Os franciscanos e a educação: Um lugar por excelência ou um acidente de percurso?

Os franciscanos e a educação: Um lugar por excelência ou um acidente de percurso?

O texto não tem nenhuma pretensão de esgotar a reflexão ou de contemplar todo este vasto mundo, apenas visa acenar para essa relação, nem sempre devidamente considerada: a presença dos frades franciscanos junto ao ambiente da educação.

Frei Oton Júnior

A Campanha da Fraternidade de 2022 ao propor o tema da educação nos abre um leque quase infinito de reflexões. Nessa oportunidade, elegemos a relação entre o carisma franciscano e o mundo da educação, remontando rapidamente aos elementos da história franciscana a esse respeito para, em seguida, aterrissar em algumas práticas educativas na Província Santa Cruz na atualidade.

O texto não tem nenhuma pretensão de esgotar a reflexão ou de contemplar todo este vasto mundo, apenas visa acenar para essa relação, nem sempre devidamente considerada: a presença dos frades franciscanos junto ao ambiente da educação.

Distorções sobre a imagem de Francisco

Em 1972, foi lançado o filme “Irmão Sol, irmã lua”, de Franco Zeffirelli (1923-2019). Este filme contribuiu para uma visão romantizada de Francisco de Assis em seu processo de conversão, ficando clássica a cena em que o jovem canta “Doce é sentir” recostado numa árvore, em meio à relva verdejante. Ainda hoje, a imagem que muitas pessoas têm do jovem de Assis é influenciada por essa visão pueril. Mas esta não foi a única deturpação na imagem de Francisco. Ao longo da história franciscana, as diversas correntes de pensamento retrataram o filho de Bernardone conforme seu próprio ponto de vista. Há quem diga, por exemplo, que o próprio Boaventura, futuro ministro geral da Ordem, relegou Francisco à esfera do divino: “Francisco fez o que fez por que era santo. Quanto a nós, vivamos do nosso jeito!”

Diz a historiadora italiana Chiara Frugoni: “Boaventura empurrou para um segundo plano ou apagou as propostas mais ‘revolucionárias’ de Francisco. Todas sempre baseadas na aplicação ortodoxa do Evangelho. Foi ele que fez de Francisco um santo adocicado, como uma estatueta de presépio. Desta forma fixou e difundiu uma imagem unívoca de Francisco que se tornou especialmente o santo dos estigmas, o milagre possivelmente menos imitável. Pedia para admirar Francisco, cuja carne fora como que ‘divinizada’ pelo estrondoso milagre, mas não para tomá-lo como modelo, porque era impossível alcançar as alturas da sua santidade. Os frades deviam seguir outros santos franciscanos, tanto mais tradicionais, que a Ordem já podia recomendar. Por exemplo, o culto Santo Antônio de Pádua” (IHU. 02.08.15).

O Papa Argentino tem ajudado a trazer de volta a força e a profecia de Francisco, vendo nele as atualidades necessárias, mas sem exigir-lhe que seja uma panaceia para todo os problemas contemporâneos. Para o papa, Francisco de Assis “era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo” (Laudato Si, n. 10). Em sua encíclica sobre a fraternidade e a amizade social, relembra: “São Francisco, que se sentia irmão do sol, do mar e do vento, sentia-se ainda mais unido aos que eram da sua própria carne. Semeou paz por toda a parte e andou junto dos pobres, abandonados, doentes, descartados, dos últimos” (Fratelli Tutti, n. 2). No contexto das Cruzadas medievais e de tantas disputas entre cidades e reinos, “Francisco recebeu no seu íntimo a verdadeira paz, libertou-se de todo o desejo de domínio sobre os outros, fez-se um dos últimos e procurou viver em harmonia com todos” (Fratelli Tutti, n. 3).

No extremo oposto, chegou igualmente até nós a imagem de um Francisco da cruz, de semblante carregado, abraçado ao madeiro, tendo uma caveira por companhia. Sabemos da importância da cruz para o Assisiense, desde o Crucifixo de São Damião, o desejo de que o hábito representasse uma cruz, suas assinaturas com o tau, seu desejo de imitar as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo (RnB 1). Ou seja, a espiritualidade da cruz, da paixão do Senhor nos apresentam outra representação de Francisco, diferente daquela dos animaizinhos e cantigas ao amanhecer.

Entre o bucólico romantizado e o asceta sisudo, podemos perceber que diferentes grupos, com diferentes interpretações, em diferentes períodos estigmatizaram Francisco a seu modo.

Os frades e os estudos

Mas, e quanto aos estudos de Francisco e seus companheiros? O próprio Francisco se definia como ‘iletrado’, o que não quer dizer analfabeto, mas que não possuía estudos superiores, como entendemos hoje. Aprendera a escrever na escola elementar de sua cidade. Escrevia em geral em latim, mesmo que nem sempre de forma correta, e também em italiano. Por vezes, ditava seus escritos a um secretário, que certamente melhorava o texto. “Foi escritor acidental e não por profissão; o foi por necessidade pastoral, por zelo apostólico e por fidelidade a quanto lhe sugeria o Senhor para transmitir aos seus filhos e discípulos; o foi para exortar e aconselhar; o foi para louvar a Deus” (CANONICI, 1982, p. 8).

No capítulo 10 da Regra, no entanto há uma passagem intrigante: “… e os que não sabem ler não se preocupem em aprender” (RB 10, 8b). O estudioso da espiritualidade franciscana, nosso irmão Celso Mário Teixeira, numa entrevista a nós concedida em 2016, assim se manifestou: “Sou de opinião que Francisco não tinha receio quanto aos estudos nem lhes era contrário. A afirmação de que Francisco era contra os estudos não passa de uma ideologia que se implantou na Ordem e que, infelizmente, dura até nossos dias. Esta ideologia parte de uma interpretação tendenciosa (distorcida) de uma exortação contida na Regra Bulada. A ideologia que atribui a Francisco o repúdio aos estudos provém do grupo dos Espirituais. Este grupo sonhava com uma Ordem de frades pobres, completamente sem estudos, sem mestres. Tem seu início por volta do ano de 1243, mas seu florescimento se dá a partir de 1254”. De fato, pouco tempo depois, veremos vários frades imersos nas universidades medievais, logo em seu nascedouro.

Na apresentação da Ratio Studiorum Franciscanae (documento que legisla sobre os estudos na Ordem), o então Secretário de Formação e Estudos assim escreveu: “O tema dos estudos na Ordem, embora jamais tenha sido um assunto central na autoconsciência do franciscanismo, constitui, porém, um problema de âmbito muito amplo e complexo, que aparece com frequência na história dos Frades menores, quando se trata da difícil questão de nossa identidade. Em muitas ocasiões, este problema provocou debates e divisões entre os frades. Para alguns, os estudos constituíam uma traição à intenção de Francisco; para outros eram uma exigência da missão recebida da Igreja desde as origens da Fraternidade: a missão de anunciar o Evangelho. A corrente dos ‘espirituais’ defendia a minoridade e a simplicidade como forma própria e específica da evangelização dos Frades menores; a corrente dos ‘intelectuais’, ao contrário, defendia os estudos como exigência da pregação e necessidade para desempenhar a própria missão no mundo” (CARBALLO, 2001).

As Fontes Franciscanas indicam que o movimento de Francisco atraía todo tipo de gente, letrados e incultos, pobres e ricos, clérigos e leigos (cf. 1Cel 37, 4). Não consta em nenhum lugar que Francisco os proibia de estudar. Pelo contrário, em suas andanças (itinerância) do início, eles ganhavam livros que eram colocados à disposição de todos os frades (cf. LTC 43, 4; AP 27, 4), o que faz supor uma prática de estudos. O que Francisco parece pontuar é que, apesar da importância dos estudos, não são eles a garantia de um seguimento de Cristo autêntico, “mas atendam a que, acima de tudo, devem desejar possuir o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar” (Regra Bulada X,8b).

Devemos citar ainda o conhecido bilhete de Francisco a Antônio de Pádua, no qual o fundador autoriza o frade português a ministrar teologia aos frades: “A Frei Antônio, meu bispo, Frei Francisco [deseja] saúde. Agrada-me que ensines a sagrada teologia aos frades, contanto que, nesse estudo não extingas o espírito de oração e devoção, como está contido na regra” (Fontes Franciscanas e Clarianas, p. 107). Este bilhete foi escrito em 1223/4 num contexto em que se institui na Ordem o estudo da teologia com professor próprio, sendo Santo Antônio considerado o primeiro professor. Os conhecidos “sermões de Santo Antônio” e outros escritos seus são, na verdade, esquemas de sermões para serem desenvolvidos, como a auxiliar os futuros pregadores da Ordem, ou seja, têm uma preocupação eminentemente pastoral, não tanto acadêmica, como vemos em outros autores.

Na história da Igreja, sobretudo no contato com as massas pouco alfabetizadas, o anúncio catequético foi realizado eminentemente pelas pregações. Dessa forma, a ‘educação’ às verdades cristãs se serviu da oralidade de grandes pregadores, dentre os quais, Antônio de Pádua. A pregação era capaz de atingir dois ambientes complementares: o particular e o universal. O âmbito do particular visava o interior do ouvinte e o universal, como efeito do particular que atua no mundo real, materializava a Palavra nos diversos contextos. No fim, temos duas perspectivas complementares:  antropológica e sociológica.

No entanto, a pregação dos frades nem sempre foi bem recebida, afinal, não se restringiam a um território estreito de pastoral, podiam transitar em diversas realidades e isso causou um grande atrito entre o clero e os mendicantes. No fim, os frades chegaram a ser chamados de ladrões, embusteiros, charlatões e outros, mas foram grandes expoentes na pregação do Evangelho. Um segundo desconforto era que a pregação fazia parte do múnus sacerdotal de santificação do povo, isto é, era parte inerente do ofício do clero, o que não enquadrava muitos frades.

No caso das universidades medievais, que estavam se organizando por aqueles tempos, já havia uma presença significativa de frades franciscanos no corpo docente e discente. Após a entrada de Alexandre de Hales (1175-1245) na Ordem, os estudantes franciscanos que mais se projetaram foram Jean de la Rochelle, Eudes Rigaud, Guilherme de Meliton, que ajudaram Alexandre de Hales na compilação de uma Summa Fratris Alexandri. Estes devem ter sido, juntamente com Alexandre, professores de Boaventura.

No entanto, a presença dos mendicantes (franciscanos e dominicanos) nas universidades não foi tão tranquila, como nos relata Frei Celso: “O grande número de estudantes dominicanos e franciscanos que começaram a estudar e adquirir cátedras na Universidade de Paris despertou ciúmes nos seculares, liderados pelo Diretor, Guilherme de Saint’Amour. Quando Boaventura e Santo Tomás se formaram, não puderam lecionar (assumir suas cátedras), porque a direção os proibiu. O caso foi levado ao Papa, o chanceler da Universidade. A disputa durou uns três anos. No final, o papa deu parecer favorável aos mendicantes. Foi quando Tomás de Aquino começou a lecionar. Boaventura, que lecionava no studium franciscano de Paris, não assumiu a cátedra na Universidade, porque fora eleito ministro geral”.

Os professores franciscanos, inseridos em várias universidades medievais, como Paris, Oxford e Bolonha, apesar de enfoques de reflexão diferentes, mantiveram o vínculo ao carisma e projeto franciscano. Eles ficaram conhecidos como “Escola Franciscana”, sendo os principais expoentes: Boaventura de Bagnoregio (1221-1274), Alexandre de Hales (primeiro franciscano a lecionar em Paris), John Duns Scotus (que lecionou em Paris e Oxford), Pedro Olivi, e ainda Guilherme de Ockhan, Raimundo Lullo, Roger Bacon. Para dar um único exemplo de um frade franciscano na Universidade de Paris, podemos citar frei Gilberto Tournai, sucessor na cátedra de Boaventura, quando este se tornou Ministro Geral da Ordem Franciscana. Frei Gilberto escreveu um tratado intitulado “Rudimentum doctrinae”, a primeira tentativa sólida de compor uma enciclopédia pedagógica que abarcasse, sistematicamente, toda a teoria da educação.

Conclui Frei José Rodriguez Carballo, à época Secretário Geral para Formação e Estudos, hoje Secretário-Geral da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica: “O diálogo entre as duas posições foi difícil. Não faltaram suspeitas e acusações, além de exageros, tanto de uma como de outra parte. De qualquer forma, a ‘questão dos estudos’ obrigou a Ordem a debater ampla e radicalmente a própria identidade; um debate que chegou até os nossos dias. Hoje, graças à profunda e serena reflexão realizada sobre a nossa forma vitae, sobretudo após o Concílio e a promulgação das novas Constituições gerais, pode-se afirmar que a resposta à intentio Francisci não está num aut-aut, mas num et-et: Francisco, reafirmando o essencial, isto é, o Espírito do Senhor, e colocando-o como critério de todas as outras coisas, não apenas não condena ou proíbe os estudos, mas até afirma ‘estar de acordo’ que se ensine e, por consequência, que se estude (cf. CAnt 2)”. E ainda: “O sentido último da formação intelectual e dos estudos será sempre a vida e a formação integral do Frade menor: com esta convicção, a Ordem oferece a Ratio Studiorum OFM a todos os Frades, de forma que, sem extinguir ‘o espírito da oração e da devoção” (CAnt 2), mediante o estudo progridam no conhecimento da verdade – in notitia veritatis proficere – de modo que, ao mesmo tempo, cresçam na pureza da simplicidade’ (LegM, 11,1)”. (CARBALLO, 2001).

A presença franciscana na educação brasileira

“Todas as atividades orientadas a promover o ministério de evangelização, as quais o povo de Deus deve realizar e que são compatíveis com nosso estado de fraternidade e minoridade, podem ser assumidas por nossa Ordem”. (CONSTITUIÇÕES GERAIS OFM, n. 111)

A presença franciscana na educação foi um dos lugares em que o carisma foi vivido pelos frades em todo o mundo, tanto no ensino de base quanto nas universidades da Ordem ou que contam com a presença dos frades.

Se na educação no Brasil na maioria das vezes são citadas as contribuições dos Jesuítas, não se pode esquecer a contribuição franciscana, em personagens como Frei Vicente de Salvador (1564-1639 – datas aproximadas), baiano, primeiro brasileiro nato a escrever a nossa história; Frei Cristóvão de Lisboa (1653), autor de “O Jardim da Sagrada Escritura”, famoso livro de sermonários do homem que exerceu notável ação missionária, política, literária e científica no Maranhão e Grão-Pará; e o Orbe seráfico novo brasílico, do grande cronista pernambucano que foi Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão (1761), mestre educador, genealogista, cronista oficial de sua província religiosa, poeta, acadêmico e orador sacro (SANGENIS, 2018).

Longe de querer sintetizar a presença franciscana junto à educação no Brasil, acenamos brevemente para o período colonial, quando os frades entenderam que a melhor maneira de se aproximar dos nativos era ensinar-lhes um ofício, como o cultivo do solo, agindo pelo amor e não pela imposição. A Ordem especializou-se na tarefa missionária não só pela práxis, mas, sobretudo, pela preparação intelectual para as missões em instituições criadas para esse fim. Ao longo do período Colonial, os franciscanos praticaram os três níveis de ensino: elementar, secundário e superior.

No convento de Olinda (o primeiro da Ordem no Brasil), os franciscanos fundaram um educandário para os filhos dos indígenas, onde os instruíam na leitura, escrita, canto e música. Neste educandário além do catecismo da doutrina cristã, as crianças indígenas aprendiam a ler, escrever, fazer contas, cantar e tocar instrumentos musicais.

No entanto, a presença dos franciscanos no Brasil não foi pacífica. As desavenças entre os missionários e os portugueses se agravaram devido ao modo como os colonizadores tratavam os indígenas. Essa divergência resultava dos objetivos diferentes que cada um desses grupos apresentava: os franciscanos atuavam para convertê-los e os colonos para explorar a força de trabalho.

“Pela dedicação e desprendimento em favor dos indígenas, os frades os cativaram porque se assemelhavam a eles. Na familiaridade com os animais, na relação com o mundo vegetal, na abnegação por bens materiais, na generosidade em repartir o que possuíam, esses homens demonstravam o que é importante na vida e o que é concebível para a formação do humano. Onde os colonos viam lavoura, engenhos, poder e índios como escravos, os missionários viam pessoas a serem convertidas, embora estivessem cientes das tramas, inconstância e vingança dos nativos” (LIMA e COSTA, 2020, p. 128).

A Educação na Província Santa Cruz

No caso da Província Santa Cruz (que até a década de 60 se estendia por Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Sul), conforme os dados estatísticos de 1950, quando foi estabelecida a Província, os franciscanos possuíam colégios em seis cidades, cinco mineiras e uma gaúcha: “São João del-Rei, Belo Horizonte, Pará de Minas, Teófilo Otoni e Muzambinho, em Minas Gerais, e Não-Me-Toque no Rio Grande do Sul. Em todos os colégios, eram ministrados os cursos secundários” (AZZI, 2014, p. 209).

Um dos que defendiam a presença dos frades junto aos centros educativos estava frei Feliciano van Sambeek, que nos deixou recentemente (+02.06.2021). Dizia o frade: “Ninguém negará que nós, como sacerdotes e como franciscanos, devemos estar presentes entre a juventude e no mundo da juventude que é a escola. Antes mais padres para a juventude do que menos. Antes atender a mais colégios do que a menos. A questão era somente a respeito do modo mais adequado para realizar essa tarefa. Existem diversas opiniões frequentemente divergentes entre os confrades sobre a obra educacional da nossa Província. Esperamos promover debates proveitosos tanto para os confrades que se dedicam à juventude, como para o governo da Província, a cujo critério ficará a execução de inovações mais profundas. Pedimos intensa cooperação, máxima compreensão pelas opiniões dos outros e paciência” (Revista Santa Cruz, 1965, p. 33).

Muitos frades se dedicaram igualmente aos estudos superiores, nas faculdades de filosofia e teologia, ministrando diferentes disciplinas. Cabe lembrar os estudos teológicos realizados em Divinópolis, onde, a partir dos anos trinta, começou a receber estudantes e em seguida foi transformado no teologado da Província, experiência que durou até a década de sessenta. Por ali passaram, por exemplo, Dom Aloísio Lorscheider, Dom Cláudio Hummes, Frei Bernardino Leers, dentre tantos outros. A Província manteve ainda outros centros de formação (seminários), como em Santos Dumont e em cidades do Rio Grande do Sul, sempre contando com frades no corpo docente.

Mas, paralelamente aos colégios e faculdades, na hoje chamada ‘educação formal’ houve várias iniciativas de alfabetização, de formação de professoras, com assuntos de cidadania, como higiene, alimentação, participação popular, em diversas regiões da Província. Como exemplificação desse movimento ligado à educação popular, tomamos a prática de pastoral rural exercida por Frei Bernardino Leers (1919-2011) na região de Divinópolis, no centro-oeste mineiro.

A pastoral rural em Divinópolis. Solicitude pela educação popular

Nas roças, as professoras exerciam uma liderança natural, mas sua formação era precária. Muitas, assim que acabavam a instrução básica, já começavam a lecionar. Para melhorias nas condições de vida da população rural, o aspecto educacional não poderia ser deixado à margem, e começou-se então um movimento de formação e interação entre as professoras da cidade e as da roça. Aproveitava-se o dia do pagamento para pequenas reuniões a fim de tratar de assuntos específicos da educação na zona rural, como apoio mútuo, troca de experiências, orientação catequética, melhoramento do ensino rural, formação do professorado. “A ideia não foi nova em Divinópolis – lembrava Frei Bernardino. Sua história anota um precursor, bem florescente, do atual centro. Mas o vento mudou e o vento levou, como tantas vezes acontece nas coisas humanas”. (LEERS, 1965, p. 120)

A Acar (Associação de Crédito e Assistência Rural – futura EMATER) programou várias campanhas, dentre elas, a de melhoria no salário do professorado, reforma das escolas, campanha de canecas e outros utensílios, doação de leite em pó e de material escolar. Promoveram-se igualmente vários cursos de formação profissional, dentre os quais o curso para mães (chamados de ‘retiros’, para que os maridos deixassem as mulheres participarem). Nestes, havia orientações higiênicas e formação da consciência; cursos pedagógicos para a formação de professoras, geralmente nas férias, e que contou certa vez com 107 inscrições; curso de parteiras em parceria com o hospital são João de Deus (prática proibida na época, mas que recebeu mesmo assim o apoio dos profissionais do hospital); cursos diversos para a prevenção ao sarampo, varíola, hanseníase, doenças venéreas, nos quais se formavam agentes multiplicadores. (BARBOSA, 2005, p. 67).

Graças à organização do professorado, foi possível aprovar três leis na Câmara Municipal, criando conselhos educacionais para as escolas rurais, criando o cargo de orientadora rural, e estabelecendo normas de convênio entre a Prefeitura e o povo local para construção de escolas rurais.

Sobretudo na primeira metade da década de sessenta, Frei Bernardino escrevia semanalmente cartas às professoras rurais a fim de manter contato, combinar os assuntos práticos da formação na cidade e as idas à roça. Tais cartas eram enviadas pelos ônibus que partiam para a zona rural e entregues sem problema, uma vez que todas as pessoas eram conhecidas. Nos arquivos pessoais de Frei Bernardino há 65 dessas cartas, escritas entre 1961 e 1967, batidas à máquina e mimeografadas. Os assuntos giravam em torno às iniciativas de saúde, às campanhas de material realizadas na cidade, à necessidade de oficializar o CODAR (Conselho Divinopolitano de Assistência Rural) e a ACAR, à implantação dos programas de Rádio do Governo Federal visando à alfabetização, dentre outros. (ARAÚJO JR, 2012, p.182).

A presença atual dos frades na educação

Nos dias atuais, os frades franciscanos continuam a se dedicar também à educação, formal e informal. É significativa a atenção dada às crianças e adolescentes do Colégio Santo Antônio, em Belo Horizonte, reconhecido nacionalmente pela excelência acadêmica, conciliada à espiritualidade franciscana. Ligadas ao Colégio, há duas creches, CESFRAN e CESCLAR, respectivamente nos bairros de Carlos Prates e Vila Pinho, na Capital mineira. Ao chegar à idade escolar do Ensino Fundamental, os alunos e alunas das creches podem ser integrados ao Colégio Santo Antônio. Os alunos da gratuidade têm ainda um reforço escolar que os auxilia em questões pontuais. Tal reforço é feito nas unidades do CEFAE (Centro Franciscano de Apoio Escolar).

Outra importante presença dos frades se dá junto à Associação Irmão Sol, que acolhe crianças e adolescentes abrigadas pela justiça por terem em risco os direitos previstos pelo Estatuto da Criança e do Adolescentes. A medida protetiva visa resguardá-los perante todo o tempo que elas permanecerem em acolhimento, sendo garantidos o direito a educação, saúde, alimentação e tudo aquilo que se compreende como educação integral.

Por fim, lembramos da EDUCAFRO-Minas, que prepara os jovens das periferias para o ingresso nas universidades públicas e particulares, ao mesmo tempo e que os educa para a cidadania e a participação social, descortinando horizontes na construir uma sociedade mais igual e solidária. 

Outras iniciativas educacionais, maiores ou menores, poderiam ser lembradas, como os frades que se dedicam às aulas sobretudo nas faculdades de filosofia e teologia, mas julgamos que para este objetivo, já foi possível perceber como a presença dos frades no ambiente educacional tem sido uma constante e, nos tempos atuais, uma marca significativa.

Considerações finais

O modo de vida inaugurado por Francisco de Assis atraiu uma multidão de homens e mulheres, pobres e ricos, letrados e incultos. Francisco nunca impôs aos seus seguidores um modo único de consagração. Saltam aos olhos, por exemplo, seus escritos que se iniciam com a expressão “os que quiserem”, indicando um grau de discernimento necessário a cada pessoa, com seus dons e disposições. Assim, temos irmãos nos eremitérios e nas missões, celibatários e casados (na Terceira Ordem), na administração dos sacramentos e na educação, fundamental e universitária.

Iniciamos este artigo com uma provocação: afinal, a presença dos frades franciscanos na educação é um lugar por excelência ou um acidente de percurso? Esperamos que agora já tenha ficado claro que não se trata nem de um acidente nem de um único modo de viver o carisma de Francisco.

Ao longo do texto, citamos por diversas vezes o instigante documento: “O Sabor da palavra: a vocação intelectual do frade menor hoje” (2005). Nele, vemos a riqueza do carisma franciscano ao despertar diversos modos de vida, inclusive aquele dedicada ao mundo da educação. E propõe a reconciliação entre os diversos ambientes: “Se parece que os frades se deixam absorver completamente pelos ministérios e serviços, é necessário recordar-lhes a necessidade do estudo: uma adequada preparação intelectual é fundamental em qualquer atividade apostólica. Ao mesmo tempo, aos que se dedicam ao estudo, à pesquisa e ao ensino de forma prioritária, sinto a necessidade de lembrar que estas atividades não podem ser separadas do dom e do esforço de viver com alegria as exigências de nossa forma vitae (CARBALLO, 2005, p. 47).

Mas, convenhamos, a vida intelectual pode trazer consigo certa impáfia, um sentimento de superioridade e arrogância. No caso franciscano, isso nunca poderá ter lugar. “O verdadeiro intelectual é sempre capaz de perguntas; é humilde e corajoso ao prestar atenção sincera aos argumentos de quem tem posições diferentes. Essa disposição nos impede de cair em várias formas de ideologia que pretendem tornar exclusiva uma idéia ou parte dela e são fruto da falsa segurança de uma fé que tem medo de pensar e pensa poder ignorar as perguntas e as ambiguidades presentes na realidade. (CARBALLO, 2005, p.43).

Em tempos em que a educação no Brasil sofre ataques cotidianos, em que a ciência se vê questionada, em que o incentivo às crianças e jovens pela educação se vê diminuído, em que aos pobres se veem barrados nos portões, erguemos um brinde a multuidão de mulheres e homens que se dedicaram e se dedicam à educação. Dentre eles, muitos frades menores!

Concluímos, fazendo memória da Declaração Gravissimum Educationis  (1965), do Concílio Vaticano II:

“Este sagrado sínodo declara também que as crianças e os jovens têm direito a ser motivados a valorizar os valores morais com uma consciência justa, a abraçá-los com uma adesão pessoal, juntamente com um conhecimento e amor mais profundos de Deus. Consequentemente, roga a todos aqueles que ocupam cargos de autoridade pública ou que estão encarregados da educação a zelarem para que a juventude nunca seja privada deste sagrado direito. Além disso, exorta os filhos da Igreja a darem a sua atenção com generosidade a todo o campo da educação, tendo especialmente em mente a necessidade de estender muito em breve os benefícios de uma educação e uma formação adequada a todos, em todas as partes do mundo” (n. 1)

Referências

ARAÚJO Jr, Oton da Silva, Moral e Cultura: A contribuição de Frei Bernardino Leers para a renovação da Teologia Moral no Brasil, em diálogo com o Mundo Rural de Minas Gerais, (Tese de Doutorado), Pontifícia Universidade Lateranense, Academia Alfonsiana, Roma, 2012.

AZZI, Riolando, História dos Franciscanos da Província Santa Cruz, Vol. 1. Belo Horizonte: Província Santa Cruz, 2011.

BARBOSA, Marcos Sávio, Nas Trilhas do Oeste Mineiro: um novo jeito de educar. Dissertação de Mestrado, UNICOR, Faculdade de Pedagogia, Três Corações 2005.

CANONICI, Luciano (org.), Gli Scritti, Assisi: Edizione Porziuncola, 1982.

CARBALLO, José Rodriguez, O Sabor da Palavra: a vocação intelectual do frade menor hoje, Cúria Geral OFM, 2005.

CONFERÊNCIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL, Fontes Franciscanas e Clarianas, Petrópolis, Vozes: 2004.

FRUGONI, Chiara, Uma outra face de Francisco de Assis,  (disponível em http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/544964-a-outra-face-de-sao-francisco-de-assis-entrevista-especial-com-chiara-frugoni), 02.08.15.

LEERS, Bernardino, Movimento Rural em Divinópolis, in Santa Cruz 30 (1965).

LIMA, Maria do Carmo e COSTA, Célio Juvenal, O protagonismo da educação franciscana no Brasil colonial, Revista Expressão Católica, 2020, p.123-131.

ORDEM DOS FRADES MENORES, Ratio Sutiorum, 2001.

SANGENIS, Luiz Fernando Conde, O Franciscano e o Jesuíta: tradições da educação brasileira, revista Educação e Realidade, 43(2) 2018, (disponível em https://www.scielo.br/j/edreal/a/7XqLQTYJBHHZ7vgWFchtW9P/?lang=pt).

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