O Transitus de Francisco de Assis como experiência de um último encontro de amizade

O <em>Transitus</em> de Francisco de Assis como experiência de um último encontro de amizade

A morte, na espiritualidade franciscana, é celebrada como uma passagem luminosa e um encontro definitivo e fraterno com Deus.

Frei Hilton Farias de Souza, OFM

Esta nossa reflexão tem como ponto de partida um trecho da Compilação Assisiense (CA, 8)[1], no qual Francisco, no seu leito de morte, deseja reencontrar pela última vez a sua amiga de longa data, uma nobre viúva romana chamada Jacoba de Settesoli [2]; nesse seu desejo final, Francisco pede que sua amiga traga algumas coisas importantes para esse momento derradeiro da sua vida.

Esta reflexão leva em consideração, sobretudo, o encontro de Francisco com a sua nobre amiga e os objetos que ela trouxe consigo para a despedida dele. Apresentamos aqui, de forma esquemática, o conteúdo do número 8 da Compilação Assisiense:

Francisco chamou seus companheiros e comunicou-os que gostaria de encontrar com a senhora Jacoba de Settesogli, aquela nobre romana, muito amiga da sua Ordem; e pediu para expressar através de uma carta o seu estado de saúde e o seu último desejo: que trouxesse um tecido de cor cinza para fazer uma túnica e um doce feito à base de amêndoas e açúcar ou mel e de outras coisas.

Enquanto um dos confrades procurava um portador que levasse a carta, alguém bate à porta; era a senhora Jacoba, que chegava às pressas de Roma, juntamente com a sua comitiva, para visitar Francisco. Um dos confrades vai correndo dar a boa notícia a Francisco. A clausura é aberta para Jacoba, que pôde encontrar o seu amigo de longa data.

Ela trouxe consigo o tecido mortuário cinza para a túnica, o doce, a cera para as velas e incenso; porque lhe fora comunicado em espirito que levasse todos esses objetos e se apressasse para poder encontrar o seu pai vivo.

Francisco, apesar da grande enfermidade de seu corpo, saboreia um pouco da iguaria preparada por Jacoba. Ela manda preparar as velas para o seu funeral e os confrades preparam uma túnica para revestir o corpo de Francisco. Francisco ordena aos irmãos que deviam costurar um saco sobre a túnica, como sinal e exemplo da santíssima humildade e pobreza. E, na mesma semana da visita da senhora Jacoba, Francisco migrou para o Senhor.

Uma amizade que rompe os limites da clausura

Este trecho da Compilação Assisiense, por mais que esteja imbuído de elementos de cunho hagiográficos, pode nos ajudar a compreender o valor profundo de uma amizade verdadeira que Francisco soube cultivar ao longo de sua vida e que perdurou até o momento de sua morte.

 Tudo indica que a amizade de Francisco com Jacoba já vinha de longa data, quando ele durante a sua estadia em Roma, costumava hospedar-se com essa nobre senhora; numa dessas visitas a sua casa, pôde saborear a iguaria de nome mostacciolo e que Francisco, no seu leito de morte, desejou comer como se fosse uma espécie de viático, antes de partir para o encontro definitivo com o Pai.

Essa amizade estava tão consolidada que, quando Jacoba chega ao lugar onde Francisco se encontrava doente e moribundo, os frades se preocupam com a clausura: como essa senhora poderia entrar ali, um eremitério no qual havia uma proibição quanto à entrada de mulheres? Segundo o texto da CA, Francisco disse o seguinte para o frade que lhe anunciara a chegada da sua amiga: Esta prescrição não deve ser observada com relação a esta senhora, a quem tão grande fé e devoção fez vir aqui de regiões longínquas” (FF, p. 845). Francisco rompe uma norma da clausura, para rever pela última vez a sua amiga que se colocou ali, junto do seu leito de morte, trazendo consigo, em um gesto de sensibilidade feminina, quiçá, uma última palavra de consolo e solidariedade. E, nos seus presentes, o último desejo de Francisco: comer aqueles doces refinados, à base de nozes e mel, como em um banquete de despedida. E também ser revestido, no seu pobre corpo, fragilizado pelas doenças e marcado pelo crucificado, por uma veste simples, de cor penitencial, e, assim, acolher a irmã morte, como ele poeticamente escreveu e cantou: “Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar” (FF, p. 105).  

A morte como uma celebração da luminosidade de Cristo ressuscitado

O texto da CA fala que, quando Jacoba estava rezando, lhe foi comunicada, em espírito, a proximidade da morte de Francisco; e aí, nesse contexto, ela foi orientada para levar consigo, além do tecido e dos ingredientes para os doces, a cera e o incenso para os preparativos finais da morte.

Jacoba, levando a cera para fazer as velas e o incenso, cumpre esse último gesto de respeito e carinho para com aquele amigo e pai espiritual, que havia encontrado tantas vezes durante a vida. Podemos perceber nesses símbolos a intuição acerca da santidade de Francisco, que, morrente, já despertava nas pessoas a sua volta um halo de santidade. Desde muito cedo, a morte de Francisco foi celebrada na tradição franciscana como transitus/passagem deste mundo terreno para o encontro com Cristo, o Sol que jamais tem ocaso, com o qual Francisco se identificou tão profundamente ao longo da sua vida, a ponto de trazer, ao final da sua caminhada, as marcas no próprio corpo.

A morte é vista por Francisco como irmã, portanto não como realidade distante, fria e envolta em trevas, mas, ao contrário, como luminosidade, porque totalmente integrada à ressurreição de Cristo. Nesse sentido, a sua nobre amiga romana traz consigo esses elementos, que fazem parte da liturgia cristã das exéquias, ou seja, as velas e o incenso, e que expressam esse momento da morte como celebração da esperança, da luz e da comunhão profunda com Deus.

A importância da morte como encontro

É muito importante entendermos a morte como passagem, travessia e encontro definitivo junto a Deus, no qual nós poderemos ver Deus face a face, sem véus. Não podemos temer a morte, pois cada um de nós também terá um dia a experiência de poder vislumbrar a face de Deus.

Francisco de Assis viveu tão intensamente Deus em sua vida que, apesar do sofrimento corporal que lhe afligia, soube abraçar a morte como irmã, como parte do seu itinerário conclusivo de vida, marcado pelo seu despojamento total, a ponto de ficar nu sobre a terra. Pôde cantá-la e acolhê-la no seu encontro definitivo com o Pai.

A presença de Jacoba junto ao leito de morte de Francisco aponta para nós a capacidade que ele teve de estabelecer relações profundas de amizade, que o levou a encontrá-la pela última vez antes de seu transitus.

Encontramos na obra Atos do Bem-aventurado Francisco e de seus Companheiros, no final do Capítulo XVIII, o seguinte: “E a senhora Jacoba permaneceu até que São Francisco migrou [ao Senhor] e prestou ao corpo dele admirável honra. E depois de algum tempo, ela foi para Assis por devoção ao santo e, terminando aí seus dias em santa penitência e virtuosa vida, pediu para ser sepultada na Igreja de São Francisco” (FF, p.1160). De fato, a nobre Jacoba de Settesogli foi sepultada na Basílica Inferior de São Francisco, onde podemos encontrar um pequeno afresco que a retrata. Em 1932, seus restos mortais foram transladados para a parede central, entre as duas escadas que dão acesso à cripta, na qual repousam os restos mortais de Francisco e de quatro companheiros da primeira hora. Nada mais justo que, após uma forte amizade cultivada entre os dois, a nobre Jacoba encontrasse um lugar especial na cripta da grande Basílica dedicada à Memória do Santo de Assis.

Neste ano de 2026, toda a Ordem dos Frades Menores se une para celebrar os 800 anos da morte de São Francisco. Esse acontecimento deve nos ajudar a entender cada vez mais a morte como a celebração de uma passagem (transitus), onde há lugar para a música, o convívio, rever uma amizade forte, e retornar pacificamente para os braços do “Altíssimo, onipotente, bom Senhor”, como bem expressou Francisco de Assis no seu Cântico do Irmão Sol. 

Fazer memória do transitus de Francisco a cada ano, sobretudo neste ano jubilar, é celebrar a sua páscoa definitiva para junto do Pai, de onde ele olha com carinho para cada um de nós, que aqui na terra nos esforçamos para seguir e vivenciar a sua espiritualidade.

Por isso, essa tradição, tão enraizada em nosso meio franciscano, de celebrar o transitus de Francisco perdura ao longo da história, porque vê a morte não como o final de uma etapa, mas o despontar de uma nova realidade plena, junto ao seio da Trindade.


[1] Optei pelo texto da Compilação Assisiense, mas, nas Fontes Franciscanas encontram-se diversos registros da figura de Jacoba de Settesoli. Cito apenas alguns: Tratado dos Milagres, Cap. VI, n. 37 a 39; Espelho da Perfeição Maior, Cap. 112; Atos do Bem-aventurado Francisco e de seus Companheiros, Cap. XVIII.

[2] Não se sabe muita coisa a respeito dessa nobre senhora romana; as fontes a identificam como Jacoba de Settesoli. Nasceu em torno do ano 1190 e pertencia a família dos Normandos, do ramo germânico, feudatários de origem militar. Não se sabe em qual ano casou-se com Graciano Frangipani e teve dois filhos: João e Graciano. No tempo de Graciano e Jacoba, os Frangipani eram uma das famílias mais importantes de Roma, dividida em vários ramos. A morte de Jacoba é situada no ano de 1239. Provavelmente Francisco deve ter se encontrado com ela em Roma em várias ocasiões, como nos anos de 1209 e 1210 por ocasião da aprovação da Forma de Vida por Inocêncio III e por ocasião do IV Concílio de Latrão, no ano de 1215. Em 1932, os seus restos mortais, que se encontravam sepultados na Basílica Inferior, foram transladados para a cripta, onde se encontra o corpo de Francisco e dos quatro companheiros: Rufino, Masseo, Ângelo e Leão.

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