Mais do que fenômenos extraordinários, a verdadeira santidade do Padre Pio fundamenta-se na vivência diária da oração, da celebração da Missa e da caridade no espírito de São Francisco de Assis.
Frei Glaicon G. Rosa, OFMCap
Falar de São Pio de Pietrelcina é falar de um dos santos mais conhecidos e amados da Igreja no século XX. Seu nome imediatamente nos recorda os estigmas, as experiências místicas, o dom de discernimento, as longas horas no confessionário, os sofrimentos físicos e espirituais e tantos outros acontecimentos extraordinários que marcaram sua vida. Entretanto, existe o risco de olhar para São Pio apenas a partir do extraordinário e esquecer aquilo que, de fato, constituiu o fundamento de sua santidade: ele foi um Frade Capuchinho que aprendeu a transformar o cotidiano em lugar de encontro com Deus.
São Pio nasceu Francesco Forgione, em Pietrelcina, em 25 de maio de 1887. Ainda jovem, ingressou na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, assumindo o nome de Frei Pio de Pietrelcina. Foi formado na escola espiritual de São Francisco de Assis e viveu profundamente a identidade própria da família capuchinha: a simplicidade, a pobreza, a vida fraterna, a penitência, a contemplação, o amor à Eucaristia, a devoção à Paixão de Cristo e a proximidade com os pobres e sofredores. Não se pode compreender São Pio separado dessa raiz franciscana e capuchinha. Ele não foi simplesmente um homem que recebeu fenômenos místicos extraordinários; foi, antes de tudo, um frade que procurou viver radicalmente o Evangelho segundo a forma de vida de São Francisco.
O Papa Bento XVI, ao celebrar a Eucaristia em San Giovanni Rotondo, afirmou que São Pio foi um “seguidor autêntico de São Francisco de Assis”1 e destacou que sua vida foi marcada pelo amor a Cristo, pela participação na Cruz, pela reconciliação e pelo serviço aos que sofrem. O mesmo Papa resumiu sua missão em duas palavras: oração e caridade. Essa afirmação é fundamental.
A vida espiritual de São Pio não pode ser reduzida aos fenômenos extraordinários que acompanharam sua existência. Seu verdadeiro caminho de santidade encontrava-se naquilo que fazia todos os dias: celebrar a Santa Missa, permanecer diante de Deus, rezar o Rosário, atender os penitentes, obedecer aos superiores, suportar incompreensões, acolher os que sofriam e oferecer a própria vida por amor a Cristo.
Para São Pio, a oração não era uma atividade entre tantas outras. Ela era o centro a partir do qual todas as outras atividades recebiam sentido. O Papa Francisco, recordando sua vida, afirmou que São Pio “imergiu-se na oração para aderir sempre melhor aos desígnios divinos”2. A Santa Missa constituía, segundo o Papa, “o coração de todos os seus dias e a plenitude da sua espiritualidade”. É justamente aqui que encontramos uma característica profundamente franciscana. São Francisco não procurou uma experiência religiosa distante da realidade, mas desejou conformar toda a existência a Cristo pobre, humilde, crucificado e ressuscitado. São Pio percorreu o mesmo caminho. Sua contemplação não o afastava das pessoas; pelo contrário, fazia-o aproximar-se delas com maior compaixão. Sua oração conduzia à caridade. E sua caridade nascia da oração.
Por isso, São Pio pode ser compreendido como um verdadeiro frade da oração cotidiana. A cela, o coro, o altar, o confessionário, o convento, os irmãos, os penitentes e os enfermos tornaram-se os espaços concretos nos quais sua relação com Deus era continuamente vivida. Em uma de suas cartas, falando sobre suas lutas interiores, escreveu:
“Todos os horríveis fantasmas que o demônio me vai introduzindo na mente desaparecem quando, confiante, me abandono nos braços de Jesus.”3

1 BENTO XVI. Homilia durante a visita pastoral a San Giovanni Rotondo, 21 de junho de 2009.
2 FRANCISCO. Discurso aos fiéis de Pietrelcina, 17 de março de 2018.
3 São Pio de Pietrelcina, Epistolário I, Carta 57, p. 250. Correspondência com os diretores espirituais (1910-1922). San Giovanni Rotondo: Edizioni Padre Pio da Pietrelcina.






