“O Senhor te abençoe e te guarde; te mostre a sua face e tenha misericórdia de ti. Volva para ti o seu olhar e te dê a paz. [E dizemos nós: Papa] Leão, o Senhor te abençoe.”
Frei Oton Júnior, OFM
Todos ainda estavam consternados pelo falecimento do Papa Francisco, cuja última aparição ocorreu no Domingo de Páscoa de 2025. Dezessete dias depois, a fumaça branca indicou a eleição de um novo Pontífice.
Ao surgir o cardeal protodiácono, Dominique Mamberti, ouviu-se um nome pouco conhecido do grande público: tratava-se do então cardeal estadunidense Robert Francis Prevost, de 69 anos. Até aquele momento, ele era Prefeito do Dicastério para os Bispos e, anteriormente, fora Superior Geral da Ordem de Santo Agostinho (OSA). A eleição do 267º Bispo de Roma ocorreu na quarta votação e estabeleceu um recorde de consenso em conclaves: 115 votos (26 a mais do que o quórum necessário) e apenas 18 votos contrários.
As comparações foram inevitáveis. Prevost não era Bergoglio: seu modo de se vestir e seus gestos mais contidos indicaram prontamente um novo momento eclesial, o que foi recebido como um alívio por determinados setores da Igreja e com pesar por outros. Uma das tarefas centrais de Leão XIV era justamente minimizar as oposições internas. “Gostaria que fosse este o nosso primeiro grande desejo: uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado”, afirmou ao receber o Anel do Pescador em 18 de maio de 2025.
Sua primeira saudação, “A paz esteja convosco”, inspirou-se na espiritualidade pascal, mas, no contexto mundial, serviu como resposta aos graves conflitos atuais. A ironia do destino colocou no Trono de Pedro alguém que precisaria profetizar contra o governo de seu próprio país, frequentemente marcado por arroubos coloniais.
Em um de seus primeiros pronunciamentos, Leão XIV explicou a escolha de seu nome: “Pensei em adotar o nome de Leão XIV por várias razões, mas a principal é que o Papa Leão XIII, com a histórica encíclica Rerum Novarum, abordou a questão social na Primeira Revolução Industrial. Hoje, a Igreja oferece sua doutrina social para responder à nova revolução tecnológica e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem desafios à dignidade humana, à justiça e ao trabalho” (10/05/2025).
Neste primeiro ano de pontificado, Leão XIV demonstrou continuidade ao caminho sinodal de Francisco; mantém a postura firme contra abusos na Igreja e posiciona-se ao lado dos pobres e das vítimas de sistemas exploradores. No dia 4 de outubro, dia de São Francisco, lançou a exortação Dilexi Te, que marca a transição entre os dois pontificados. O documento fora concebido nos meses finais de Francisco e concluído por seu sucessor, mantendo o olhar fixo na justiça social e no amor preferencial pelos pobres (n. 1-3).
Ao longo de seus cinco capítulos, a Exortação tece uma dura crítica às estruturas de exclusão. Leão XIV, trazendo sua bagagem como teólogo agostiniano e missionário, denuncia, como Francisco, a cultura do descarte (n. 18) e a falácia de uma meritocracia que penaliza aqueles que já nascem sem direitos básicos (n. 22). Para o pontífice, a opção pelos pobres não é uma bandeira ideológica ou política, mas uma escolha estritamente teológica (n. 35): é a continuação do caminho de Jesus, o “Messias dos pobres”, que santificou o trabalho manual e a proximidade com os excluídos (n. 42).
Mais do que um manual de assistência social, a Dilexi Te é um convite à conversão do coração (n. 84). Ela desafia a instituição a ser, verdadeiramente, uma “Igreja pobre para os pobres” (n. 91), na qual a credibilidade da fé é medida pela capacidade de ouvir e responder ao clamor daqueles que o mundo insiste em esquecer (n. 105).
O cenário geopolítico recente é marcado por um confronto direto entre o Pontífice e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. (A análise completa pode ser pesquisada aqui: https://www.youtube.com/watch?v=JvVkQky8KQ8).
O embate ganha relevância diante do impasse na guerra envolvendo os EUA, Israel e o Irã. Após Trump ameaçar destruir a civilização iraniana, o Pontífice classificou a declaração como inaceitável, alertando para o risco de morte de civis inocentes. Em abril, estendeu seu apelo ao Líbano, pedindo um cessar-fogo urgente.
Donald Trump reagiu duramente, rotulando o Papa como “fraco no combate ao crime” e “péssimo em política externa”. O presidente insinuou que a ascensão de Prevost ao papado deveu-se à sua própria influência política e acusou o Vaticano de tolerar o desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã (alegação infundada, por sinal).
Embora divergências entre papas e presidentes americanos tenham ocorrido no passado, este caso apresenta diferenciais críticos. Especialistas apontam que este é o primeiro grande posicionamento político de Leão XIV, tradicionalmente reservado.
Em suas viagens apostólicas, neste primeiro ano de pontificado, o papa Leão já visitou os seguintes países: Turquia (2025), Líbano (2025), Mônaco (março de 2026), Argélia (abril de 2026. Sendo que esta foi a primeira vez que um Pontífice visitou o país), Camarões (abril de 2026), Angola (abril de 2026), Guiné Equatorial (abril de 2026) e Espanha (maio de 2026).
Prevost tem uma personalidade discreta e disposta à reconciliação, mas que se encontra agora um cenário conflituoso e provocador. Como Igreja universal, cabe-nos lembrar de Francisco e Leão: neste caso, nas figuras do Poverello de Assis, cujo oitavo centenário de morte celebramos, e seu fiel escudeiro e confessor, Frei Leão. A este último, Francisco escreveu uma bênção inspirada no livro dos Números, que agora repetimos para o novo Arauto da Paz: “O Senhor te abençoe e te guarde; te mostre a sua face e tenha misericórdia de ti. Volva para ti o seu olhar e te dê a paz. [E dizemos nós: Papa] Leão, o Senhor te abençoe.”






