Formação em tempos de mudança: desafios, caminhos e esperança na vida franciscana

Formação em tempos de mudança: desafios, caminhos e esperança na vida franciscana

O grande desafio de testemunhar ao mundo a possibilidade concreta de viver juntos, mesmo nas diferenças, fazendo da fraternidade um sinal visível e profético.

Frei Danilo Nunes Soares, OFM
Frei Wálacy Ricardo Ferreira da Silva, OFM

O encontro teve início em clima de recolhimento e fraternidade, marcado pela oração conduzida por Frei Igor Souza. Este momento inicial favoreceu a disposição interior dos participantes, abrindo espaço para uma escuta atenta e um diálogo fecundo. Em seguida, realizou-se a apresentação dos frades, que partilharam suas entidades de origem, o tempo de formação, etapa de estudos, compondo um mosaico rico da diversidade presente na Ordem.

A condução do diálogo esteve a cargo de Frei César Külkamp, Definidor Geral, juntamente com o Ministro Geral Frei Mássimo Fusarelli, que propôs uma conversa aberta sobre os desafios contemporâneos da formação, especialmente à luz das diferentes realidades das entidades e da vivência da profissão temporária. Em sua abordagem, ressaltou a necessidade de olhar para além das estruturas físicas das casas formativas, convidando a uma reflexão mais ampla sobre o próprio modelo formativo, suas bases e suas finalidades.

Ao longo de sua reflexão, destacou que muitas das questões emergentes já se fazem presentes no diálogo com as equipes formativas, o que evidencia a urgência de maior integração e continuidade nos processos. Sublinhou, ainda, que vivemos uma verdadeira mudança de época, marcada pelo surgimento de uma nova geração de formandos, cuja sensibilidade interpela a formação a tornar-se mais autêntica, significativa e enraizada na realidade concreta. Nesse contexto, alertou para o risco de que a insegurança institucional possa gerar posturas autoritárias, reforçando a importância de compreender a formação como um projeto comum das Custódias e Províncias, em comunhão com toda a Ordem.

Outro ponto de destaque foi a atenção às novas sensibilidades do tempo presente. Frei César chamou a atenção para o impacto do ambiente digital, para os desafios das diferenças culturais e para os riscos do individualismo, frequentemente intensificados pelas redes sociais. Nesse horizonte, ressaltou dimensões essenciais da vida formativa, como a maturidade afetiva, a vivência autêntica dos votos, a construção de ambientes saudáveis e a integração entre vida pessoal e vocação.

De modo enfático, recordou que não é possível dissociar vida e vocação: ambas constituem uma unidade profunda e inseparável.

Uma vocação autêntica exige uma relação pessoal e consistente com Deus, que se expressa necessariamente na missão. O fechamento em si mesmo compromete essa dinâmica, enquanto a abertura ao outro, à fraternidade e ao mundo fortalece a saúde vocacional.

Nesse sentido, apontou também o desencanto vocacional como fruto, muitas vezes, de falhas na comunicação e na partilha de vida.

Como horizonte, destacou o grande desafio de testemunhar ao mundo a possibilidade concreta de viver juntos, mesmo nas diferenças, fazendo da fraternidade um sinal visível e profético.

Na sequência, Frei Massimo aprofundou a reflexão ao abordar a problemática do individualismo. Reconhecendo a individualidade como um valor legítimo, alertou, contudo, para o risco de sua absolutização, que pode dificultar a inserção no “nós” da vida fraterna. Tal processo, segundo ele, exige um caminho de purificação e amadurecimento, capaz de integrar o eu na dinâmica comunitária.

Frei Massimo também sublinhou a necessidade de repensar as etapas formativas em chave mais unificada, enquanto Ordem, buscando maior clareza no itinerário formativo e fortalecendo a corresponsabilidade entre as entidades. Nesse sentido, destacou que a própria visita se insere nesse esforço de alinhamento e de avanço nos processos formativos.

Ao tratar da profissão temporária, recordou que a Ratio Formationis a compreende como um tempo essencialmente dinâmico e ativo, orientado ao amadurecimento vocacional. Trata-se de um período privilegiado para aprofundar as raízes da vocação, assumindo progressivamente responsabilidades no estudo, na vida fraterna e na missão.

Enfatizou, ainda, que

cada formando é protagonista de sua própria formação, sendo chamado a participar de modo consciente e ativo desse processo. À equipe formativa cabe o papel de acompanhar, orientar e discernir, mas nunca substituir o sujeito. Uma postura passiva por parte do formando contradiz, portanto, a própria natureza do caminho formativo.

Por fim, destacou que o crescimento do professo temporário se dá por meio de mediações concretas — como o estudo sério, o engajamento na missão e a vivência cotidiana da fraternidade. Esta, por sua vez, deve constituir-se como um ambiente real, integrado e humanizador, capaz de sustentar o caminho vocacional e de testemunhar, de forma autêntica, a beleza da vida consagrada.

O encontro, assim, revelou-se não apenas como espaço de reflexão, mas como oportunidade concreta de comunhão, escuta e renovação do compromisso formativo, em sintonia com os desafios do tempo presente e com a fidelidade ao carisma franciscano.

Para pensar:

1 – Frei Massimo alertou que o individualismo, quando absolutizado, pode dificultar a inserção no “nós” da vida fraterna. Ele reconhece a individualidade como um valor legítimo, mas pede um caminho de purificação para integrar o eu na dinâmica comunitária. Como a experiência de “curvar-se diante do irmão” – gesto que exige deixar de lado a própria centralidade – pode ajudar os formandos a superar o individualismo sem anular a singularidade de cada um?
O que significa, na prática, construir uma fraternidade onde o “eu” e o “nós” se fortalecem mutuamente?

2 – A memória registrada do encontro afirma: “não é possível dissociar vida e vocação: ambas constituem uma unidade profunda e inseparável”. Uma vocação autêntica exige relação pessoal com Deus que se expressa na missão, e o fechamento em si mesmo compromete essa dinâmica. Como a espiritualidade franciscana – com ênfase na minoridade, na pobreza e na alegria – pode ajudar os frades em formação a integrar suas fragilidades, afetos e histórias pessoais no caminho vocacional, sem cair no ativismo ou no intimismo?
O que significa “ser franciscano” senão testemunhar ao mundo “a possibilidade concreta de viver juntos, mesmo nas diferenças”?

3 – Frei Massimo enfatizou que “cada formando é protagonista de sua própria formação”, sendo chamado a participar de modo consciente e ativo, enquanto à equipe formativa cabe acompanhar, orientar e discernir – mas nunca substituir o sujeito. Isso exige, de um lado, que o formando acolha a si mesmo (suas limitações, seus dons, seu ritmo) e, de outro, que a fraternidade acolha o formando sem tutela excessiva. Como equilibrar, na prática, o respeito à autonomia do formando com o necessário apoio e correção fraterna, especialmente em tempos de insegurança institucional que podem gerar posturas autoritárias?
O que significa “acolher o não” e, ao mesmo tempo, sustentar a exigência do amadurecimento vocacional?

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