se conclui do estudo de seus escritos é que sua fraternidade e seu amor pela criação não são conceitos isolados, mas ramificações de uma árvore cuja raiz é o altar. Para o Poverello, a Eucaristia é o ponto de convergência em que a transcendência divina e a fragilidade material se abraçam definitivamente.
Ao transpor a visão carnal para alcançar a “visão espiritual” (Admoestação I), Francisco não apenas reafirmou a ortodoxia católica frente aos desafios heréticos de seu tempo, mas também propôs uma nova forma de habitar o mundo. Se o Criador se faz presente no pão e no vinho, toda a matéria é dignificada, transformando o zelo litúrgico em uma ética de cuidado com toda a criação. A “sublimidade humilde” que ele tanto admirava tornou-se o modelo para a minoridade franciscana: uma entrega total e sem reservas, espelhada naquele que “totalmente se dá” no sacramento.
Portanto, a Eucaristia em Francisco não se encerra no rito; ela se prolonga no serviço aos sofredores e na vivência fraterna, estruturando a identidade da Ordem dos Frades Menores como um corpo místico e fraterno. O Sol da Eucaristia continua a iluminar a compreensão contemporânea sobre o Santo de Assis: ele não foi apenas um amante da natureza, mas, acima de tudo, um adorador do Deus que se faz pequeno para se tornar próximo, encontrando na simplicidade do pão a prova máxima de que o sagrado é inseparável do humano.
Referências
BOFF, Leonardo. São Francisco de Assis: ternura e vigor. Petrópolis: Vozes, 1999.
FRANCISCO DE ASSIS, São. Escritos e biografias de São Francisco de Assis. Petrópolis: Vozes, 2000.
LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro: Record, 2010.
LEHMANN, Leonhard. Francisco: mestre de oração. Santo André: Mensageiro de Santo Antônio, 1997.
MANSELLI, Raoul. São Francisco de Assis. São Paulo: Paulus, 2009.
TEIXEIRA, Frei Celso Márcio. Fontes franciscanas e clarianas. Petrópolis: Vozes, 2000.






