Ascensão do Senhor: Deus fez-se humano. Para que o homem participe de Sua Divindade

Ascensão do Senhor: Deus fez-se humano. Para que o homem participe de Sua Divindade

Conclusão do ciclo terreno de Jesus e o envio dos discípulos ao mundo para o anúncio do Evangelho.

Frei Sidinei Braz Jerônimo, ofm[*]

Depois de celebrar os quarenta dias da Ressurreição de Jesus, a Igreja hoje medita a sua Ascensão aos céus. Esta Solenidade é celebrada sempre numa quinta-feira, no quadragésimo dia da ressurreição, contudo, no Brasil, ela é transferida para o domingo seguinte a fim de que todos os fiéis possam participar dela com maior dignidade e piedade. No Vatican News lemos: “São João Crisóstomo e Santo Agostinho já se referiam a esta Solenidade. Mas, uma influência incisiva na sua difusão deve-se, provavelmente, a São Gregório Nazianzeno”. Trata-se, assim, da conclusão do ciclo terreno de Jesus e o envio dos discípulos ao mundo para o anúncio do Evangelho.

É imprescindível voltarmos os olhos para toda a ação de Jesus na história para que possamos compreender a profundidade desta Solenidade a qual estamos celebrando. Dessa maneira, precisamos fazer um breve retorno ao seu ministério entre os povos, desde o seu nascimento à sua subida gloriosa aos céus. O caminho começa com a genealogia que insere Jesus na estirpe de Davi e Abraão, seguida por sua concepção pelo Espírito Santo e nascimento de Maria (cf. Mt 1 – 2). Após um hiato do tempo de sua infância, encontramos novamente com Jesus que anuncia o Reino e sua justiça. O tema da justiça do Reino percorre todo o Evangelho de Mateus, mas, mais precisamente, entre os capítulos 3 a 7, vemos condensados os ensinamentos do Mestre sobre tal tema, que começam no episódio de seu batismo no qual “em Jesus, começa a verdadeira criação, onde o ser humano e todas as criaturas voltam-se para o Criador, superando eventuais infidelidades, geradoras de violência e de morte” (Vitório, 2019, p. 59-60). Podemos ver na sua resiliência diante das tentações (cf. Mt 4,1-11), um período de quarenta dias que remete aos quarenta dias do povo no deserto. Vale lembrar que a catequese de Mateus nos apresenta Jesus como o “novo Moisés”, daí a importância dos cinco grandes discursos que são proferidos ao longo do Evangelho, remontando aos cinco livros da Torá/ Pentateuco, cujas temáticas, segundo Jaldemir Vitório, seriam:

1) Buscar o Reino de Deus e sua justiça, presente no Sermão da Montanha (cf. Mt 5 – 7); 2) O chamado para a missão, no qual Jesus chama seus discípulos e os instrui quanto ao modo de agir e se portar diante dos conflitos e ocasionais perigos (cf. Mt 10); 3) O Reino em parábolas, no qual o evangelista inclui as parábolas de Jesus e sua aplicação para a comunidade (cf. Mt 13); 4) Comunidade prometida com o Reino e sua justiça, também conhecido como o “discurso eclesiológico”, no qual podemos ver as instruções de Jesus para a comunidade nascente mediante aos seus conflitos internos e externos (cf. Mt 18); 5) por fim, o último grande discurso: a consumação do Reino, conhecido como “o discurso escatológico”, no qual o Mestre fala sobre a consumação do tempo e da história (cf. Mt 24 – 25). No capítulo 28 vemos o fechamento desse percurso com o envio missionário dos discípulos: “Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,19-20).

É importante que voltemos, de modo “panorâmico”, para esses elementos importantes da vida terrena de Jesus para que compreendamos toda a grande trama que envolve a Solenidade da Ascensão. Estamos voltando o olhar para o Evangelho segundo São Mateus pelo fato de o texto a ser meditado no Evangelho ser exatamente o desse evangelista (cf. Mt 28,16-20), mas, se recorrermos aos outros dois sinóticos, também veremos uma estrutura similar no fio condutor da vida terrena de Jesus Cristo. O que nos leva a concluir que, em Jesus, nós vemos o divino que toca o humano. Deus mesmo quis encarnar-se e viver as vicissitudes do humano, para que na Ascensão ele pudesse elevar a humanidade à participação em sua divindade. Na primeira opção de oração da Coleta lemos: “Deus todo-poderoso, fazei-nos exultar de santa alegria e fervorosa ação de graças, pois na Ascensão de Cristo vosso Filho nossa humanidade foi elevada junto a vós e, tendo ele nos precedido como nossa cabeça, nos chama para a glória como membros do seu corpo”. Já no Prefácio da Ascensão II lemos: “Depois da sua ressurreição, ele apareceu a todos os seus discípulos e, à vista deles, foi elevado ao céu, para nos tornar participantes da sua divindade”.

Concluímos recordando o que o próprio Jesus disse à comunidade reunida: “estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”. Portanto, celebrar a Ascensão do Senhor não é celebrar o abandono do Mestre, mas celebrar sua íntima participação em nossa vida a cada dia, até que ele venha no fim dos tempos.  No ofício de leitura, Santo Agostinho dirá que ninguém subiu ao céu a não ser aquele que de lá desceu e “por sua divindade, por seu poder e por seu amor ele está conosco; nós, embora não possamos realizar isso pela divindade, como ele, ao menos podemos realizar pelo amor que temos para com ele”(Sermo de Ascensione Domini, Mai 98,1-2: PLS2, 494-495, séc. V). É através do amor que nos une ao Cristo que poderemos ser testemunhas e, mais que isso, reflexo de seu Reino e sua Justiça no mundo. Que a bênção do ressuscitado nos encaminhe para o bem. “E vós, crendo que o Cristo está sentado com o Pai em sua glória, possais experimentar, conforme sua promessa, a alegria de permanecer com ele até o fim dos tempos. Amém!”

REFERÊNCIAS

https://www.vaticannews.va/pt/feriados-liturgicos/ascensao-do-senhor.html

VITÓRIO, Jaldemir. Lendo o Evangelho segundo Mateus: o caminho do discipulado do Reino. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2019. (Coleção Lendo a Bíblia)


[*] Professo Temporário na Província Santa Cruz

Bacharel em filosofia pela Faculdade Dom Luciano Mendes

Graduando em Teologia pela FAJE

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