Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as Tuas criaturas… 

Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as Tuas criaturas… 

Inspirada no legado de amor às criaturas de São Francisco de Assis e no chamado da encíclica Laudato Si’, a reflexão destaca o tema “Água Viva” de 2026 e nos convoca a uma urgente conversão ecológica em defesa da nossa Casa Comum.

Maria do Rosário dos Santos 

Assim o Pobrezinho de Assis, já no limiar do encontro com a Irmã Morte, canta e bendiz a toda a criação. Não como um mero ato de despedida, mas sobretudo como culminância de entrega total de uma vida pautada na contemplação, no amor e no cuidado com os seres a quem chamava fraternalmente de irmãos e irmãs. Francisco compreendia que tudo fora criado por Deus, como professamos no Credo Niceno-Constantinopolitano: “Creio em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”. Nisto se fundamentava todo o seu modo de sentir, existir e habituar-se no mundo. 

Em 2015, outro Francisco voltou o nosso olhar para a criação. Em sua Carta Encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco nos recorda: “Todos podemos colaborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a partir da sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades” (LS14). O bispo de Roma exorta a todas as pessoas de boa vontade a olharem para a criação como irmã, movendo-se em direção a uma autêntica conversão ecológica e ao cuidado com a nossa Casa Comum.  

Hoje, 1º de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, inicia-se o Tempo da Criação, que se estende até o dia 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis. Ao longo desse tempo favorável (kairós), somos convidados a nos engajar por meio da oração ecumênica, da mobilização comunitária e de ações concretas em defesa da nossa Casa Comum. 

O Comitê Diretivo Ecumênico do Tempo da Criação propõe anualmente um tema para reflexão. Neste ano de 2026, o tema é “Água Viva”, inspirado na profecia de Ezequiel (Ez 47,1-12). A visão do profeta Ezequiel é, antes de tudo, um convite à esperança: o rio que brota do Templo é sinal da presença divina que gera vida, restaura o que estava seco e faz florescer até os lugares mais áridos. Mergulhar nessas águas recorda-nos o nosso Batismo, fonte de vida nova e compromisso permanente com o Reino de Deus.  

São Francisco, em seu louvor à criação, dedica uma estrofe à nossa irmã água: “Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Água, que é muito útil e humilde, e preciosa e casta”. À luz da espiritualidade franciscana e da ecologia integral, a água da visão profética de Ezequiel não alcança apenas o coração humano, mas toda a criação. Ela nos convoca a uma verdadeira conversão ecológica, reconhecendo que tudo está interligado e que cuidar da Casa Comum é expressão concreta da nossa fé. A água que nasce do Templo torna fecunda a terra, devolve a vida aos rios, alimenta as árvores e sustenta as criaturas, revelando o sonho de Deus de uma criação reconciliada e plena. 

Em 1205, diante do Crucifixo de São Damião, Francisco recebeu a missão: “Vai, Francisco, e restaura a minha Igreja que está em ruínas!”. Como discípulos e discípulas de Cristo, somos chamados hoje à restauração e ao cuidado da Casa Comum que, como testemunhamos, clama em colapso. A exemplo do Seráfico Pai, reconhecemos em cada criatura um irmão e um reflexo da bondade do Criador.  

Que, durante este Tempo da Criação, possamos louvar e bendizer ao Senhor como fez Francisco, assumindo a profecia, a denúncia, o canto e a oração como compromisso inegociável de vida evangélica.    

Leia outras notícias