Até que límpida voz da Virgem da Nazaré sobressaia no meio de uma multidão cantando: “Derrubou os poderosos de seu trono e os humildes exaltou”.
Frei Jonas Nogueira da Costa, OFM
A imagem de Nossa Senhora da Aparecida surge no auge da campanha eleitoral de 2026. É dito que ela será destituída de sua posição de padroeira do Brasil. Nesse mesmo campo de discussão também é dito que, por decreto, o Brasil será consagrado ao “Senhor Jesus”. Uma onda de hostilidade baseada numa falsa defesa da fé surge. Nos dizem que é uma batalha espiritual: uma luta dos filhos das trevas contra os filhos da luz.
A instrumentalização da religião não é uma novidade em toda a história das religiões. Da parte do cristianismo, pensemos na figura de Constantino. E deve ficar muito claro: toda instrumentalização é um ato consciente de manipulação. Não é uma imprecisão teológica, mas uma ação deliberada que usa da religião para interesses avessos ao núcleo carismático de cada religião. Nunca algo que nasce dos corações dos pobres em sua fé, mas daquela minoria que são os grandes donos dos meios de comunicação, dos políticos, dos que movem fortunas. O rio que perverte a fé tem nos poderosos sua nascente.
Mas também há os que nadam nas correntezas dessa instrumentalização. Ainda exemplificando a partir da nossa realidade cristã temos os que se deixam levar pela onda de ódio nomeada de “zelo religioso” e como paladinos da fé espalham fake news. Destroem espaços sagrados de outros núcleos religiosos diferentes do seu, desprezam a teologia acadêmica, os bispos, o Concílio Vaticano II e tudo o que para eles é contrário ao que chamam de tradição.
Se o pior tipo de cego é o que não quer ver, o pior tipo de cristão é o que não aceita o Evangelho. O Evangelho não é um spa para aliviar o stress do dia-a-dia ou um self-service em que coloco no meu prato só o que me agrada e pago pelo que consumo. O mesmo vale para a devoção mariana. Ela é uma herança de amor que recebemos do alto da cruz. E essa herança de amor é recebida no Brasil de muitas formas, mas de um modo muito particular com o título de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
Aquela que o Senhor crucificado e glorificado nos entregou e que amorosamente dizemos que nos “apareceu” no rio Paraíba do Sul, em 1717, tem uma mensagem muito clara de libertação que não pode ser “embranquecida” em qualquer forma de instrumentalização. Dizemos “embranquecida” porque dissociar a Virgem de Aparecida de sua história libertadora seria o mesmo que passar uma tinta branca, machista, elitista, na vã tentativa de esconder sua força libertadora. A Mãe de Deus não se deixa corromper de forma alguma, pois ela é a Imaculada Conceição que não se mancha com o pecado em nenhuma circunstância.
A Virgem de Aparecida nos foi dada pelas mãos de três trabalhadores, três pescadores que tinham que satisfazer o luxo da mesa de um futuro conde. A Mãe e Senhora escolhe estar com esses trabalhadores na hora em que todas as luzes da dignidade humana se apagam. Ela escolhe a suada camisa desses trabalhadores como seu primeiro manto. Tão sagrado quanto todo o afeto que cobre sua imagem em Aparecida desde que foi dada ao nosso povo.
Ela é pequena, e a recebemos com a cabeça separada do seu corpo. Uma situação que sempre pediu cuidado, dada a fragilidade da imagem. Mas que ninguém se iluda por isso. O soberbo que quis entrar em seu santuário montado a cavalo teve as patas do animal presas ao degrau de sua igreja. A Senhora de Aparecida traz consigo a força dos fracos, que é a força do Espírito Santo, que não permite que o prepotente permaneça humilhando os preferidos e as preferidas de Deus. Numa ironia baseada no Êxodo, pode-se dizer que cavalo e cavaleiro foram derrubados de sua pretensão arrogante de impedir a marcha do Povo de Deus.
E Zacarias, pessoa escravizada. Numa das mais abomináveis situações de escravidão, como foi a do Brasil, esse homem ocupa um lugar de expressão da clara opção pelos pobres feita por Deus e por sua Santa Mãe. Zacarias era um homem negro que legitimamente fugiu de seu algoz. Infelizmente foi reconduzido ao cativeiro. Sabe-se que o destino para os que encontram um meio de viver longe do chicote (que ainda hoje continua estalando!) e são reconduzidos à escravidão era desesperador. A tortura e o espancamento que os esperavam eram da maior crueldade possível. Zacarias sabe o que as mãos brancas que recebem a hóstia do padre podiam fazer. Pede então para rezar diante da Virgem. Ela era negra como ele. Ela seria sua “vida, doçura e esperança” naqueles poucos minutos. Mas a Mãe de Deus repudia a escravidão. Ela recebe de Zacarias a negritude e a ele concede a quebra das algemas. Acontece ali um sacrum comercium. A Senhora dá a libertação das algemas e o homem escravizado lhe dá a cor de sua pele. Aquela que também é chamada justamente de “Senhora das Dores” é a “Senhora da Libertação”. A mulher que cantou o Magnificat novamente entoa seu canto.
E existem muitas pessoas fazendo um barulho ensurdecedor. Querem abafar o Magnificat. Mas, como abafar um canto que começou com Miriam, irmã de Moisés, ao atravessar o Mar Vermelho? Como abafar o canto de Ana, mãe de Samuel, dada por morta pela esterilidade e injustamente chamada de bêbada? Como abafar o canto da Igreja que celebra o ressuscitado entoando o Magnificat? Como calar a Mãe de Deus assunta à glória do céu? No meio de toda a gritaria da manipulação religiosa, ouçamos os pobres, as mulheres, os negros, os jovens, os LGBTQIA+ e todos aqueles e aquelas que lutam para não perder o direito de viver. No começo vai parecer um sussurro. Mas presta atenção! Se faça humilde com os humildes. O som vai aumentando. Até que límpida voz da Virgem de Nazaré sobressaia no meio de uma multidão cantando: “Derrubou os poderosos de seu trono e os humildes exaltou”.






