Frei Eliseu Tijdink atravessou o oceano para plantar esperança no Brasil,
celebrou sua Páscoa neste domingo, 14 de junho de 2026, aos 92 anos.
Por EPC – 14 de junho de 2026
Neste domingo, a família franciscana das Minas Gerais se despedem de um daqueles missionários que marcam gerações não pelo barulho, mas pela presença firme e silenciosa. Frei Eliseu Tijdink, franciscano nascido na Holanda em 1933, celebrou sua Páscoa aos 92 anos, deixando um rastro de obras, afeto e fé por onde passou.
Das guerras à vocação
Natural de Lichten-voorde, uma pequena cidade no leste dos Países Baixos, Frei Eliseu Tijdink cresceu sob a sombra da Segunda Guerra Mundial. Ainda menino, viu seu país ser ocupado pelas tropas nazistas e, com a coragem que mais tarde o acompanharia por toda a vida, participou de ações de resistência contra os invasores. Essa experiência precoce com a injustiça e a luta pela liberdade forjou nele um espírito de defesa dos mais frágeis — marca que jamais se apagou.
A vocação franciscana despertou cedo, inspirada pelos frades de sua região. Apesar das dificuldades com a matemática no seminário menor, foi acolhido por um frei dedicado que lhe ensinou que os obstáculos se superam com afeto e persistência. Mas foi ao ler livros e relatos de confrades brasileiros que seu coração se voltou para o Sul. Em 1959, ainda sem saber uma palavra em português, desembarcou no Brasil. Nunca mais daqui saiu.
Chegada ao Brasil: o jipe, a floresta e a coragem de dizer não
O primeiro destino foi Ubá, em Minas Gerais. Ali, frei Eliseu mergulhou no aprendizado da língua e da cultura. Visionário e prático, adquiriu um jipe — verdadeira novidade para a época — para facilitar o trabalho pastoral nas zonas rurais. Mas foi ao defender uma floresta nativa que pertencia ao patrimônio da paróquia, impedindo sua venda, que ele provou do preço da profecia: sua postura firme lhe rendeu uma transferência para a Bahia.
Morou sozinho em Lagedão, onde com as próprias mãos ajudou a construir igrejas e arrecadar fundos. Ali, transformou uma simples polia de jipe em um engenhoso sistema para cortar madeira — a criatividade a serviço da missão.
Em Caravelas, no extremo sul da Bahia, enfrentou o isolamento, as dificuldades de transporte e os estranhamentos culturais. Mas também viu florescer projetos sociais concretos, como uma pequena fábrica de filtros de água para comunidades carentes — um gesto que unia cuidado com a criação e amor ao próximo.
Foi secretário do primeiro bispo da Diocese de Caravelas, acompanhando viagens longas por estradas de terra e levando a palavra e os sacramentos aos rincões mais esquecidos. Tornou-se, defensor não apenas da fé, mas do patrimônio natural e dos direitos das comunidades rurais.
A rádio como altar e tribuna
Em 1986, Frei Eliseu Tijdink assumiu um desafio que marcaria definitivamente sua trajetória: a direção da Rádio Santa Cruz, em Jequitinhonha, Minas Gerais. A região do Vale do Jequitinhonha, historicamente marcada pela seca e pela pobreza, ganhava naquele frade holandês uma voz incansável.
Com olhar de gestor e alma de evangelizador, ele modernizou a emissora, investiu na formação de colaboradores e ampliou o sinal. Mais do que isso: transformou a rádio num instrumento de participação popular, conscientização social e anúncio do Evangelho. Programas comunitários, denúncias de injustiças, chamados à solidariedade — tudo cabia no dial[2] da Santa Cruz.
“A comunicação é alma da evangelização”, costumava repetir. Sob sua liderança, a rádio tornou-se referência no interior mineiro, provando que um meio de comunicação pode ser, ao mesmo tempo, profissional e profundamente humano.
74 anos de hábito e um legado que não se cala
Em 2026, Frei Eliseu Tijdink celebrou 74 anos de vida religiosa. Na ocasião, fez questão de refletir publicamente sobre a vocação, o trabalho missionário e o legado franciscano no Brasil. Mesmo após a aposentadoria, continuou ativo — participando de missões, visitando comunidades e batendo na tecla da importância da Rádio Santa Cruz, que considerava um instrumento vital para a Igreja e para o povo.
“Meu compromisso não tem data para acabar”,
dizia com um sorriso que misturava a serenidade holandesa e a calorosidade brasileira.
A Páscoa definitiva
Neste 14 de junho de 2026, Frei Eliseu Tijdink finalmente encontrou o descanso que nunca buscou para si. Sempre em movimento, sempre a serviço, ele partiu na certeza de quem plantou mais do que colheu.
Deixa um rastro de gratidão entre o povo da Bahia e de Minas, entre os ouvintes da Rádio Santa Cruz, entre os confrades que o chamavam de irmão e os leigos que o chamavam de amigo.
Como ele mesmo gostava de lembrar, “a missão continua”. Mas hoje, o silêncio da Páscoa fala mais alto. Frei Eliseu Tijdink não morreu: celebrou sua páscoa.
E quem o conheceu sabe que, de algum lugar, ele ainda estará sintonizado na frequência da esperança.
Descanse em paz, frei Eliseu.
E que o vento do Jequitinhonha leve adiante a sua voz.
“Que Deus acolhe junto com seus anjos e santos
Descanse em paz Frei Eliseu.”
“Obrigado, rezemos por Ele.
Por tudo bem que fez pelo Vale.
Tinha um grande Amor por Jequitinhonha”
“QUERIDO FREI ELISEU
Que a estrada se abra à tua frente.
Que o vento sopre suavemente às tuas costas.
Que o sol brilhe cálido sobre o teu rosto.
Que a chuva caia serena sobre os teus campos.
E até que nos encontremos novamente,
que Deus te guarde na palma de suas mãos
Siga em Paz.”
[1] Este texto baseou-se, com livre interpretação em: LOPES, Frei Luciano. Entrevista concedida a Frei Luciano Lopes, por ocasião dos 60 anos de vida consagrada de Frei Eliseu Tijdink. Revista Santa Cruz, ano 2012, páginas: 70 a 82.
[2] O termo dial refere-se à frequência numérica ou ao painel giratório de um aparelho de rádio onde se ajusta a sintonia das emissoras. Para sintonizar uma rádio, você precisa saber a frequência exata (em MHz para FM ou kHz para AM) e digitá-la ou girá-la no receptor.





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