Os estigmas de São Francisco de Assis 

Os estigmas de São Francisco de Assis 

No dia 17 de setembro, a Ordem Franciscana celebra a festa da estigmatização de São Francisco de Assis.

No dia 17 de setembro, a Ordem Franciscana celebra a festa da estigmatização de São Francisco de Assis. Segundo os relatos dos primeiros hagiógrafos, Francisco recebeu, no Monte Alverne, as marcas da crucificação de Cristo nas mãos, nos pés e no lado direito. 

Os estigmas de São Francisco continuam despertando questionamentos. Considerados desde o início como um acontecimento extraordinário, são atualmente interpretados de diferentes maneiras, inclusive pela psicologia, biologia, psicanálise e outras áreas do conhecimento. 

Para compreender esse fenômeno, é fundamental considerar a experiência mística. A mística envolve a pessoa em sua totalidade, corpo e alma, e consiste em uma profunda relação com o divino. Não se reduz simplesmente ao funcionamento dos neurônios ou a fenômenos psicológicos. Como afirma Jeremias: “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Santo Agostinho expressa essa abertura do ser humano ao transcendente: homo capax Dei est

Francisco não deixou em seus escritos uma descrição de sua experiência no Monte Alverne. Ele costumava guardar os “segredos do Senhor”. Por isso, o acontecimento chegou até nós principalmente por meio dos relatos dos hagiógrafos. Esses relatos devem ser lidos considerando o contexto medieval e os gêneros literários utilizados na época. 

A descrição da visão do Serafim pertence ao gênero da teofania, semelhante às manifestações divinas presentes na Bíblia. A linguagem simbólica e mítica não deve ser confundida automaticamente com mentira ou falsidade. É necessário distinguir a forma literária do núcleo da mensagem. Esse processo é chamado de demitização. 

No relato de Tomás de Celano, Francisco contempla um Serafim com seis asas, pregado à cruz. A visão une a glória do Serafim ao sofrimento de Cristo crucificado. Francisco permanece entre a alegria e a tristeza e, depois da visão, começam a aparecer em suas mãos e pés os sinais dos cravos. 

Os estigmas, porém, são descritos de maneira diferente da visão. Tomás de Celano apresenta detalhes concretos das marcas nas mãos, nos pés e no lado de Francisco. E afirma: “O que acabamos de afirmar, nós o vimos. E tocamos com nossas mãos aquilo que com nossas mãos aqui descrevemos”. 

Ao longo da história, surgiram diferentes interpretações para explicar os estigmas. Alguns os consideraram uma invenção dos frades; outros, uma manifestação de lepra; outros ainda, uma linguagem figurada para representar os sofrimentos de Francisco. Também se argumentou que o silêncio do Papa Gregório IX sobre os estigmas na Bula de Canonização seria uma indicação de que eles não existiram. 

Essas interpretações, entretanto, não permitem conclusões definitivas. Os estigmas foram vistos por diversas pessoas, inclusive por membros da Ordem, Santa Clara e suas irmãs, Jacoba de Settesogli e muitos fiéis. Tomás de Celano também se apresenta como testemunha ocular. 

A hipótese da lepra, embora possa ser investigada cientificamente, não pode ser afirmada como certeza sem provas suficientes. Da mesma forma, o silêncio de Gregório IX não permite concluir que o papa tenha negado os estigmas. O silêncio pode ter outras razões, como a cautela diante de um fenômeno extraordinário ou uma concepção de santidade mais centrada na vida e nas virtudes de Francisco do que nos milagres. 

A leitura dos relatos precisa, portanto, evitar dois extremos: tomar todos os detalhes literários como uma descrição absolutamente literal ou considerar toda a narrativa uma invenção. É necessário reconhecer os elementos simbólicos sem eliminar a experiência que está no centro do acontecimento. 

Os estigmas permanecem ligados à profunda experiência mística de Francisco e ao seu desejo de conformar-se a Cristo crucificado. A corporeidade faz parte dessa experiência, assim como sua dimensão espiritual. 

Ainda hoje, o fenômeno permanece difícil de explicar de maneira definitiva. A história, a teologia e as ciências humanas podem oferecer diferentes contribuições, mas a experiência mística continua sendo uma dimensão essencial para compreender o significado dos estigmas de São Francisco. 

Os estigmas de São Francisco permanecem, assim, como um acontecimento singular, situado no encontro entre a experiência mística, a corporeidade e a fé. As diferentes tentativas de explicá-los, pela linguagem simbólica dos relatos ou por hipóteses psicológicas, biológicas e históricas, contribuem para a reflexão, mas nenhuma delas parece suficiente para encerrar a questão. 

Mais do que buscar uma resposta absoluta, talvez seja necessário reconhecer os limites de cada perspectiva diante de uma experiência que marcou profundamente a vida de Francisco. A linguagem dos hagiógrafos possui elementos simbólicos próprios de seu tempo, mas isso não significa que a experiência narrada possa ser simplesmente reduzida a uma construção literária. 

Nesse sentido, os estigmas continuam desafiando tanto a reflexão teológica quanto o conhecimento científico. Permanecem profundamente relacionados ao desejo de Francisco de conformar-se a Cristo crucificado e à maneira como sua experiência espiritual envolveu também sua corporeidade. 

Talvez seja justamente nessa tensão entre o que pode ser explicado e aquilo que permanece como mistério que se encontre uma das maiores riquezas do tema. Como afirma H. Nolthenius, os estigmas podem ser vistos “como um ‘imprint’ do sobrenatural, uma fraternidade de sangue com o Filho de Deus, um milagre de tirar o fôlego”. 

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