“Somos quem abraça ou quem se esconde?” Frei Massimo Fusarelli visita Mosteiro Santa Clara e se encanta a força silenciosa da contemplação

“Somos quem abraça ou quem se esconde?” Frei Massimo Fusarelli visita Mosteiro Santa Clara e se encanta a força silenciosa da contemplação

“Somos quem abraça ou quem se esconde?” Frei Massimo Fusarelli visita Mosteiro Santa Clara e se encanta a força silenciosa da contemplação

Frei Laércio Jorge, OFM [1]

Belo Horizonte (MG) – A manhã da oitava da Páscoa amanheceu radiante sobre o Mosteiro Santa Clara, em Belo Horizonte. Lá dentro, entre muros que guardam décadas de silêncio e oração, Frei Massimo Fusarelli, Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, acompanhado do Definidor Geral para a América Latina, Frei César Külkamp, veio encontrar as mulheres que escolheram viver “escondidas com Cristo em Deus” – mas cujo testemunho ressoa longe dos claustros.

A eucaristia foi presidida por Frei Massimo. Diante dos fiéis reunidos – entre eles, devotos que buscam nas Clarissas um refúgio espiritual –, o Ministro Geral trouxe uma mensagem que não era apenas sobre a ressurreição, mas sobre o que fazemos com ela.

“Temos uma bela e alegre notícia: Jesus ressuscitou! O túmulo está vazio”, exclamou Frei Massimo. Mas o vazio, explicou, não é um fim – é um começo que desinstala. “O vazio nos desinstala, assim como aquelas mulheres que se sentiram desinstaladas naquela manhã e correram ao encontro e tiveram a oportunidade de lhe abraçar os pés, reconhecendo o seu Senhor, vivo!”

Ele contrapôs duas atitudes: a das mulheres, que correram para abraçar e anunciar; e a dos poderosos, que pagaram para espalhar mentiras.

“Enquanto as mulheres abraçam livremente, o sumo sacerdote se esconde atrás de uma mentira. Somos quem abraça ou quem se esconde?”

A pergunta ficou suspensa no ar da pequena igreja. E o Ministro Geral respondeu com o exemplo de Clara:

“Precisamos deste abraço ao Ressuscitado diário, como Clara. Sua contemplação não era fuga. Não se pode anunciar e contemplar o que não se abraçou livremente por primeiro.”

Recordou Francisco de Assis diante do crucificado de São Damião:

“Francisco se sentido inquieto, anunciou este abraço ao Crucificado, pois sentiu a alegria de ser também abraçado pelo Ressuscitado. Esta deve ser nossa inspiração: uma alegria que nos leva a abraçar aqueles que mais necessitam. Disso somos as testemunhas e podemos realizar.”

Após a santa missa, o encontro ganhou contornos ainda mais íntimos. No claustro, seguindo o ritmo que já se tornara marca da visita – “da missa para a mesa, e da mesa para o diálogo” – Frei Massimo e Frei César sentaram-se com as irmãs Clarissas. Não houve pressa. O Ministro Geral ouviu cada uma delas, com a atenção de quem sabe que a sabedoria mora também no silêncio.

Frei Massimo iniciou manifestando “a grande alegria de conhecer a história e valorizar a chegada e a permanência de cada uma”. E, como um irmão mais velho, partilhou a vida de um Ministro Geral: o contexto da Ordem no mundo, os lugares marcados pela guerra, as dificuldades de manter o testemunho religioso em tempos hiperconectados.

Um dos momentos mais tocantes do diálogo foi quando Frei Massimo revelou uma experiência que o marcou. “Os muçulmanos prezam as Clarissas a ponto de muitos participarem nos momentos de oração do mosteiro”, contou. A proximidade é tamanha que uma imagem de Nossa Senhora, feita por um artista local muçulmano, encontra-se no interior do mosteiro – um sinal de que a contemplação cristã, quando autêntica, toca até mesmo aqueles que professam outra fé.

“Insisto para que, em sua contemplação, tragam as guerras e as vocações pelo mundo, de modo especial a vocação feminina”, pediu o Ministro Geral.

“Longe de Deus não é possível continuar. Unidade e simplicidade é uma característica franciscana. Precisamos preservar, na unidade e na simplicidade, a presença de Deus nos corações das pessoas.”

E fez uma afirmação ousada, que ecoou nas paredes do claustro: “A vocação contemplativa, que permanece um escândalo diante do mundo atual, continua a ser uma fonte que irradia e ajuda a reforçar a presença do mistério – da graça.” E completou: “Clara é uma mulher que sustenta a paz de Francisco.”

Com a franqueza de quem conhece as dores da vida religiosa por dentro, Frei Massimo apontou um desafio concreto da clausura: “O equilíbrio entre vida de oração e o trabalho exaustivo nos mosteiros, que acabam sendo exploradas por empresas ou pessoas que se servem de seus trabalhos artesanais, não reconhecendo seu valor.”

A denúncia foi suave, mas firme. As Clarissas, muitas vezes, sustentam os mosteiros com seu trabalho manual – hóstias, bordados, arte sacra – e nem sempre são justamente reconhecidas.

Frei Massimo então fez a pergunta cirúrgica, mas com delicadeza: “Como veem o futuro de vocês aqui?” A Madre, Irmã Maria Karolyne, respondeu com a fé de quem não se apoia em estatísticas, mas na providência.

“Creio na condução de Nosso Senhor, não de forma mágica. Quanto mais vivemos a nossa fraternidade, assim como Clara vivia e refletia fora dos muros, assim estamos aqui, correndo atrás do sonho de Deus para nós.”

E fez um paralelo com o evangelho do dia: “Estou como as mulheres do evangelho de hoje: correndo atrás.”

O Ministro Geral, então, fez um pedido: “Continuem como Clara a sustentar a paz nos Franciscos de hoje, rezando pelas vocações e nos ajudando a manter um ambiente cada vez mais humano para se conviver.”

Antes de partir, Frei Massimo distribuiu a cada irmã um tau franciscano – o sinal da cruz em forma de “T” que recorda a obediência e a simplicidade. O insigne fora abençoado em Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula, onde tudo começou, especialmente para esta visita à Província Santa Cruz. Um gesto que ligava estas mulheres à célula-mãe da Ordem.

Em seguida, o Ministro Geral conheceu as dependências do mosteiro. E, num gesto que resume o espírito franciscano, pediu para visitar a irmã enferma. Entrou com alegria naquela enfermaria, colocou-se de pé ao lado da cama, tocou-a com uma ternura que lhe transmitia o conforto da grande presença – não com palavras rebuscadas, mas no silêncio de quem sabe que o amor se curva diante do sofrimento.

A visita ao Mosteiro Santa Clara chegava ao fim. Mas a missão do Ministro Geral naquela manhã não se encerrava. “Logo ali, no outro quarteirão”, esperava-o o Colégio Santo Antônio. Frei Massimo e Frei César despediram-se das Clarissas com o olhar de quem sabe que a clausura não é um muro que separa, mas uma janela que se abre para o céu – e, de lá, para o mundo.

Para pensar:

1 – Frei Massimo perguntou: “Somos quem abraça ou quem se esconde?” A referência ao abraço das mulheres a Jesus ressuscitado contrasta com a mentira dos poderosos. No contexto da vida fraterna e da missão, o que significa, concretamente, “abraçar” o Ressuscitado no rosto do outro – especialmente daquele que sofre ou é marginalizado?
Como a fraternidade pode ser um lugar onde se aprende a não ter medo de abraçar, em vez de se esconder atrás de estruturas ou justificativas?

2 – O Ministro Geral afirmou que a vocação contemplativa “permanece um escândalo diante do mundo atual”, mas que continua a irradiar o mistério, a graça. Em um mundo hiperconectado, que valoriza a produtividade e a visibilidade, o que o testemunho silencioso das Clarissas pode ensinar aos frades menores – que vivem uma vocação mista de contemplação e ação?
Como resgatar, na formação e na vida cotidiana, a centralidade da contemplação sem fugir do mundo?

3 – Frei Massimo denunciou que os mosteiros correm o risco de ser explorados por empresas ou pessoas que se servem do trabalho artesanal das Clarissas sem reconhecer seu justo valor. Acolher o outro inclui também defender sua dignidade laboral. Como as fraternidades franciscanas podem, ao mesmo tempo, acolher as irmãs contemplativas (gesto de saída ao outro) e acolher a própria fragilidade econômica, sem cair na armadilha de aceitar condições injustas por necessidade?
Que práticas de economia fraterna e solidária poderiam ser construídas entre as partes?


[1] Frei Laércio Jorge, OFM. Graduado em Filosofia e Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Mestre em Ciências Sociais pela PUC-MG.

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